sexta-feira, outubro 19

Cães Negros - IAN McEWAN (Editora ROCCO, 151 pág.)


Ensaio clássico de Roger Fry: Arte e Vida. A citação é necessária:

"Quando contemplamos as obras de arte do passado, costumamos considerá-las não só como objetos de deleite estético, mas também como sedimentos sucessivos da imaginação humana. Essa concepção das obras artísticas como história cristalizada explica, na verdade, muito do interesse que a arte antiga desperta naqueles que possuem pouco senso estético e nada encontram de atraente nas obras de seus contemporâneos, nas quais a motivação histórica está ausente, pois diante delas encontram-se face a face apenas com valores estéticos."

Assim sendo, evitemos escrever sobre os clássicos. Livrem-me de dizer obviedades: os clássicos verdadeiros são inesgotáveis, falaremos deles para sempre. Ou não me livrem: já falei por culpa da minha retórica que, pobre, insistia nesta trama. Roger Fry não escrevia sobre literatura. Era crítico de arte, mas sua afirmação estende-se a qualquer campo artístico: como negar que passo impunemente por todos os compositores que ainda respiram? Só percebo a música quando sei que seu criador já foi devidamente roído pelos vermes, misturado à terra, transformado em árvores, musgos, espalhando-se pela biosfera. No caso específico da literatura, por um longo tempo não me permiti apreciar meus contemporâneos: saía-me sempre com aquela conversa do pouco tempo que eu dispunha para ler todos os mortos necessários. Não condeno quem se dedica aos clássicos. De certa forma, estão corretos. O leitor não tem obrigação nenhuma: não precisa ler seus contemporâneos. No limite, não precisa ler os clássicos também. Nem tomar banho, nem usar xampu. Cabe a ele escolher se lerá Henry James e terá um cabelo limpo ou se contemplará os profetas e os abutres que se aproximam do seu cabelo sujo. Mas eu tive uma iluminação e mudei. Hoje, dedico-me com relativa pressa e empenho aos livros dos meus contemporâneos. Esta dedicação, porém, não impede que existam buracos vergonhosos: não li Coetzee, não li Roth (até o próximo fim de semana, isso ainda será verdade). Veja que são ambos autores de língua inglesa - o rico idioma bretão parece abrigar a prosa mais interessante da atualidade. Parece. Até porque é em inglês que escreve Ian McEwan, autor dos celebrados Reparação e Sábado e do recente Na Praia. Por acaso, iniciei-me em sua obra, no último fim de semana, por meio de um livro até hoje pouco comentado, certamente considerado como menor. Cães Negros, história de amor falhado, história de continente (Europa) falhado. Sua prosa é estreita, mas nela cabem até mesmo digressões amorosas e francamente melodramáticas (um leve constrangimento é inevitável vez por outra). Um casal separado pelas idéias: ele, comunista, cético; ela, crente, cheia de uma fé ardorosa no invisível. Um continente igualmente dividido: o leste esfacelado pelo comunismo agonizante, o oeste progressista e xenófobo. Nesse terreno ingrato, recente demais, ainda cheirando a novo, McEwan se desenvolve sem pudores. Não se exime de nada, não observa com imparcialidade. Sabe que não se produz arte (arte grande) com temor: está clara a sua falta de fé no futuro da Europa (o casal, mais efêmero, já está morto, acabado), não esconde a sua certeza de que os cães negros (figuras quase mitológicas que, ligadas aos nazistas, são o centro da discórdia entre os amantes) "voltarão para nos atormentar, em algum lugar da Europa, em outro tempo." Longe da perfeição (os personagens centrais são extremados em suas características, sem nuances menos rígidas, sem dúvidas), Cães Negros não é uma leitura inevitável mas, sem dúvida, uma reflexão e uma pequena fonte inevitáveis para quem se atreve a acompanhá-la.



NOTA:

Nenhum comentário: