sábado, março 29

Sangue Negro (There Will Be Blood, EUA, 2007)


Difícil discernir o que torna Daniel Plainview o maior personagem do cinema contemporâneo. Talvez a atuação milagrosa de Daniel Day-Lewis nos leve a tal conclusão. Talvez a direção magistral de Paul Thomas Anderson nos engane a respeito. O mais provável, contudo, é que esta certeza seja proveniente da personalidade que ator e diretor conseguiram impor à figura: em Plainview, tudo é nebuloso, incerto - ao longo de toda a película, a única referência ao seu passado (um irmão) é falsa; e, como não bastasse, tal referência é assassinada por ele mesmo, como a explicar que os seus dias mais antigos não nos pertencem: "Não gosto de me explicar" é a frase fundamental de Plainview.

Sangue Negro é todo composto por sugestões. Desde a longa e silenciosa abertura até o final súbito, P.T. Anderson orquestra cenas enigmáticas, extremamente visuais, com narrativa rara ou inexistente. A beleza imagética e os cenários são trunfos fundamentais da obra (tal como a magnífica trilha sonora composta por Jonny Greenwood): os saltos cronológicos, por exemplo, não são seguidos de textos em off ou de diálogos que nos insiram no contexto do ano que aparece em branco na tela - a certeza da riqueza e da decadência moral na parte final do filme, por exemplo, é obtida através da grandiosidade da construção onde Plainview aparece e pela solidão e silêncio presentes. Ainda sobre a pura estética, notável é também a capacidade da direção em não tornar enfadonho um filme longo, com muitas tomadas silentes de grandes e desolados planos - considerando que a vastidão da paisagem deserta tem o potencial para entediar o público do cinema moderno, afeito a cenários "cheios" (daí Anderson parece afastar-se da América e filmar como um italiano, um discípulo de Antonioni).

Houve, há e haverá quem saliente uma suposta crítica aos valores norte-americanos atravessando todo o filme. Sim, sempre haverá quem prefira adotar o caminho mais fácil, mais banal para analisar toda e qualquer obra de arte. É inegável que nenhuma produção passa ao largo do seu tempo - por mais que mire passado ou porvir, Sangue Negro é o presente absoluto. Comprovação: nas cenas mais dantescas (a falsa conversão de Plainview e o "massacre" final do falso profeta) as pessoas presentes na sala do cinema não reprimiam os risos. Não são, em absoluto, cenas cômicas: são lamentáveis, opressoras, dignas do mais forte mal-estar - mas elas riam o típico riso desconfortável de quem não pode se dar a chance de levar a sério o que se passa na tela, pois isso seria o equivalente a dar-se um tiro de Magnum .44 no próprio pé. Sangue Negro faz o presente rir. Tal situação já basta para cravar um "clássico" na capa do DVD.

a nobre arte de praticar clássicos

A junção mortal de ambição e fé conduz a trama que, assim como em outros filmes do diretor, está repleta de referências e de situações bíblicas. Há um personagem chamado Abel que é pai de gêmeos inimigos - um, profeta; outro, negociante ambicioso. Ambos, contudo, caminham em direção a Plainview com um único intuito: conseguir dinheiro. Mais do que dinheiro, poder. Plainview, aliás, é para onde todos os personagens convergem: filho, empresários, crentes, falsos profetas, jovens, velhos. Ele, pouco a pouco, trata de afastá-los, afugentando-os com um sarcasmo insuportável ou violência. A solidão que ele diz buscar é, de fato, conquistada. Ao fim da película, após o aniquilamento da última pessoa a buscá-lo, é sintomática a sua fala: "Terminei".

Pode-se dizer, então, que Plainview (não posso deixar de repetir: a atuação de Day-Lewis, como diria Nelson Rodrigues, deveria sair direto das telas para uma antologia) está fracassado, tendo se tornado um trapo humano, um imprestável e solitário andrajo. Pode-se dizer, por outro lado, que Plainview, justamente por conta da sua solidão total, está realizado, tendo finalmente alcançado o seu objetivo de isolar-se da maldade alheia (a certa altura, ele confessa ser esse o seu maior desejo). Esse isolamento vem a custo de muita maldade própria e não por meio de meditação, de práticas orientais de alheamento ou da compaixão e compreensão diante das imperfeições humanas: Plainview é o homem ocidental em seu estado mais puro, que não descarta a utilização de práticas bárbaras para lograr seus objetivos - está, portanto, realizado e contente enquanto chafurda na sua própria miséria e abandono. Plainview está salvo. Apenas ele.

NOTA:

quarta-feira, março 26

A Dança dos Deuses - HILÁRIO FRANCO JÚNIOR (Editora COMPANHIA DAS LETRAS, 430 pág.)


A idéia deste livro surgiu há muitos anos de uma constatação simples e nem por isso surpreendente: no Brasil, o futebol é bastante jogado e insuficientemente pensado.” Sob essa premissa, Hilário Franco Júnior, historiador e professor da USP, vai fundo no tema futebolístico e o faz dialogar — observando e apontando semelhanças reais — com aspectos importantes da vida do homem não apenas brasileiro, mas do homem universal.

Na primeira parte do livro, Futebol, micro-história do mundo contemporâneo, Hilário Franco contextualiza, entre outras coisas, o surgimento do esporte com o seu berço, a Inglaterra da revolução industrial, e explica características do esporte herdeiras da lógica capitalista-industrial de trabalho em grupo. Explica também como o futebol serviu de bode expiatório para inúmeros joguetes políticos dado a sua força popular (o famoso “ópio do povo”); isso indiscriminadamente entre os fascistas, entre os liberais, os comunistas, as ditaduras latino-americanas (sobretudo Brasil e Argentina), etc, etc. Em suma, Hilário diz que o futebol é um dos espelhos da sociedade.

A primeira parte ainda cita dados, digamos, pitorescos, como Maquiavel ter praticado um esporte muito parecido com o futebol e Da Vinci ter sido entusiástico apreciador também de um tipo de jogo muito parecido.

Na segunda parte do livro, Futebol, metáfora do mundo contemporâneo, os tópicos religião, sociologia, antropologia, psicologia e lingüística (talvez o tópico mais improvável, e por isso um dos mais interessantes) são dissecados sob a ótica do esporte.

Hilário Franco explica o caráter violento inerente ao jogo (segundo ele, não só ao jogo, mas às manifestações religiosas e ritualísticas de um modo geral), de como o futebol é, sim, uma espécie de religião laica, e como ele pode ser também uma língua com morfologia, semântica, sintaxe própria.

Evidentemente, por ser um livro extenso e preocupado em explicar minúcias do esporte, uma pequena resenha jamais dará conta de resumi-lo tão bem. Fica aqui a dica da leitura (que é agradável pelo estilo ágil e informativo), sobretudo àqueles que não conseguem ver no futebol algo mais que vinte e dois homens correndo atrás de uma bola.

NOTA:

domingo, março 23

A Aventura (L'Avventura, ITÁLIA, 1960)


Convenhamos: o cinema de Antonioni é o mais sedutor que há. Além do toque italiano, ele parece possuir todos os elementos possíveis: a apologia às mulheres, a câmera morosa, os planos espaçados (influência para Win Wenders) e seu poético existencialismo são alguns. Seguramente um dos meus 5 diretores favoritos, Michelangelo Antonioni sempre buscou a discrição, mesmo nos momentos mais densos; seu estilo é tão único que talvez por isso mesmo seja o mais fácil de definir.

Existem algumas definições básicas para os filmes de Antonioni. São elas: o vazio da sociedade contemporânea, o tédio, a hipocrisia, a crise do homem moderno, o desleixo na busca de soluções para problemas aparentemente banais, as relações efêmeras, o teor melancólico das paixões, a fúria sedentária dos ódios e por aí vai. Tudo isso está presente no filme A Aventura, e representados de forma magistral. Mas sua mais grandiosa força é sem dúvida a câmera. Se você quiser ensinar a alguém o que uma câmera é capaz de fazer em todos os campos possíveis (técnico, fisiológico, psicológico, visual, etc.) e provar que ela também respira, anda, fala e todas essas outras faculdades, mostre A Aventura. É um primor de exemplo. Logo no começo do filme você percebe que ele vai ser bom; em meia hora de projeção ele já pode ser considerado perfeito; aos 58 minutos começa a genialidade.

A Aventura é, talvez, melhor que A Noite. Todo cinéfilo já deve ter passado pelo doloroso processo de decidir o vencedor do duelo. Para quem não sabe, esses dois longas compõem, juntamente com O Eclipse, a trilogia da incomunicabilidade, nessa mesma ordem (A Aventura, A Noite, O Eclipse). É muito fácil (no sentido de “segurança”) optar por A Noite; é um filme de imagens suntuosas, belíssimas afinal, e de um ambiente bem refinado com diálogos mais refinados ainda (confessem: quem assiste a um filme de Antonioni logo depois se sente o cara mais culto do mundo). Além do mais, possui duas divindades chamadas Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau – e isso é um argumento de peso, talvez o melhor. A Aventura, além de menos acessível (o filme, quando lançado em Cannes, foi inicialmente vaiado), não possui nenhum grande ator para compensar a presença de uma das piores musas de grandes diretores de todos os tempos: Monica Vitti, a péssima atriz que Antonioni, seu marido, pôs em quase todos os seus projetos. Ela é o pior do filme. Bonitinha, mas ordinária.

*

Anna é uma mulher de concepções bastante complicadas. Em certa viagem com amigos, entre eles seu parceiro Sandro e a amiga Claudia (Monica Vitti), ela acaba sumindo e deixando todos supostamente desesperados. Até quando uma pessoa é sincera em demonstrar e até mesmo sentir certas emoções? Essa é a pergunta que Antonioni esfrega na nossa cara. E esfrega com força; esfrega até constranger. Claudia e Sandro iniciam a partir daí um relacionamento tão tórrido quando tedioso, e que permanece inexplicável até os créditos finais. Tão inexplicável que eles acabam aceitando a situação.

O grande trunfo de A Aventura é a maestria com que ele nos passa a sensação perfeita de uma Anti-Aventura. Vemos personagens como Claudia, Sandro e Anna com um forte sentimento de cumplicidade, porque sabemos (ou ao menos nosso inconsciente percebe) que esse é o grande fardo do mundo moderno. A alma humana já foi tão dissecada que nesses dias se vive em prol de não morrer. Hoje o altruísmo é considerado uma impostura, e a piedade é nada mais que arrogância. A Aventura mostra isso. E é por isso que aquele que talvez seja o melhor longa-metragem de Antonioni não é apenas um filme, mas uma verdadeira obra de arte – e uma grande obra, diga-se de passagem.



NOTA:

quarta-feira, março 19

Piaf - um hino ao amor (La môme, FRANÇA/UK/REPÚBLICA TCHECA, 2007)


Antes mesmo de assistir, antes mesmo do Oscar, todos tinham ouvido falar do filme de Piaf e tinham algo a falar sobre ele. Pelo menos foi assim comigo. Após ter assistido ao filme alguns dos comentários se justificaram. Outros nem tanto. A verdade é que o filme não se diferencia de tantos outros filmes biográficos, alguns recentes como Ray, ou o Aviador. (Esse é, inclusive, um comentário reincidente). Não escapa aqui nenhum clichê. Mas há também uma densidade emocional, um grito que vem, dói na garganta e que reclama cumplicidade.

A vida de Edith Piaf, a pequena pardal, é folhetinesca. Saiu das ruas para a glória dos palcos. A mãe, uma cantora, o pai, contorcionista, são ausentes, e num prostíbulo, durante sua infância, encontra numa prostituta a verdadeira figura materna. Por essa época fica cega mas, em seguida, recupera a visão. Depois do sucesso, viciada em morfina, precocemente envelhecida, e com seu amante morto num desastre de avião, morre doente, sem poder andar, numa cama.

A edição do filme, alternando fases diferentes na vida da cantora, ora velha, ora criança, ora jovem, quebrando a linearidade temporal, é apontada como outro ponto alto do filme. Não discordo, mas se entenda: esse recurso não vale por si só, antes se insere numa estrutura maior, onde, junto ao roteiro e à ótima movimentação de câmeras, contribui para a agilidade, essa sim, uma das maiores virtudes do filme. Se a movimentação de câmeras é boa a fotografia é minha maior birra. É plasticamente bonita, confesso – mas e daí? As luzes e cores se arrumam em cena constituindo uma estética vazia, que não acrescenta muito ao filme. Um momento de encantamento fácil e frívolo, talvez. É o que mais justifica a tendência apontada pela crítica de se enquadrar nos padrões holywoodianos e, consequentemente, angariar alguma estatueta.

Quanto a atriz, Marion Cotillard, que ganhou o Oscar, é realmente boa. Se ela está igualzinha a Piaf, é coisa que ignoro, pois até hoje não vi nem foto da cantora “de verdade”. Mas entendo que a validade de seu trabalho está além da semelhança que se possa ter com Edith Piaf: a encenação visceral, quase melodramática (muito parecido ao estilo de cantar de Piaf), caracteriza e ressignifica todo o restante do filme. Se pode dizer sem exagero, que a sua atuação faz do filme melhor; bom, até.


NOTA:

sábado, março 15

Of Mice and Men - JOHN STEINBECK (Editora PENGUIN, 144 pág.)


Houve um momento, em passado longínquo, no qual Edmund Wilson afirmou que os personagens criados por Steinbeck assemelhavam-se mais a animais do que a humanos. Houve um momento, em passado bem mais recente, em que nutrir um certo preconceito contra o referido ficcionista norte-americano era uma das formas para afirmar meu bom gosto e seriedade. Não se enganem: só os invertebrados não possuem preconceitos; só os débeis não percebem que o preconceito é fundamento básico para desenvolver-se uma personalidade sã. Não me pronuncio, neste post, a favor do ódio contra minorias, estrangeiros, etc. Não conclamo a que nossos sagazes leitores perambulem pelas cidades com camisas de Hitler (muito embora as de Lênin existam e sejam usadas - e me insultem).

Em termos literários, há que se nutrir preconceitos óbvios: contra best-sellers, contra magos, contra contemporâneos. Mais importante, contudo, é enfrentá-los, condená-los ou - na melhor das hipóteses - reconhecer-se tolo e livre de mais um pensamento pré-concebido. Particularmente, ainda preservo-me longe dos best-sellers. Entre os magos, ignoro o nosso - mas, embora não fosse exatamente um místico que afirmava ter o poder de provocar tempestades, enfrentei Herman Hesse e não o detestei, deixando de considerá-lo, sem lê-lo, o Paulo Coelho germânico. A luta com os contemporâneos é constante e, em certos casos, como num recente questionamento meu a respeito da qualidade de Mayrant Gallo, pode descambar até para o enfrentamento físico ou o tradicional e saudoso duelo de floretes ou pistolas com o próprio autor ou, como o foi em meu caso, com seus constrangedores asseclas.

O caso de Steinbeck, contudo, relacionava-se a um fator sobre o qual já me manifestei em textos anteriores: o populismo, a tentativa constante de congraçamento com o pobre, a necessidade insuperável de defender ideais de compaixão pelo homem menos favorecido. Há, em nossos tempos sombrios, um método de contemplação e avaliação da obra de arte que muito me desagrada: o leitor, o crítico ou quem quer que seja ignora qualidades estéticas e variedade temática para se concentrar em uma hipotética e (quase sempre) indignada mensagem do artista. Filmes, livros, canções - tudo perde a sua condição primeira de arte para ser transformado em panfleto, justificativa para ideais estúpidos ou brilhantes. Sobre este método, Steinbeck parecia-me o autor pronto, o autor que, esquecendo todo o resto, prestou-se a servi-lo fielmente. Tolice. Após a leitura de Of mice and men, pude constatar a minha ignorância e compreendi que existiam, em sua obra, nuances que um preconceituoso jamais poderia suspeitar.


Wilson, como de costume, estava correto em sua afirmação: o personagem de Steinbeck só falta andar de quatro e relinchar. Vejamos: para beber água, Lennie "drank with long gulps, snorting into the water like a horse"; em dado momento, George afirma que "somebody'd shoot you for a coyote if you was by yourself"; quando perguntado sobre as qualidades retóricas de Lennie, George afirma que a conversação, de fato, não é sua especialidade, mas que ele é "strong as a bull". No caso específico de Of mice and men, o personagem animalizado é justamente Lennie, um grandalhão que oscila entre a ingenuidade e a pura demência. Encontra-se justamente nesta oscilação o salto da prosa de Steinbeck. Fosse ele um uniformizador, um tendencioso, um autor que, em busca de justificativa, frauda a realidade e a sua ficção, seriam todos ingênuos no ambiente onde se desenrola a ação da novela - num rancho povoado por homens pobres e ignorantes, trabalhadores alquebrados pela rotina cansativa e sem o mínimo de instrução, Steinbeck individualiza-os e torna-os não apenas rapazes presos pelas estruturas sociais quase feudais do oeste americano, mas homens em constante conflito com o seu meio e com os seus semelhantes, nos quais muitas vezes não se reconhecem.

A ambigüidade que transparece no caráter de Lennie está, de forma ainda mais clara e potente, no ato final de George. Ao sacrificar o companheiro imbecil como a um animal (como, poucas páginas antes, fora sacrificado um cão sarnento e indesejável), jamais deixa de praticar um ato de ternura e compaixão. Pouco antes de acertá-lo, discorre mais uma vez sobre o lar com o qual sonhavam e pelo qual cruzavam o oeste juntos. "We'll have a cow (...) An' we'll have maybe a pig an' chickens", "Ever'body gonna be nice to you. Ain't gonna be no more trouble", "An' live on the fatta the lan'." - é neste nível a conversa que mantêm antes do sacrifício, que se dá quando Lennie, de costas, implora para que partam imediamente para o sonhado rancho. A crueldade deste ato, que sela de uma vez a qualidade de mero animal de Lennie, está, o tempo todo, mesclada à idéia de que George estaria fazendo o melhor, livrando-o de um sofrimento mais longo. A arte de Steinbeck é, de fato, pouco sutil, até brutal, eu diria - mas nunca medíocre ou covarde. Lennie, o homem animalizado, morre cheio de sonhos e esperanças puramente humanos - enquanto George, o compassivo humano, que reflete a condição miserável do amigo e resolve encerrá-la, decide-se pelo assassinato (que é brutal, estúpido e covarde, mas essencialmente um ato humano).



NOTA:

quarta-feira, março 12

Wilco - Sky Blue Sky, 2007


Se tomarmos como parâmetro somente o primeiro verso de cada canção que abre os três discos recentes de estúdio do Wilco, então perceberemos o quanto este Sky Blue Sky soa diferente: mais alegre, mais "solto", mais despreocupado.

Vejamos. Em 2002, no disco Yankee Hotel Foxtrot, na faixa I’m trying to break your heart, Jeff Tweedy canta o seguinte: “Eu sou um americano aquariano bêbado”. Dois anos depois, A Ghost is Born começa assim: “Quando eu sentei na cama próximo a você, você começou a chorar” (At least that's what you said). Either Way, faixa que abre o disco mais novo, diz que talvez o sol brilhe hoje e que as nuvens se dissipem. Ora, qualquer pessoa que conheça o mínimo sobre Jeff Tweedy sabe que para um cara atormentado como ele, dizer que o sol poderá brilhar e o céu ficará limpo de nuvens é uma mudança e tanto de atitude.


Tweedy: o retrato de um artista atormentado.

Essa mudança de atitude se percebe mais amplamente no aspecto sonoro do disco, mais até do que na temática das letras, regularmente boas desde o primeiro disco em 1995. Depois dos excessos de experimentalismo em A Ghost is Born (como os 8 ou 9 minutos de microfonia na música Less than you think), Sky Blue Sky preza pela coesão e simplicidade em arranjos bastante influenciados por Neil Young, Byrds, Beatles de Paul McCartney, Bob Dylan e, por que não, pelo próprio Wilco dos primeiros discos A.M. e Being There. Either Way, Impossible Germany, Hate It Here, Walken, What Light, On and On and On e a faixa título confirmam o que digo.

Muito se especulou sobre essa volta do Wilco a suas origens sessentistas e “alt-countryanas”. Levantou-se a hipótese da banda não saber mais aonde ir depois de álbuns tão excessivos: de talento, de beleza, de barulho, de experimentalismo. Diz-se também que essa volta se deve a entrada dos dois novos membros que compõem agora a melhor formação que a banda já teve: o guitar-hero Nells Cline e o multi-instrumentista Pat Sansone. Pode parecer um paradoxo, já que com a entrada de novos membros, natural seria a banda incorporar novos elementos.

Novos ou velhos elementos, o fato é que o disco é bom.


NOTA:

sábado, março 8

Chinatown (Chinatown, EUA, 1974)




Sem rodeios, devo dizer que considero o roteiro de Chinatown o melhor da história do cinema. Que fique claro: embora seja um dos meus filmes prediletos, a muito custo entraria num hipotético TOP 30. Porque assim como Sindicato de Ladrões é um filme feito (ou posteriormente associado) para a atuação de Marlon Brando (já que a obra em si não é tão excepcional quanto parece), Chinatown é um grande filme que fica à sombra de seu roteiro; mesmo a trilha sonora (a música de abertura me fez se apaixonar pelo filme logo de cara), mesmo a notável fotografia (que não invalidou, por ser em cores, a estética noir da película), a fenme fatale Faye Dunaway ou um instigante John Huston não lhe competem.

A própria história do roteiro de Chinatown já é inusitada: sua inspiração veio de uma conversa casual (que nada tem a ver com o enredo) do roteirista Robert Towne com um ex-morador do dito bairro; o final da história gerou discussão entre Towne e o diretor Roman Polanski; e na época, o produtor Robert Evans queria que Towne escrevesse uma adaptação de The Great Gatsby, romance de Fitzgerald, quando o roteirista afirmou: “Não, Gatsby não. Tenho algo melhor aqui” – esse “algo melhor” era o roteiro de Chinatown.

Falar das qualidades do texto é chover no molhado. As reviravoltas, o tom niilista, a oscilação das condutas e as próprias condutas de sólidas personagens, tudo beira à perfeição. Se um arranjo de música pop perfeito é Beatles e uma narrativa perfeita na literatura é Turguêniev, um roteiro perfeito de cinema é o de Chinatown. Entretanto, existem itens e detalhes que, apesar de partirem do script, só se tornam plenos a partir da direção de Polanski. A marcação de tempo é um exemplo: poucas vezes no cinema houve um longa-metragem tão bem distribuído, com seus planos e durações quase que compulsivamente diagramados. Talvez a própria vida pessoal do diretor (morte da esposa por mafiosos, acusação de pedofilia) o tenha inspirado.

O próprio diretor (foto acima) fez uma ponta no filme.



O roteiro de Robert Towne é tão genial que transcende a idéia de que ele foi feito para ser filmado. Sua engenhosidade é comparável à de Cidadão Kane, e seus diálogos marcantes chegam ao nível de A Malvada. A melhor “jogada” de Towne é sem dúvida todo o tabu e sentimento alegórico de temor que ele cria em torno do bairro Chinatown: todas as desculpas do filme partem do nome, da “idéia Chinatown”, idéia que inibe a tudo e a todos – o próprio J. J. Gitties, detetive vivido por Jake Nicholson, passou por lá. Até mesmo o nome do filme é Chinatown, que não é de forma alguma a trama central; até mesmo aqui no Brasil, cujas traduções de títulos são medonhas, conservaram o nome original, porque nota-se claramente que toda a força cinematográfica e imagética está aí. Na última cena, que se passa justamente no emblemático bairro, o amigo de Gitties, ao ver que este pretende tomar iniciativas, o toma pelo braço e o consola (leia-se “aconselha”), proferindo aquela que talvez seja a melhor frase do cinema: “Forget it, Jake. It’s Chinatown”.


NOTA:

quinta-feira, março 6

I Encontro dos Moedotecários da Bahia (ou I Moedotencontro)

Realizou-se em Feira de Santana na tarde desta última segunda-feira, dia 3 de Março de 2008, o I Encontro dos Moedotecários da Bahia ou I Moedotencontro, no qual estiveram presentes todos os 4 moedotecários que publicam no blog Fundo do Poço, que é justamente este aqui.

Para saber mais, clique no link abaixo:

http://moedotequeventos.blogspot.com/2008/03/i-encontro-dos-moedotecrios-da-bahia-ou.html

terça-feira, março 4

Vitor Ramil - Tambong, 2000


Antes de mais nada, uma apresentação. O gaúcho Vitor ramil é cantor, compositor, arranjador, escritor e quase um desconhecido. Com mais de vinte anos de carreira (o seu primeiro e promissor disco, Estrela, estrela - que teve a faixa título gravada por Gal Costa e as vozes de Tetê e Zizi - data de 1980) Vitor Ramil não seguiu os caminhos da fama. Mesmo coroa é como se começasse sempre. Além das cantoras citadas, sua carreira é recheada de nomes credenciais, figurões*. É antiga sua ligação com Egberto Gismonti, Wagner Tiso. No Tambong, seu sexto álbum, temos Chico Cesar, Lenine e João Barone nos créditos.

Mesmo afastado, Vitor Ramil faz parte de uma geração nova, já não tão nova, que carrega o árduo encargo de substituir uma geração seqüencialmente anterior canônica e consagrada. Entendo que a comparação, arbitrária e superficial, é prejudicial tanto a uns como a outros; mas cabem algumas observações**. O próprio cantor fala abertamente do seu esforço para superar a influência da bossa e da tropicália. Percebe-se uma busca por algo novo e próprio.

Outra característica de Vitor Ramil é a reflexão ou consciência de sua obra. Ao condensar em sua famosa estética do frio características regionais (do Rio Grande do Sul) e toda uma concepção artística (sete fundamentos: rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza, leveza e melancolia), ele definiu parâmetros para sua arte.

Em Tambong, o trabalho em questão, percebe-se essa estética mais como delineador que como fim em si. A produção fica por conta do músico argentino Pedro Aznar. Gravado na Argentina o nome Tambong é a união entre tango (argentino), candombe (uruguaio), a bossa (canarinha) e a milonga (platina).

estética do friuuuuuu


Das treze faixas há bons e maus momentos. Em geral, os arranjos simples (poucos instrumentos) e músicas de belas melodias como "Grama Verde" ou a lindíssima "Valérie" valem o disco. "O velho Leon e Natália em Coyoacán", faixa 6, música de Ramil sobre um poema de Paulo Leminski é a minha predileta, apesar da boa concorrência. Há duas versões em português de Bob Dylan mal-sucedidas (uma mais que a outra). Resolvo o problema destas e de outras canções (exatamente duas, uma em espanhol, outra em inglês, malogradas) pulando para a próxima faixa.

Arrajos exóticos, belas melodias, uma tentativa de revolução estética constante, às vezes auto-justificadas. Irregular, mas um bom disco; um bom artista.


*O rapaz é Irmão de Kleiton e Kleidir, produtores de seu primeiro álbum.

**Quanto a sua semelhança com Caetano, ele a atribei mais aos ouvintes e mítica presença do baiano no inconsciente popular. Mas reconhece que tem um timbre de voz parecidinho, nuns graves, talvez.



NOTA:

sábado, março 1

Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street, EUA/UK, 2007)



O maniqueísmo é a melhor maneira de compreender o mundo. E só filósofos barbudos e incompreensíveis poderiam dizer o contrário - e quem leva a sério o que dizem filósofos, sobretudo barbudos e incompreensíveis? Uma das simplificações essenciais para que se entendam as pessoas que nos rodeiam é dividi-las entre aquelas que gostam de musicais (raras) e aquelas que não os suportam (todos nós). Eu, numa constante e deliberada tentativa de desfazer-me em meio à multidão, afirmo que não tolero o referido gênero. Portanto, adentrei a sala de cinema com os dois pés atrás.

Uma segunda simplificação que poderíamos adotar é a seguinte: ou amas (e és um chato) ou odeias (e és um são) Tim Burton. A saber: Mãos de Tesoura está no meu Top 10 Sessão da Tarde (perdendo, apenas, para Um Príncipe em NY). É a execução perfeita de uma bela idéia, basicamente. Tem a dose certa de sentimentalismo e, sobretudo, de humor - característica que ressalto pelo fato de o humor do famigerado diretor já ter produzido coisas lamentáveis como o remake de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Ainda assim, coloco-me entre aqueles, meus leitores, meus irmãos, que não confiam neste simpático gótico. Fez-se uma combinação explosiva. Além de musical, Tim Burton. Portanto, adentrei a sala de cinema com os quatro pés atrás.

Mas desde os primeiros versos eu me abati. Meus preconceitos eram estripados, minhas idéias antigas e ridículas pereciam. Aos poucos, fui percebendo que o filme era grande e, principalmente, que a música era enorme. Minha apreciação musical é lenta, exige repetição - e talvez seja esta característica que me afaste dos musicais. Sweeney Todd, contudo, é mais exigente do que eu - e mais forte:

"There's a whole in the world like a great black pit
and the vermin of the world inhabit it
and its morals aren't worth what a pin can spit
and it goes by the name of London"


"No place like London" resume perfeitamente a película. Stephen Sondheim, que dizem ser um verdadeiro gênio (coisa à qual inclino-me a acreditar), é o responsável pelo drama original e pelas canções, que se atropelam numa inacreditável seqüência de obras-primas. É provável que a grandiosidade do filme se deva a este homem. Não serei exagerado e, a sério, reconhecerei a competência de Burton na direção: o filme é exato, impecável - não cansa, não provoca ou agride gratuitamente e possui uma crueldade ímpar e um humor refinado, mas perfeitamente assimilável. É um filme clássico, correto, que permite um acompanhamento com alguns raros (e caros) sobressaltos, mas sem a irritante tática de pregar estúpidas peças no espectador.


Sondheim: o gênio em questão


Sweeney Todd não possui grandezas no roteiro: é tudo linear e, de certa forma, previsível. Ainda assim, consegue não ser cansativo ou banal. A revolta do barbeiro tem motivos óbvios, a sua sanha justiceira corre quase sem surpresas. A sua vingança pessoal, contudo, revela dimensões maiores quando espalha-se para além de quem lhe causou desgraças diretamente: num dueto soturno (e engraçadíssimo) de Johnny Depp e Helena Bonham Carter, canta-se a desgraça do mundo, o seu algoz, a sua condenação - o próprio homem. É pontual a fala do juiz Turpin quando, saindo do tribunal, no qual acabara de condenar à forca um provável inocente, pergunta ao bedel que homem, afinal, não merece o cadafalso?

A música sublime de Sondheim nos desconcerta por seus temas sombrios, cantados numa Londres tenebrosa povoada por personagens infectos e desesperançosos. Simbólica, por sinal, é a cena final - na qual a criança, que outrora cantava, inocente, quase uma lullaby para a sua protetora, elimina o mal representado no serial killer que dá título ao filme e transforma-se, ela mesma, no símbolo do grande dilema que a película propõe: que homem, afinal, mesmo criança, ainda que representação do bem, não merece a forca? Não se iludam: o maniqueísmo é a melhor maneira de compreender o mundo, mas a pior forma para faze arte. Tim Burton entendeu isso e legou, finalmente, um filme para a cinemateca mais rigorosa que há: a minha.


NOTA: