sábado, março 8

Chinatown (Chinatown, EUA, 1974)




Sem rodeios, devo dizer que considero o roteiro de Chinatown o melhor da história do cinema. Que fique claro: embora seja um dos meus filmes prediletos, a muito custo entraria num hipotético TOP 30. Porque assim como Sindicato de Ladrões é um filme feito (ou posteriormente associado) para a atuação de Marlon Brando (já que a obra em si não é tão excepcional quanto parece), Chinatown é um grande filme que fica à sombra de seu roteiro; mesmo a trilha sonora (a música de abertura me fez se apaixonar pelo filme logo de cara), mesmo a notável fotografia (que não invalidou, por ser em cores, a estética noir da película), a fenme fatale Faye Dunaway ou um instigante John Huston não lhe competem.

A própria história do roteiro de Chinatown já é inusitada: sua inspiração veio de uma conversa casual (que nada tem a ver com o enredo) do roteirista Robert Towne com um ex-morador do dito bairro; o final da história gerou discussão entre Towne e o diretor Roman Polanski; e na época, o produtor Robert Evans queria que Towne escrevesse uma adaptação de The Great Gatsby, romance de Fitzgerald, quando o roteirista afirmou: “Não, Gatsby não. Tenho algo melhor aqui” – esse “algo melhor” era o roteiro de Chinatown.

Falar das qualidades do texto é chover no molhado. As reviravoltas, o tom niilista, a oscilação das condutas e as próprias condutas de sólidas personagens, tudo beira à perfeição. Se um arranjo de música pop perfeito é Beatles e uma narrativa perfeita na literatura é Turguêniev, um roteiro perfeito de cinema é o de Chinatown. Entretanto, existem itens e detalhes que, apesar de partirem do script, só se tornam plenos a partir da direção de Polanski. A marcação de tempo é um exemplo: poucas vezes no cinema houve um longa-metragem tão bem distribuído, com seus planos e durações quase que compulsivamente diagramados. Talvez a própria vida pessoal do diretor (morte da esposa por mafiosos, acusação de pedofilia) o tenha inspirado.

O próprio diretor (foto acima) fez uma ponta no filme.



O roteiro de Robert Towne é tão genial que transcende a idéia de que ele foi feito para ser filmado. Sua engenhosidade é comparável à de Cidadão Kane, e seus diálogos marcantes chegam ao nível de A Malvada. A melhor “jogada” de Towne é sem dúvida todo o tabu e sentimento alegórico de temor que ele cria em torno do bairro Chinatown: todas as desculpas do filme partem do nome, da “idéia Chinatown”, idéia que inibe a tudo e a todos – o próprio J. J. Gitties, detetive vivido por Jake Nicholson, passou por lá. Até mesmo o nome do filme é Chinatown, que não é de forma alguma a trama central; até mesmo aqui no Brasil, cujas traduções de títulos são medonhas, conservaram o nome original, porque nota-se claramente que toda a força cinematográfica e imagética está aí. Na última cena, que se passa justamente no emblemático bairro, o amigo de Gitties, ao ver que este pretende tomar iniciativas, o toma pelo braço e o consola (leia-se “aconselha”), proferindo aquela que talvez seja a melhor frase do cinema: “Forget it, Jake. It’s Chinatown”.


NOTA:

Um comentário:

Luciano disse...

Filme excelente. Polanski magistral e Nicholson em grande atuação. Aquele papo de que Nicholson depois de Polanski e Kubrick só fez arremedos de atuação pode ser mesmo verdade.

Post muito bom!