domingo, setembro 30

Pergunte ao Pó (Ask the Dust, EUA, 2006)

Estou postando isso aqui pra o mês de Setembro não ficar sem nenhum post.


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Só é preciso ler os três primeiros parágrafos do romance Fome, de Knut Hamsun, para saber de onde John Fante extraiu toda a sua essência literária. Ok, ok, estou exagerando: naturalmente que Fante tem o seu canto particular e que sua obra-prima Pergunte ao Pó é um livro maravilhoso, mas após assistir à adaptação homônima para o cinema fico até com vergonha de indicar o livro para alguém que só assistiu ao filme, tamanha a ruindade deste último.

O homem por trás de toda essa barbárie é Robert Towne, cujo crédito detém-se no roteiro adaptado e na direção. Como? Se eu não errei o nome? Negativo. É difícil de acreditar, mas é realmente Robert Towne, o mesmo roteirista do clássico Chinatown, estrelado por Jack Nicholson. O que ele fez para deixar Pergunte ao Pó tão ruim, não pergunte a mim - pergunte ao pó, talvez seja melhor.

Acabo de decidir que pôr uma câmera nas mãos de Robert Towne é crime; é mais confiável deixá-lo apenas escrevendo. Salma Hayek, uma beldade por excelência, não conseguiu salvar o filme com sua beleza avassaladora. Colin Farrell mudou a minha postura sobre a pena de morte. Olhem só o pôster do filme: engana, e engana muito.

O cinismo espontâneo de Arturo Bandini deu lugar à má dicção de Colin Farrell. A desesperança de Los Angeles e o niilismo sutil presentes na obra de Fante fizeram permuta com o melodrama barato hollywoodiano de quinta, numa tosca, ingênua e frustrada tentativa de deixá-lo meio comercial meio alternativo. Não entendo lá essas coisas de cinema, mas me atrevo a dar uns palpites: Walter Salles faria uma adaptação mais decente. Falo sério. Talvez John Huston, que já morreu, mas não tenho certeza: Huston só almejava o grandioso e as locações estrangeiras (ele até adaptou Os Mortos, o contaço - em todos os sentidos - de James Joyce). Sam Mendes tem um bom histórico. Mas o melhor mesmo é esquecer: não dá para chorar o pó, digo, o leite derramado.

Para quem não leu o livro talvez esse filme seja “ASSISTÍVEL”, mas para quem já se deleitou com a obra Pergunte ao Pó e esperava alguma coisa no mínimo respeitável, a nota merecida não pode ser maior que “RUIM”.

NOTA:

3 comentários:

davi disse...

Ah, esse filme? O que eu te falei? Não assisti, não vou assisti, e não gosto desde já.

Aloma disse...

Sobre o filme ser ruim ou bom não posso opinar, uma vez que ainda não o assisti. Por outro lado, se me permite jogar a moeda... cinema e literatura apesar de se complementarem são artes distintas. Por isso, não cobremos de um filme, ou melhor de um diretor, uma projeção tal qual aquela que imaginamos numa obra literária. Sabe porque? a pessoa que escreveu o livro é uma e que, certamente, no momento de produção pensou em algo que ganhou já na publicação significados distintos, de acordo com os modos concebidos pelos leitores. O cineasta que adaptou a obra funciona como um leitor e que, embora tenha o papel de transmitir a história de uma maneira que seja compreendida coletivamente, porque ele tá fazendo cinema e não literatura, ele também tem a liberdade pra assumir a narrativa sob um novo viés, cortando, acrescentando e até mesmo, sugerindo. Agora o resultado, tanto pode ser uma merda quanto uma obra de arte. Isso eu deixo pra uma outra discussão quando eu já tiver assitido ao filme. Escrevi pra caramba né, té mais!!!

Daniel disse...

Você é sempre bem-vinda!

O filme tem em DVD, se eu não me engano, na VideoClue.