sexta-feira, outubro 19

Asas do desejo (Der Himmel Über Berlin, ALEMANHA, 1987)



Meu primeiro contato com Win Wenders se deu através do belíssimo documentário Buena Vista Social Club. Confesso que, embora eu tenha gostado muito, não saberia dizer, como escreveu Mário de Andrade em relação a Murilo Rubião, se havia “gostado certo”. Confesso também que após assistir a película pouco me importei com o nome da direção; minha atenção voltara-se para Ibrahim Ferrer, Rúben González, Ry Cooder e, naturalmente, a própria banda BUENA VISTA SOCIAL CLUB, um conjunto de músicos tão bem-dotados que o documentário não parecia real - parecia o sonho de alguém adaptado para o cinema.

Win Wenders. Voltei a procurá-lo. Eu o fiz numa época em que a chama do sentimento culto despertava-me de forma inconseqüente; a sede pela “intelectualização” do meu status (nada mais natural para um jovem que se dizia amante das artes) levava-me a sinistras situações. Dizia que o Oscar era uma balela, mas achava uma injustiça Martin Scorsese nunca o ter abocanhado. Nas locadoras, dirigia-me compulsivamente à seção de cinema europeu, levando Iñarritu (mexicano) para casa como cinema europeu. Exaltava Amelie Poulain e dizia: “O cinema europeu é o melhor que há”. Qualquer filme em língua não-inglesa era europeu. Nunca francês. Nunca italiano, mexicano, argentino, japonês (!) ou turco. Era sempre aquela expressão jubilosa e pomposa: o cinema europeu. Sem contar que eu dizia que os filmes brasileiros eram muito melhores que os de Hollywood. Sim, eu também passei por essa fase. É normal. Não me envergonho, claro - mas acho muita graça.

Então procurei Win Wenders. Desisti: filme “europeu” em Feira de Santana, minha cidade, é uma raridade sem tamanho. Alguns meses (ou anos?) depois, já apaixonado pela atriz Holly Hunter, li em alguma de suas biografias que um de seus filmes prediletos era Wings of Desire, de Win Wenders. Lembrei do nome na hora. Saí procurando o filme tresloucadamente e evidentemente não o encontrei em lugar algum. A única solução era baixar da internet. Dias de angústia. Semanas. Cada 0,1% do download concluído era festejado com garrafas e mais garrafas de vinho. Quando finalmente o consegui em minhas mãos pronto para dirigir-se ao aparelho de DVD, mergulhei numa apreensão sem precedentes. E se eu não gostar? E se for ruim, e eu me decepcionar com Holly Hunter? E se eu disser que gostei só porque Holly Hunter gosta? E se ninguém gostar? Essas foram, entre outras, as toscas perguntas que passaram pela minha cabeça. Fui assistir ao filme após séculos de adiamento.

*

Depois dos dez primeiros minutos, eu estava maravilhado.



Arrependi-me de ter demorado tanto. Todo o filme é belo e original do início ao fim: direção (que direção!), roteiro, maquiagem, cenário, montagem (que montagem!), atores, personagens (que personagens!) e entrelinhas (que entrelinhas!). Após assistir o filme fui emprestá-lo a Davi, meu colega moedotecário, cheio de orgulho, confirmando-lhe o ótimo e refinadíssimo gosto de Holly Hunter.

A história é, em resumo, a seguinte: um anjo observa a vida dos humanos. Esse anjo é imortal. Ele fica entediado com sua vida infinita e acaba virando humano para desfrutar os prazeres e desavenças da vida. Obviamente tem mulher no meio (e que mulher!). Lembraram de Cidade dos Anjos, com Nicholas Cage? Pois é: Cidade dos Anjos é um remake deste, e talvez o pior e mais pilantra da história cinematográfica estadunidense. Esqueçam aquele filme bastardo. Assistam Wings of Desire. Darei apenas um exemplo da genialidade de Win Wenders, que vocês jamais encontrarão no filme-remake estrelado também por Meg Ryan: na versão original alemã, o mundo dos homens é colorido; o dos anjos, preto e branco. Prontinho: dei-lhes horas de reflexão.

Não posso falar muitas coisas do filme para não estragar a surpresa. Basta dizer que Win Wenders é um dos maiores cineastas alemãos da segunda metade do século XX. Basta dizer que a cena em que o soberbo ator Peter Ganz esfrega suas mãos uma na outra e diz para o anjo (que ele nem ao menos vê) que na vida há muitas coisas boas e fantásticas como “um esfregar de mãos” é maravilhosamente bem-feita e emocionante. Basta dizer que Wings of Desire, nunca lançado oficialmente nos cinemas de cá, é uma obra-prima incontestável e indispensável para os cinéfilos.
NOTA:

2 comentários:

Anônimo disse...

Daniel, ainda não ví o Cidade dos Anjos. Prepare-se para me emprestar este filme, não finja que confundiu.

Daniel disse...

Assine seus comentários, por Deus!

Senão, como poderei lhe emprestar?