sábado, fevereiro 23

Tchaikovsky - Op. 37b "Les Saisons", 1876

Pyotr Ilyich Tchaikovsky é, embora por muito pouco, o compositor de música erudita mais popular dos últimos tempos. Popular: população, massa, “povão”. Diriam: e Mozart e Beethoven? Respondo: esses dois se encontram mais no imaginário popular do que nas orelhas. Deus e o mundo sabem quem são Mozart e Beethoven; entretanto, suas obras são abundantemente desconhecidas. As únicas que talvez grande parte da humanidade já tenha se surpreendido assobiando ao menos uma vez são a Pequena Serenata Noturna, do primeiro, e o começo da 5ª sinfonia e o Foür Elise, do segundo. Com Tchaikovsky acontece justamente o contrário: o compositor russo é bastante escutado, mas desconhecido pelo nome e pelo título de suas obras. Pergunte a um “leigo” se ele já escutou algum trecho da Valsa do Lago dos Cisnes ou do Quebra-Nozes – talvez ele diga que não, mas provavelmente a verdade é que sim. A obra de Tchaikovsky foi massivamente difundida pelo “democrático” cinema – mais especificamente, Hollywood. Hollywood levou Tchaikovsky às massas em vários de seus filmes, principalmente por via de dois grandes ícones: os desenhos da Walt Disney e Charles Chaplin. Claro que constam outros compositores em trilhas sonoras de vários filmes, mas quem vai se lembrar de Elgar em Laranja Mecânica ou Prokofiev nos filmes de Eisenstein ou as sinfonias de Mahler em Visconti?

Les saisons, particularíssimo trabalho do genial compositor, é uma modesta obra dividida em doze pequenas peças para piano. Indispensável apenas para fãs, eu diria, mas seria exagero: o disco é bastante agradável para quem busca nenhuma outra sensação senão a de repouso. Não entendo e não pesquisei para saber o porquê da obra carregar esse nome, Les Saisons (As Estações), se cada faixa equivale a um mês do ano.



FAIXA-A-FAIXA


1) Janvier - Au coin du feu


Belíssima e uma de minhas prediletas. Equivale ao mês de janeiro. A verdade é que a Op. 37b - Les Saisons é mais recomendável para um estudioso ativo que um apreciador passivo de música clássica (eu me encaixo no segundo grupo, obviamente). Não é qualquer um que tem a devida paciência para escutar obras de piano que não Chopin (e, na melhor das hipóteses, Schumann). Aqui fica claro o espírito romântico de descentralização rítmica do compositor.

2) Février - Carnaval

Faz jus ao nome. Uma das poucas peças da obra que não é muito “Schumannizada”, afinal toda ela sofreu inegável influência. Se alguém já afirmou isso, assino embaixo. Um pouco curta (2 minutos e 35 segundos) para a proposta do ritmo caótico presente.

3) Mars - Chánt de l'alouette

Não tem outro jeito: as marcas dessa obra são as quebras de tempo e a força melódica. Para quem não sabe, Tchaikovsky a compôs por encomenda, com prazo definido e ordenado pago. Talvez o limite estabelecido tenha definido o padrão musical das peças.

4) Avril - Perce-neige

Nessa peça surge finalmente a ousadia alegórica habitual do mestre russo. Aqui se solidificam também os staccatos que, embora já tenham se manifestado anteriormente, surgirão agora com mais personalidade.

5) Mai - Le nuits de mai

Linda. Logo após os dois minutos iniciais ela derrama sua gênio melódico tal qual uma cachoeira. O melhor dessa Op. 37b de Tchaikovsky é sua antítese musical e seu cuidado, senão laborioso, ao menos sensível, em buscar uma dicção com oxigênio e mais espessa.

6) Juin - Barcarolle

Essa música é famosíssima. Esqueci de dizer, mas Les Saisons fez considerável sucesso. Barcarolle foi uma das que entrou para a história e teve as mais diversas versões orquestradas. De fato, sua melodia chega a ser até pegajosa (não afirmo isso no sentido pejorativo). Confesso que foi a primeira peça da obra que tentei aprender a tocar no violão, falhando miseravelmente. Se você pretende apresentar o CD a alguém, comece com esta faixa. Para causar efeito, diga algo do tipo “Nas devidas proporções, posso compará-la à Sonata Clair de Lune, de Beethoven”.

7) Juillet - Chant du faucheur

A melhor e mais genial peça. Brincadeira: é que Julho é o mês de minha nascença. Quando baixei as músicas, foi a primeira que ouvi. Não sei se ela diz muito de minha personalidade (o que é isso? astrologia musical?), mas é realmente das melhores. Gosto muito. O único problema é sua duração minúscula de um minuto e alguns segundos: quando estou saboreando o doce, arrancam-no brutalmente da minha boca e chegam até mesmo a levar alguns dentes. Esse é o problema das músicas por encomendas: por mais que se tenha bom senso e liberdade criativa, a questão comercial não pode ser ignorada. E tempo de duração é assunto extremamente delicado.

8) Août - La moisson

A mais frenética. Nem mesmo Février. Logo após o primeiro minuto há um relaxamento e em seguida a volta ao sutil caos musical. Talvez seja melhor que Février mesmo. E se Fevereiro é o mês do Carnaval, Agosto é o mês do cachorro doido (perdão! eu não queria escrever essa frase! é que o backspace do teclado quebrou!)

9) Septembre - La Chasse

Notadamente uma das mais comerciais do disco. O tom quase valsístico convencional e a melodia fácil comprovam a afirmação primeira. Mas não é por causa disso que ela é uma das que menos gosto: seu desinteresse estrutural é que não me agradou (em certo trecho a alternância entre maiores e menores chega a constranger).

10) Octobre - Chant d'automne

Uma boa música, talvez a mais soturna e nostálgica do disco. Chant d'automne significa Canção de Outono; nós do hemisfério Sul aqui no Brasil nem podemos associar a música ao mês corrente, já que nesse período estamos ardendo em chamas com nossa agradável Primavera.

11) Novembre - Troïka

Gosto particularmente de Troika. É, ao lado da primeira faixa, minha predileta. Os ares lúdicos em certas passagens realmente me fascinaram. A quebra de ritmo a que já me referi anteriormente é utilizada aqui com maior maestria. Detalhe importantíssimo: o intérprete do álbum em questão é o pianista russo Vladimir Ashkenazy (foto abaixo).

12) Décembre - Noël

Décembre é realmente uma música natalina, até porque Noël significa “Natal”. Não é lá das melhores do disco, mas tem seus méritos. Mais longa do que o habitual (se comparada às peças anteriores), mantém o tom filantrópico e descompromissado em todos os compassos.

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* Pus o CD aí para baixar. Nem sei se está funcionando. Para ouvintes “desabusados”, é uma recomendação.

NOTA:


LINK: Baixe aqui no Fundo do Poço, ou melhor, puxe para cima.

Um comentário:

Elias disse...

Por favor, faça novo upload, pois o link já venceu...
Obrigado,
Elias.