domingo, março 23

A Aventura (L'Avventura, ITÁLIA, 1960)


Convenhamos: o cinema de Antonioni é o mais sedutor que há. Além do toque italiano, ele parece possuir todos os elementos possíveis: a apologia às mulheres, a câmera morosa, os planos espaçados (influência para Win Wenders) e seu poético existencialismo são alguns. Seguramente um dos meus 5 diretores favoritos, Michelangelo Antonioni sempre buscou a discrição, mesmo nos momentos mais densos; seu estilo é tão único que talvez por isso mesmo seja o mais fácil de definir.

Existem algumas definições básicas para os filmes de Antonioni. São elas: o vazio da sociedade contemporânea, o tédio, a hipocrisia, a crise do homem moderno, o desleixo na busca de soluções para problemas aparentemente banais, as relações efêmeras, o teor melancólico das paixões, a fúria sedentária dos ódios e por aí vai. Tudo isso está presente no filme A Aventura, e representados de forma magistral. Mas sua mais grandiosa força é sem dúvida a câmera. Se você quiser ensinar a alguém o que uma câmera é capaz de fazer em todos os campos possíveis (técnico, fisiológico, psicológico, visual, etc.) e provar que ela também respira, anda, fala e todas essas outras faculdades, mostre A Aventura. É um primor de exemplo. Logo no começo do filme você percebe que ele vai ser bom; em meia hora de projeção ele já pode ser considerado perfeito; aos 58 minutos começa a genialidade.

A Aventura é, talvez, melhor que A Noite. Todo cinéfilo já deve ter passado pelo doloroso processo de decidir o vencedor do duelo. Para quem não sabe, esses dois longas compõem, juntamente com O Eclipse, a trilogia da incomunicabilidade, nessa mesma ordem (A Aventura, A Noite, O Eclipse). É muito fácil (no sentido de “segurança”) optar por A Noite; é um filme de imagens suntuosas, belíssimas afinal, e de um ambiente bem refinado com diálogos mais refinados ainda (confessem: quem assiste a um filme de Antonioni logo depois se sente o cara mais culto do mundo). Além do mais, possui duas divindades chamadas Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau – e isso é um argumento de peso, talvez o melhor. A Aventura, além de menos acessível (o filme, quando lançado em Cannes, foi inicialmente vaiado), não possui nenhum grande ator para compensar a presença de uma das piores musas de grandes diretores de todos os tempos: Monica Vitti, a péssima atriz que Antonioni, seu marido, pôs em quase todos os seus projetos. Ela é o pior do filme. Bonitinha, mas ordinária.

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Anna é uma mulher de concepções bastante complicadas. Em certa viagem com amigos, entre eles seu parceiro Sandro e a amiga Claudia (Monica Vitti), ela acaba sumindo e deixando todos supostamente desesperados. Até quando uma pessoa é sincera em demonstrar e até mesmo sentir certas emoções? Essa é a pergunta que Antonioni esfrega na nossa cara. E esfrega com força; esfrega até constranger. Claudia e Sandro iniciam a partir daí um relacionamento tão tórrido quando tedioso, e que permanece inexplicável até os créditos finais. Tão inexplicável que eles acabam aceitando a situação.

O grande trunfo de A Aventura é a maestria com que ele nos passa a sensação perfeita de uma Anti-Aventura. Vemos personagens como Claudia, Sandro e Anna com um forte sentimento de cumplicidade, porque sabemos (ou ao menos nosso inconsciente percebe) que esse é o grande fardo do mundo moderno. A alma humana já foi tão dissecada que nesses dias se vive em prol de não morrer. Hoje o altruísmo é considerado uma impostura, e a piedade é nada mais que arrogância. A Aventura mostra isso. E é por isso que aquele que talvez seja o melhor longa-metragem de Antonioni não é apenas um filme, mas uma verdadeira obra de arte – e uma grande obra, diga-se de passagem.



NOTA:

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