quarta-feira, dezembro 12

A Agenda Secreta do meu namorado (Little Black Book, EUA, 2004)



Calma: não fechem a página. Eu posso explicar. Não limpem seus óculos nem balancem o monitor achando que ele está com defeito. Eu realmente irei falar sobre o ultrajante longa-metragem A Agenda Secreta do meu Namorado, dirigido por Nick Hurran e estrelado por Brittany Murphy e ela. Quem é ela? Vocês sabem: Holly Hunter. Foi somente por Holly Hunter que eu me rebaixei, me humilhei e me sujeitei a assistir esse dejeto impecável dos tempos modernos, essa carniça inefável e atemporal, este antológico pedaço de bosta cinematográfica.

O diretor é homem, mas o roteiro é de mulher. Uma vez Rodrigo, nosso colega moedotecário, escreveu: “poesia de mulher: quando é bom, é bom demais”. Esta frase não se aplica apenas à poesia, mas às artes em geral, e o cinema não é exceção. Quando uma diretora é boa, ela é BOA. Exemplos: Jane Campion, Lucrecia Martel, Sofia Coppola, Lynne Ramsay; talentosíssimas cineastas. Mas penso que nós as exaltamos em demasia. Não que elas não sejam incríveis, mas o fato é que tratamos as mulheres na cultura como verdadeiras pepitas de ouro. O ouro vale muito. Por quê? Por ser raríssimo, difícil de encontrar. Assim são as mulheres na arte: quando encontramos as boas, adulamo-las mais do que deveríamos, por elas serem preciosas para nós. Eu mesmo faço isso o tempo inteiro. Não estou também querendo dizer que geralmente filme de mulher é ruim (embora realmente seja): a verdade é que o mundo patriarcal não lhes deu oportunidades. Apenas a partir da modernidade que desceram os primeiros grãos da ampulheta da emancipação artística (dentre outros) da mulher. É por isso que as talentosas são ouro. Quem vai negar que Sofia Coppola é desesperadamente idolatrada, juntando ao fato de ser filha do gigante Francis Ford Coppola? Quem replicará a idéia de que Clarice Lispector e Virginia Woolf são escritoras incondicionalmente superestimadas? Quem se atreverá a negar que Janis Joplin ou Patti Smith foram capazes de influenciar toda uma geração?

Hoje em dia a coisa não está ausentada de problemas: este campo tão facilmente distorcido pelas feministas é um prato cheio para os falsos moralistas, os politicamente corretos e os humanistas de plantão. A maioria deles mantém a ingênua postura de não criar uma identidade para a mulher, mas sim de deixá-las semelhantes e “à altura” dos homens, o que é ridículo. Às vezes as próprias mulheres agem desta controversa forma: boa parte delas se obriga a se entreter, ou pior, gostar apenas de filmes, livros ou músicas cuja autoria é feminina. Algo, a meu ver, insensato e, com o perdão da palavra, besta. Para mim não há distinção. Renata Belmonte, uma escritora daqui da Bahia, jovem e soteropolitana, após lhe perguntarem numa entrevista um poeta, um livro e um filme de sua predileção, respondeu (respectivamente): Hilda Hilst, O amante, de Marguerite Duras, e Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola. Pode ser uma enorme coincidência. Ou não.


***

Mas voltemos ao filme. Percebe-se claramente que o escolhi apenas para expor a modesta reflexão acima, já que o roteiro é de uma mulher. Só não me perguntem por que eu não escolhi um filme bom, que não irei responder.

A agenda secreta do meu namorado é ruim. O roteiro, além de péssimo, contém filosofia de quinta: a personagem de Brittany Murphy está numa crise bizarra; o filme se inicia com a mesma dentro de um carro, mantendo forçosamente uma expressão chorosa e raquítica, se questionando acerca de fidelidade, sorte e um punhado de baboseiras. Embora bela, Murphy está incrivelmente antipática. Como Holly Hunter entrou nessa barca furada, nem o diabo sabe. Ou ela estava passando fome (bem que eu a achei um tanto magra) ou ela tem dupla personalidade e sua segunda é uma louca, uma ridícula.

O filme apela mesmo, no pior dos sentidos. Se fosse em sexo, menos mal. Mas a maldita roteirista quer porque quer se fazer de inteligente. Numa cena do filme as personagens falam do diretor Mike Nichols (A primeira noite de um homem, Closer), alcunhando-o gênio (tentativa desesperada e inútil da roteirista de provar que conhece sua área de trabalho).

Em certo trecho, a personagem de Hunter revela a sacanagem que proporcionou à heroína, num momento de reviravolta a la Malhação-Novelas Mexicanas. Levantei do sofá e pensei: “Epa! Esse filme pode deixar de ser abominável e passar a ser apenas lastimável”. Mas foram vãs as esperanças nutridas. O filme acaba da pior forma possível: a mocinha não fica com o namorado, no pior estilo “não-sou-só-mais-um-enlatado-hollywoodiano”, ou “sou original: não ficamos felizes para sempre”. E eu juro para vocês que a guria descaradamente afirma quase isso no trecho final.

Um detalhe: quando Brittany Murphy descobre que Holly Hunter sacaneou com ela (através da mesma), ela diz para a vilã, aos prantos: “Eu poderia arrancar seus olhos... mas como você se olharia no espelho depois?” E bam!, impacto profundo!, Hunter percebe a safadeza que fez, cai a ficha e cada uma segue seu infeliz caminho. Fiquei me perguntando em qual filme a roteirista viu aquela frase, em qual livro de auto-ajuda ou revista feminina, sei lá, de astrologia.


NOTA:



P.S. E é com enorme satisfação que eu anuncio a primeira nota mínima do Blog.

4 comentários:

Anônimo disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Vc é uma figura!!!

Anônimo disse...

De férias? Tomara q acabe logo...rs

Anônimo disse...

Daniel, chega de circo! Mais seriedade man; quando quiser falar dos ruins, fale dos ruins dos bons, pois não perderemos nosso tempo à-toa.

paula disse...

Certo. Falando dos ruins. Nada mais justo, afinal estamos aqui pra isso. No entanto, não sei se por agir de forma "insensata e, com o perdão da palavra, besta", pensei ter sentido um tanto de preconceito na sua escrita. o que acontece é que realmente as mulhereres são tratadas, sim, de forma muio diferente e se são "exalatadas" é mesmo por isso: preconceito. Ora, quer dizer que uma mulher não pode ser boa, porque será supervalorizada por isso? e nem mesmo ruim - porque ao invés de ser apenas uma ruim, será uma mulher ruim,o que é muito pior!
você poderia ter falado sobre a má qualidade do filme, da roteirista, da diretora, da atriz, do escanbal, mas não somente pelo fato de ser uma mulher quem o fez...
no direito de igualdade está incluso o direito de ser ruim tbm...

P.s.: "Clarice Lispector e Virginia Woolf são escritoras incondicionalmente superestimadas?" isso quer dizer que elas não merecem os elogios, méritos, etc que recebem????