domingo, novembro 25

Pato Fu - Daqui pro futuro, 2007


Jack Kerouac, após o fenômeno On the Road, aderiu ao budismo, e todas as suas obras posteriores a essa escolha trouxeram um cunho budista. Dostoiévski, um homem de vida conturbada, escreveu sobre os labirintos da alma e seus vícios. Bergman, no cinema, realizou filmes sobre a potência e imprevisibilidade da morte, após conhecê-la bem de perto e quase acasalar-se com a mesma. São poucos os artistas que resistem em adaptar para as respectivas artes suas experiências marcantes e inextricáveis, sejam elas dolorosas ou não. A banda mineira de pop rock Pato Fu não foge à regra: neste novo álbum, Daqui pro Futuro, onde o casal Fernanda Takai e John Ulhoa (a vocalista e o guitarrista da banda) já têm uma linda filhinha para cuidar, as músicas refletem essa feliz fase - faixas como “Mamã Papá” e trechos de letras como “Vem acende a sua luz perto de mim/ Estrelinha do meu jardim/ Me deixa ser teu céu pra sem-preeeee!...” atestam a verossimilhança das minhas afirmações.

Agora eu paro pra pensar e digo: TUDO TEM LIMITE!!! Mamã Papá?! Perdoe-me, Pato Fu, mas o primeiro pensamento que me veio à mente (acho que não só à minha) quando ouvi este álbum foi: “É... já está na hora dessa banda acabar”. Foi com Daqui Pro Futuro que descobri, ou melhor, confirmei o seguinte fato: Pato Fu trabalha com fórmulas. As composições da banda, embora dotadas de arranjos inegavelmente criativos, seguem rigorosamente um padrão (falo do esqueleto da música). Não só nas melodias, mas também nas letras. Por falar nisso, dentre os próprios fãs da banda há quem diga que Takai é a responsável pelas letras mais “bobinhas”. O problema não é trabalhar com fórmulas. Jorge Ben trabalha com fórmulas (ele não é chamado de alquimista à toa, não é?). O problema é a fórmula ser ruim ou cansativa. É ser uma merda, como a do Oasis; uma megalomania absurda, como a do Pink Floyd; uma guitarra mal-tocada e descarada como a de Chiclete com Banana. Esse é o problema. E que fique claro: fórmula é uma coisa; estilo é outra.





FAIXA-A-FAIXA


1) 30.000 pés

Pop básico, sem maiores labirintos. Uma das melhores do disco, ou das menos piores. Nesta música há um diferencial: Takai canta, nos versos da ponte, elevando bastante o tom da voz (o tom, não o volume) e logo após voltando à base sonora; algo bem raro nas músicas do Pato Fu, que geralmente seguem uma linha estável de escala (na melodia). Pra quem não entendeu, ouvir os versos da ponte “Mas o AR é tão puro / Que FOGE de mim” (pus em maiúsculo aí pra ilustrar).

2) Mamã Papá

Sem comentários. Não consegui extrair nada de bom dessa música (e olhe que eu sou fã do baterista e da vocalista da banda!). No mais, atrevo-me a dizer que Pato Fu tentou imitar Pato Fu (mais ou menos o que Roberto Carlos faz com as músicas dele). O refrão é abominável. Segue um trecho da letra:

“Quando seu corpinho
Se mexe na barrigaaaa
É só um tôquinho
Mas transforma em vi-daaaa!”

3) Espero

Espero é bizarra. Começo: “dizem que não sirvo pra gostar de ninguém”. O melodrama não para por aí. A música é outra repetição. D - G - A, ou D - Em - G. Algo assim. Pato Fu sacaneou: ou eles são perversos e estão “tirando onda” com esse álbum maluco, ou o nascimento da filha fez John perder o senso de autocrítica. Eles poderiam ter esperado mais um pouquinho. É até uma ofensa para com os fãs.

4) Cities in Dust

Cover da música da banda Siouxsie & the Banshees. Não está mal-feita (eu poderia ter escrito “está bem-feita”, mas escrevi “não está mal-feita”; sou sacana mesmo). Único defeito: Fernanda Takai não sabe cantar em inglês.

5) Tudo vai ficar bem

Outra boa de ouvir. Participação de Andrea Echeverri, cantora da péssima banda colombiana Aterciopelados. Ela canta bem e a sonoridade espanhola desta música é linda, mas engana; portanto, não se precipitem: não procurem ouvir Aterciopelados, que não presta. Além do mais, Echeverri é
extremamente feia.

6) A hora da estrela

O negócio ficou feio aqui nesta faixa: só o título já derrama o leite. Vi fãs sentido-se incríveis por “descobrirem” a associação do título com o livro homônimo de Clarice Lispector. Oh, Deus...

7) Woo!

Woo! Que música é essa?! Woo! Demais! Tudo bem: essa música não é tão tenebrosa. Mas não tenho mais nada a dizer.

8) A verdade sobre o tempo

Gostei do início dessa faixa. John e Takai dividiram os vocais e o resultado ficou bacana. Percebi outra coisa: há algo de “tentativa de retrô” nas faixas. Mas é bem de leve, e um tanto descarado.

9) Quem não sabe

Droga! Essa não é ruim! Uma pena... O engraçado é a simetria do repertório dos álbuns: essa faixa lembra “O que é isso?”, do álbum anterior, o Toda Cura Para Todo Mal, que se eu não me engano é também a 9ª faixa.

10) Vagalume

Essa é brutal. Chama o BOPE pra resolver isso aqui. A sorte é que os músicos são bons e a voz de Takai já está lapidada e madura, senão o bicho ia pegar.

11) Nada Original

Essa foi a mais injusta do álbum. Ouçam apenas “Tribunal de Causas Realmente Pequenas” e “Me Explica”, da mesma banda. Ouçam. Ouçam e verão que eu não estou exagerando. Repeteco puro e cristalino. A própria letra, como sugere o título, trata disso. Ou essa faixa é uma brincadeira de muitíssimo mau gosto ou os integrantes da banda estão adentrando nos campos labirínticos do retardamento mental.

12) 1000 Guilhotinas

Não consegui compreender esta faixa. De jeito nenhum. Mas é até boa: ao lado da 5ª, a 1ª e a 8ª, incitou-me a não dar a nota mínima para o álbum.


Obs: Escrevi dois posts sobre álbuns lançados esse ano e nos dois acuso o artista de “repetir”. Daqui a pouco quem estará repetindo serei eu. Mas o negócio é sério. Da próxima vez, escolherei um álbum melhor.

NOTA:

5 comentários:

Davi Lara disse...

ia comentar algo sobre o post, n~o o CD resenhado (esse merda de til n~o fica em cima do "a"!). Mas ai desisti. Pensei melhor, e como faz quase s'culo (agora o acento agudo tamb'm!) que n~a (!) posto aqui decidi escrever que estou vivo. L' vai:
Estou vivo ainda, creiam.

Anônimo disse...

melhor resenha sobre o álbum até agora.

Anônimo disse...

Quando quiser escrever sobre a simetria de dois álbuns, conheça antes os DOIS álbuns. Você se enganou: "O que é isso?" é a décima faixa de "Toda cura para todo mal".

Rafael disse...

Então, eu concordo com muita coisa do que você disse, mas, ao contrário, eu acho o Daqui pro Futuro o melhor CD do Pato Fu. Acontece que eles sempre foram simplórios e superficiais, eles nunca fizeram nada exatamente genial e fórmulas é o que não faltam nas composições deles desde o Rotomusic. Esse CD pelo menos é mais maduro que os outros. Achei uma ótima sacada eles terem se auto-plagiado em Nada Original e, 1000 guilhotinas pra mim é o que eles já fizeram de mais audacioso por causa das cadências tipicamente barrocas no piano.

Daniel disse...

Respondendo aos comentários!!!

1)Davi, meu caro, sei que você está vivo. Feliz Ano Novo atrasado.

2)Anônimo nº1, muito obrigado. Volte sempre ao Moedoteca.

3)Anônimo nº2, se você for a mesma pessoa que o Anônimo nº 1, peço desculpas desde já. Mas o seu comentário é a prova de que, modéstia a parte, o post parece impecável, já que o único e frívolo erro constatado foi o dessa questão da faixa ser a 10ª ou a 9ª (além do mais, note-se que eu não pus certeza na afirmação). Volte sempre também.

4) Caríssimo Rafael, infelizmente discordo de você (infelizmente meeeeesmo; aqui no Moedoteca o leitor sempre tem razão). Mas esse CD é simplesmente execrável, essa "sacada" do Nada Original é tão "genial" quanto, digamos, certos seres infames produzirem um filme chamado "Não é mais um besteirol americano". E nós sabemos que Audácia é uma faca de dois gumes (talvez três); afinal, a banda Emerson, Lake & Palmer, só para citar outro exemplo, teve a "audácia" de fazer versões de obras de Bach ou Prokofiev e nem por isso eles merecem crédito (pelo contrário, merecem uns tapas). Mas, apesar de tudo, devo concordar que eles estão mais maduros. Volte sempre, camarada!