sábado, fevereiro 16

Só para fumantes - JULIO RAMÓN RIBEYRO (Editora COSACNAIFY, 304 pág.)


Segundo Llosa, um dos melhores contistas da língua espanhola. Segundo Alfredo Bryce Echenique, lê-lo é um "exercício de apreciadores comprometidos com a letra viva da melhor literatura". Segundo eu, o primeiro talvez exagere e o segundo está correto: pela coletânea Só para fumantes, que se trata da primeira publicação de Julio Ramón Ribeyro no território lusófono deste nosso continente, conclui-se facilmente que a literatura, para o autor peruano, era um ato de solidão, de distanciamento e, portanto, de humildade.

Explico-lhes o motivo que me leva a concluir que Mario Vargas Llosa exagera: ao tomar Tchekov como mestre e norte, Ribeyro mostra ousadia e coragem; tratará, obrigatoriamente, de temas cotidianos, de crianças, de homens e mulheres em busca de redenção e, também, dos famigerados temas sociais - e é justo neste ponto que sua prosa se torna fácil e banal, adjetivos pouco aplicados, por exemplo, à curta obra de Juan Rulfo (para citar outro cuja pena sempre estendeu-se ao povo). Ademais, o genial contista russo já demonstrara, décadas antes, que, sim, é possível gastar tinta voltando-se aos problemas sociais sem constranger o leitor. Ribeyro, contudo, não consegue tal façanha. Tomando como exemplo o longo conto "Ao pé da escarpa", percebemos que todo o parágrafo que o inicia é de uma banalidade atroz ("A gente é como figueira-brava, essa planta selvagem que brota e se multiplica nos lugares mais amargos e escarpados"; "Por isso digo que a gente é como a figueira-brava, nós, a gente do povo"); frases dispensáveis que terminam por atrapalhar um conto que, aos poucos, revela uma qualidade insuspeita. O mesmo incômodo decorrente de um populismo que não soa natural é sentido em "Urubus sem plumas" e em "O embarcadouro da esquina".



Explico-lhes, agora, a afirmação de Echenique: a prosa ribeyriana parece ter permanecido imune aos clichês e obrigatoriedades da "típica prosa latina". O leitor, devidamente introduzido na história da literatura sul-americana e ciente do momento em que as publicações do peruano conheceram as livrarias, saberá reconhecer uma escrita que jamais se curvou às expectativas de críticos, editoras ou leitores que, desde meados do século XX, buscam apenas tons fortes e exagerados nas obras latino-americanas. Cultivando a sua solidão na nossa frente, vemos Ribeyro abdicar da fantasia tirana e dedicar suas páginas à realização de contos simples e magistrais. "O professor substituto" e "O espumante no porão" revelam o homem liquidado pela rotina e pela subserviência - covarde e carregado de uma forte capacidade de constranger o leitor com sua mediocridade tão exposta. Parece haver um esforço de Ribeyro (como houve, ademais, por parte de Felisberto Hernández) para revelar que há cinza, há escuridão nas coloridas páginas do continente e, sobretudo, na vida dos seus homens e personagens.


NOTA:

3 comentários:

Anônimo disse...

"Que bom saber que alguém neste blog faz questão de frisar que, a literatura hispano-americana não pode ser entendida apenas pelo que se produz na Argentina e Chile".

manigna disse...

Não sabía que Ribeyro tinha sido editado em Brasil (como já ví algumas obras de Bryce Echenique, e claro, tudo Vargas Llosa). É uma boa oportunidade de que os vizinhos brasileiros conheçam os personagems ribeyrianos, os párias, os relegados, os perdedores. Esta coletânea deve ser pequena, mas é um início. Este 2010 a editora espanhola Seix Barral juntou os 4 tomos de contos de A PALAVRA DO MUDO (La Palabra del Mudo) em um livro só. Tomara que alguma editora em Brasil possa fazer o mesmo.

geandra disse...

Acabei de ler "Só para fumantes" confesso que foi uma grata surpresa, uma vez que eu não conhecia sua obra. Discordo um pouco do uso dos adjetivos "fácil" e "banal". Me senti muito envolvida pela narrativa e precisei de muitos cigarros para terminar o livro,rs. Pretendo escrever um texto sobre ele em breve, depois posso te deixar o link por aqui. Parabéns pelo texto, bastante completo.