quarta-feira, fevereiro 27

Nhô Guimarães - ALEILTON FONSECA (Editora BERTRAND BRASIL, 176 pág.)


“Um certo dia tive um estalo: ‘Guimarães Rosa andava pelos gerais, de caderno em punho, conversando com o povo e anotando tudo. Ele dialogou com muita gente que acabou inspirando personagens de sua ficção. E se, de repente, uma personagem rosiana narrasse suas passagens pelo sertão?’”.

Aleilton Fonseca é conhecido também por outros grandes estalos literários. Por exemplo, os temas de dois de seus romances em ainda construção. Um, sobre a Guerra do Iraque. O outro, uma homenagem a Euclides da Cunha, que em 2009 será lembrado pelo seu centenário de morte.

O Nhô Guimarães, teria sido coincidência?, foi lançado sob as comemorações dos 50 anos de lançamento de Grande Sertão: Veredas. Isso necessariamente não quer dizer nada, ou quer dizer muita coisa — tirem vocês as suas conclusões. Mas vamos adiante.

Estalos a parte, Nhô Guimarães — romance-homenagem a Guimarães Rosa é um livro simpático, e bom em certos momentos. O enredo é inteligentemente divido como em as Mil e Uma Noites: pequenos causos dão dinâmica à história principal que é o saudosismo (constantemente envocado) da narradora, uma Sherazade octogenária sertaneja, pelo marido falecido, pelo filho que saiu de casa muito cedo e pelo estimado amigo Nhô Guimarães proseador de primeira que não a visita há anos.

Esses causos e confissões são contados a um estranho (sua identidade se revelará apenas no final do livro) que chega de chofre a sua casa e que ela, a priori, o confunde com o amigo das Letras. “Nhô Guimarães por aqui? Há quanto tempo! Ah, não. Nsh, nsh. Não é ele, não. Mas, quem é o senhor? Apeie, chegue à frente, a casa é nossa”. Assim começa.

O Ponto principal: a linguagem de Guimarães revisitada.

Tendo em vista as reais limitações que qualquer outro estilista teria em recriar Guimarães, Aleilton não fez feio. Alguns críticos disseram que a linguagem alcançada por Aleilton transcendeu ao formato de homenagem e reverência que o livro se propõe. Não concordo. Pelo contrário: o autor parece muito criterioso, não quer ousar tanto, simplesmente usufrui do léxico já consagrado por Rosa e o faz com certa competência, devo dizer. Aleilton parece saber da sua limitação e da grandeza infindável de Guimarães Rosa. Isso, é claro, não chega a ser demérito.

Se Castro Alves se dizia pequenino e no entanto fitava os Andes, Aleilton é o pequenino que não chega nem a querer fitar os Andes, mas sabe admirá-los, mesmo distante.


NOTA:

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