quarta-feira, novembro 21

O inédito de Kafka - MAYRANT GALLO (Editora COSACNAIFY, 194 pág.)



O inédito de Kafka é um livro irregular. É esta a definição mais rasteira, porém mais correta para a coletânea. A irregularidade está em tudo: do título à ordem dos contos. Digo isto porque O inédito de Kafka, o conto, é o melhor do livro - e é também o último. Quando chegamos nele, quando aos poucos nos encantamos com a sua trama (borgianismo puro e saudável), quando nos deparamos com certa maestria na escrita de Mayrant Gallo, já são indeléveis as más impressões causadas por contos como A vida num domingo (Rubem Fonseca mais ameno, pálido), Varrer rua (típico conto baiano contemporâneo: meio populista, meio tolo, meio longo) e O parafuso ("Um parafuso é um parafuso, e quando a porca e a arruela se soltam e se perdem, é preciso providenciar outra porca e outra arruela. E como nunca as encontramos soltas, avulsas, outro parafuso vem junto, para substituir aquele primeiro, que falhara, que deixara a porca e a arruela se perderem. Eu era o parafuso." - uma "reflexão", uma "metáfora" tenebrosa que provoca tremores no mais imaturo dos leitores). Por isso, pela irregularidade, é fácil prever que também há ótimos momentos no livro, que também podemos ler e reler A casa alta ou Jornada de um menino. Mayrant varia pouco os seus temas e personagens - sejam eles velhos ou crianças, todos buscam, alguns encontram, todos perdem em seguida. Desinteressados da vida, desesperançosos com sua cidade, com seus semelhantes, os personagens de Mayrant jamais estão contentes ou descontentes. Estes são estados de espírito que exigem mais empenho, força e coragem do que possuem.
NOTA:

8 comentários:

davi disse...

Esse cara nao era professorda UEFS?

Vento. disse...

sou sou, é tudamesma coisa. aqui, lá. tudo igual. a diferença é que no just to be vai ficar a deep-inside juh e por lá no lugares inabitaveis as merdas q eu tenho a dizer.

como achou o blog? google analytics?

Anônimo disse...

Tinha que ter algo Borges para ser bom, não era Rodrigo?

Anônimo disse...

Caro Rodrigo. Você é um daqueles que avalia os resultados de uma obra a partir de um padrão estabelecido. É desnecessário listar os equívocos do seu texto, bem como defender a prosa de Mayrant, que há tempos fala por si. Arte é experimentação, meu caro, busca de renovação e novos horizontes. Dizer o mesmo com outras palavras. O melhor leitor é aquele que amplia o sentido do texto literário. Mas pelo visto...

Daniel disse...

Compararam um conto desse livro, acho que "Varrer rua", a "Auto-estrada do Sul", de Cortázar.

Nunca vi nada mais revolvante. Nem quando Arnaldo Jabor disse que Eça de Queirós é melhor que Machado.

Rodrigo L. disse...

Caro anônimo, você é um daqueles que faz comentários anonimamente e, em realidade, não mereceria uma resposta. Mas assim mesmo vou insistir: sim, arte é renovação; mas isso não significa que toda obra, por não ser um plágio, por ser, afinal, nova e única, é necessariamente boa - e, como não vejo nenhuma renovação estética ou temática na obra de Mayrant (ao contrário, até acho sua arte deveras banal), imagino que seja este o princípio utilizado por você. Pensar assim é ter uma visão um tanto tola da arte. É acreditar que a arte, em princípio, é sempre boa e pura - o que, convenhamos, é um pensamento bastante otimista e vulgar. De qualquer forma, se a prosa de Mayrant fala por si mesma há tempos e não precisa de defesa, pra que você veio defendê-la neste mísero fundo de poço? Só o fato de a obra precisar de um guerreiro anônimo para defendê-la já prova que há algo de questionável nela. E se o melhor leitor é o que amplia o sentido do texto, o pior é aquele que molda e subverte o texto de maneira a nele sempre achar aquilo que procura.

Grato e passar bem.

Mayrant Gallo disse...

Prezado Rodrigo L., gostei de sua leitura de O inédito de Kafka. E sobretudo do trabalho de vocês neste blogue, tratando de tantos bons autores e chegando até a literaturas remotas, e de imensa qualidade, como a húngara. Congratulações pela iniciativa.

Rodrigo L. disse...

Caro Mayrant,

Agradecemos os seus elogios à nossa iniciativa.