quinta-feira, novembro 1

O Passado - ALAN PAULS (Editora COSACNAIFY, 530 pág.)



O Passado engana. Mero romance urbano e argentino, diz-se. Por urbano e argentino entenda-se fielmente escrito segundo os preceitos de Bioy Casares e Borges. Por urbano e argentino entenda-se fielmente filiado a autores como o badalado (mas não tão competente) César Aira. Mas Alan Pauls não se enquadra nestes termos. Melhor: sim, ele se enquadra nestes termos, mas desde que o permitam ampliá-los, modificá-los por completo - restando, de "urbano" e "argentino", apenas a nomenclatura vazia para um romance que se passa em Buenos Aires e arredores.


A prosa de Pauls é sinuosa, exagerada. Cheia de afetação, até. As frases longas e o trabalho sobre a memória remetem ao óbvio: Marcel Proust. Referência correta, mas secundária. Diante de frases longas, trabalho sobre memória e, sobretudo, ironia exagerada, percebe-se que uma influência ainda mais forte é a de Nabokov. A construção dos personagens segue o método do mestre russo: caricatos, irreais, burlescos como Ada, como Van Veen, como Charles Kinbote, como Humbert Humbert.

Mas é realmente o amor o tema escolhido. Rímini, o homem-boneco protagonista, sem afeição materna (todas as mães são fugazes, os pais sempre mais marcantes ao longo do livro - Alan Pauls se diz anacrônico, ainda leitor da psicanálise mais remota), consumido pelo "amor-terror" de Sofía, de Carmen, de Vera, é figura clara, fotografia perfeita do indivíduo que não se perde, mas que é levado a se perder pelas mulheres. A voracidade, tanto sexual quanto afetiva, de suas amantes parece neutralizá-lo de forma absoluta: ele é levado, conduzido, empurrado por elas. Inerte, até o sofrimento de Rímini (decorrente de mortes, perdas materiais e intelectuais, separações de mulheres e filho) parece tolo, pouco - mas somente a ele mesmo: ao leitor, perdido entre a profusão de vírgulas e reviravoltas dignas de dramalhões rodriguianos, a história deste homem fraco é uma seqüência quase insuportável de fracassos irremediáveis, derrotas vergonhosas, covardias dignas de um cão; ao leitor, perdido entre a profusão de esquinas e reviravoltas reais, só resta aceitar que o ridículo de Rímini, que é mera tinta negra sobre papel, não supera o ridículo de quem é carne, sexo e um tanto de cérebro.


NOTA:

3 comentários:

Anônimo disse...

Meu caro, tu comentas tão bem que até tenho vontade de ler, mesmo parecendo desinteressante.

Carolínea disse...

Rodrigo,

Ao pesquisar sobre o livro "O Passado" (que acabei de ler hoje)encontrei a sua crítica que é um pouco diferente da minha. Gostei muito do romance, do estilo das frases longas, em que um período se infiltra no outro, complexificando a trama subjetiva e objetiva da história.
Tampouco considero que Rímini é um boneco, mas ativo em sua passividade e determinado em sua vontade de esquecer. Vontade que devastou a sua vida!
Com relação a influência de outros autores, lanço a pergunta: é possível escrever sem que as referências apareçam como pano de fundo da narrativa? Quando estamos no campo na linguagem, não somos todos meros plagiadores?
De qualquer forma, foi enriquecedor ler uma crítica tão díspare da minha. "Viva a diferença".

Rodrigo L. disse...

Carolínea,

Fico contente com o seu comentário, sobretudo porque considero esse post bastante ordinário, longe de ser uma resenha. É mais uma anotação da leitura que eu tinha acabado de fazer.

Acabei de reler o trecho em que comento a linguagem de "O Passado" e acho que talvez eu tenha sido pouco claro. Na verdade, eu admiro a prosa de Alan Pauls, acho que é uma saudável fuga da obviedade de concisão que domina grande parte da literatura contemporânea — quando eu o comparei com Nabokov e Proust foi com intenção de elogiá-lo; acho que a influência que ele recebe desses autores (que, aliás, é mera especulação minha: nunca li ou ouvi o Alan Pauls declarar algo a esse respeito) é interessante e não configura cópia ou plágio.

Quanto ao Rímini, talvez eu já não esteja apto a analisá-lo agora, pois faz muito tempo que li o romance. No entanto, chamei-o de boneco pelo fato dele ser tão passivo em relação a tanta coisa. Como você disse, é possível que ele se revele ativo na busca do esquecimento - mas anular o próprio passado, a meu ver, é uma forma de anular-se. É uma atitude muito ambígua, pois, ainda que ativa, mira a inatividade e a passividade - é só ver o fato dele começar a esquecer as línguas que sabia, perdendo o emprego.

Caso você já não tenha lido, recomendo que busque "História do Pranto", o livro mais recente do Alan Pauls. Em certos aspectos, é ainda melhor que "O Passado".

No mais, gostei do seu comentário. Sinta-se à vontade para fazer outros.