quinta-feira, novembro 1

Cadeiras Proibidas - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO (Editora GLOBAL, 144 pág.)



Sempre tive a sensação de que uma coisa totalmente absurda poderia acontecer comigo a qualquer momento. Mas isso pode vir só de eu ser brasileiro, claro. Faço minhas as palavras do Pedro Sette Câmara. E para começar a resenha, faço das palavras do Pedro também as possíveis palavras do Ignácio de Loyola Brandão. Acrescento apenas “paulista” no lugar de “brasileiro”. Seria um modo simples de explicar sua predileção temática: tida como realista-fantástica, cuja a ambientação é senão a cidade de São Paulo.

Loyola Brandão é autor, entre outros, de livros como Zero (muito citado e pouco lido) e o aqui agora comentado Cadeiras Proibidas (reunião de contos tão pouco lida como pouco citada), cuja leitura me foi ora divertida ora maçadora durante o tempo de uma semana, mais ou menos.

O volume, editado no final da década de setenta, em meio à ditadura militar, traz, às vezes com naturalidade e eficácia, e outras com forçosa subversão, o retrato do cotidiano paulista elevado à intolerância, ao absurdo. Nada mal, já que o tamanho da cidade é realmente absurdo — e, aliás, o que dizer da ditadura? Também absurda.

Esta fórmula não é nada nova, se pensarmos de chofre em Kafka e Cortázar (e lendo o Loyola é impossível não lembrar), isto para ficarmos com exemplos óbvios. Nada nova, a fórmula, porém sempre eficaz, a meu ver.

Pessoas são demitidas de seus empregos e excluídas da sociedade (todos os empregos no livro são burocráticos: “escritório”, “repartição”, etc., etc.) por causa de misteriosos furos na mão, nascidos do nada, como é o caso do conto O Homem do Furo na Mão. Um homem, cuja orelha cresce desproposita e vertiginosamente, causa desespero aos demais cidadãos ao inundar a cidade com sua carne de orelha, como a orelha não parasse de crescer, a solução possível vem da indiferença de um moleque ao propor “Por que não matam o homem?”. Trata-se de O Homem Cuja Orelha Cresceu. Pedras que gritam, postes que amolecem, homens viram barbante, etc., etc. Tudo carregado de significado, ora exemplar, ora, infelizmente, fácil e bestial.

Não há como o leitor comum se furtar de alguma reflexão. Quase todos os contos têm esse poder, o da reflexão. Porém, não apenas da reflexão é mantida uma literatura que valha a pena. É necessário beleza, estilo. É quando o Loyola peca. Com sua linguagem simples (às vezes, reles) de jornalista, causa um fastio descontrolado no leitor. Ao menos no leitor acostumado a ótima literatura. Acostumado aos Ótimos, não simplesmente aos Bons. A realização dos contos é boa, mas não é ótima. Aquela diferença tênue em saber escrever uma história e escrevê-la como um ficcionista exemplar.

O Loyola pode até ser Ótimo em outro livro. O citadíssimo Zero, talvez. Vou lê-lo. Neste, porém, consegue somente ser Bom.

No final das contas, leitura até dispensável. Vale, entretanto, para saber que há mais um escritor brasileiro se valendo da ficção do absurdo, realista-fantástica.

O Homem que Dissolvia Xícaras, Os Homens que se Transformavam em Barbantes, O Homem que Observou a Reunião, Os Homens Cegos no Hall de Mármore são contos que eu recomendo. Além, é claro, dos dois que eu comentei no meio do texto.

NOTA:

2 comentários:

Elaine Berti. disse...

Cadeiras proibidas é um livro magnífico cheio de simbolos e sgnificados... Quantas vezes não vimos " Filhos serem comidos por largatos" e nada fazemos!! Quantas vezes "atravessamos portas de vidros" e não podemos contar, pois a sociedade repele tudo que não compreende, e quantas vezes vimos a "sessão de cinema jamais começar e a nossa liberade de sair de algo cerceada"... Minha opinião é que Loyola escreve de forma clara , deixa os pensamentos fluirem , voarem, e isso não faz dele menor que Machado de Assis ou que Guimarões Rosa, apenas são estilos diferentes, e eu por exemplo adoro todos os citados, mas tenho um carinho muito especial pelo livro " cadeiras proíbidas". Abração a vcs.

Anônimo disse...

adorei !! issu me ajudou mto , pq eu irei fazer uma prova desse livro amanha !
:)