terça-feira, outubro 16

Moacir Santos - Coisas, 1965


Moacir: bigode jazzístico.



9 em cada 10 brasileiros deveriam idolatrar Moacir Santos. Isto, naturalmente, não acontece. Uma pena. Para bem dizer, 7 em cada 10 brasileiros desconhecem por completo o músico (saxofonista primoroso, clarinetista), arranjador, compositor e maestro exímio que foi Moacir Santos. Em parte porque o músico morou bom tempo nos Estados Unidos (compondo trilhas para cinema e ensinando música), outra parte porque sempre foi pequena a divulgação de sua obra em território nacional. Como, de fato, toda boa música padece desse mal.

Essa estimativa, evidentemente, não tem base de cálculo alguma. Não precisa. Vão por mim, eu estou certo.

Por outro lado, é correto dizer também que o Moacir não faleceu (em 18 de julho do ano passado) sem antes ter a sua obra reverenciada e redescoberta de maneira plausível. Bem acolhido por crítica e público, em 2001, coordenado por Mario Adnet e Zé Nogueira, aparece “Ouro Negro”, espécie de tributo/homenagem ao maestro, contando com participações de grandes intérpretes, como Milton Nascimento, Gilberto Gil e outros. Alargando, assim, consideravelmente seu ciclo de admiradores brasileiros. Eu, aliás, pertenço aos fãs do Moacir que o conheceram a partir de um desses projetos em sua honraria. Eu ouvi “Choros & Alegrias”, 2005, disco que revisita a obra moacirana pré-Coisas, achei genial.

Apresentado o mestre, vamos à obra proposta: “Coisas”, de 1965, pelo selo (que alguns diziam “independente”) Forma.

“Coisas” é o primeiro disco do Moacir Santos. Disco que, dizem, apresenta uma nova maneira de harmonizar a música popular brasileira (instrumental) de então: choros, samba-canções, bossa, música de câmara. Até para os ouvidos mais leigos, fica evidente o uso freqüente de tons graves nos esqueletos das músicas. Isto, à época, foi um bocado inovador. Eu li a respeito. Mas, para mim, não é esse o grande mérito do álbum. A mistura etérea entre ritmos genuinamente africanos, batuques, levadas tribais, e aqueles já incorporados a outras culturas, como o nosso samba, o choro, e o jazz, o blues (esse, imperceptível aos leigos) norte-americanos. Esse caldeirão de referências somado ao talento do Moacir em compor harmonias lindas, fortes e marcantes é que faz do "Coisas" um disco a ser ouvido.

Antes do faixa-a-faixa, uma curiosidade: todas as músicas chamam-se “Coisa”, o que diferencia uma da outra é o numeral que vem em seguida. A primeira música, por exemplo, chama-se “Coisa nº 4”.


FAIXA A FAIXA


1) Coisa nº 4

Um fraseado de trombone em tons graves, uma percussão que lembra afoxé e terreiros de umbanda, e trompetes em fraseado melódico diferente do trombone. Entra um sax e sola lindamente. O naipe de metais dá as cartas nessa música. Que não muda de andamento. Essencialmente afro-jazzística.

2) Coisa nº 10

Uma música de fanfarra sofisticada com o mais fino jazz. É isto. O ritmo brasileiro do samba aparece na presença do sax fraseando algo que qualquer samba-canção deveria ter: doçura. Entram violão de sete-cordas, piano, quarteto de cordas, naipe de metais. A levada contagia.

3) Coisa nº 5

Começa com o sax barítono e o trombone atacando em tom muito grave. Trompete acrescenta à linha de ataque uma sibilante melodia. A bateria muda espertamente de andamento, tornando-se uma “caixa de fanfarra”. Há um espírito circense, sobretudo quando todo o naipe de metais entra em um segundo fraseado que não o da introdução. A flauta transversal embeleza com um solo na última parte. Uma das melhores do disco.

4) Coisa nº 3

A mais jazz do disco. Piano, piano, bateria hard-bop/bossa nova: ou seja, suave mas intricada. Entram o naipe de metais, mas a música segue o mesmo rumo até o fim. Destaque para o solo de flauta doce na segunda metade da música.

5) Coisa nº 2

É a minha predileta. Começa guitarra de timbre jazzístico (até então ainda não usada no disco) e Piano. Entra a bateria ainda à moda do jazz. O naipe de metais, ao contrário das outras canções, aparece como uma massa completa. O fraseado é lindo, e se arrasta a exaustão. Não há como não assobiá-lo até o término da música. Destaque para o duelo entre piano e flauta doce na execução do já citado fraseado. Linda canção. A tuba finaliza o solo antes da última entrada do naipe completo.

6) Coisa nº 9

Lembra ritmos latinos. Boleros, Salsas. E algo afro também, os atabaques ajudam. O sax fraseia a colagem de notas mais sensual do disco. A música cresce quando entram os outros instrumentos de harmonização: trombone, trompete. Duelo de guitarra e trompete se destaca. Uma palavra que resume a música: lascívia. Predileta minha, também.

7) Coisa nº 6

Um samba não muito convencional. A bateria parece atravessar o tempo da música, mas é um truque usado com freqüência no jazz. O naipe de metal mistura samba e jazz, o sax sola como um Coltrane comedido. Depois entra trompete e sola, depois piano, e sola.

8) Coisa nº 7

Outro samba. Agora, mas retilíneo na levada. A bateria é sutil e exata. Solam piano, sax e trompete. Quarteto de cordas ao fundo, quase imperceptível, é bem bonito. Não muda de andamento até o final. Simples e encantadora.

9) Coisa nº 1

A percussão é um afoxé cadenciado. O os metais vão compondo a música, cada um com seu fraseado. O sax sola.

10) Coisa nº 8

É um jazz misturado com bolero. Talvez a grande canção do disco. Está entre minhas prediletas. Solos de trompete e guitarra são primorosos. O trombone atua como se estivesse em um samba-canção.

Evidentemente, à moda do Graciliano, essa resenha pode ser resumida em cinco palavras: o disco é Genial, malandro.


NOTA:

3 comentários:

Palavras e co-lirius disse...

Mas que "coisa"!!!Tá aí, eu não sabia nada sobre ele, não o conhecia. Antes fazia parte daqueles 9, agora graça ao blog já não sou daquela margem. Parabéns. Continuem assim.
Ah, seria possível vcs colocarem aqui um site (ou quem sabe do you tube) uma das canções?

Daniel disse...

o link anterior expirou.

Baixe nesse aqui:

http://br-instrumental.blogspot.com/2006/03/moacir-santos-coisas-1965.html

A. Mostarda disse...

"Um coltrane comedido". Haha, muito bom, é isso mesmo, parabéns pela postagem!