quarta-feira, março 26

A Dança dos Deuses - HILÁRIO FRANCO JÚNIOR (Editora COMPANHIA DAS LETRAS, 430 pág.)


A idéia deste livro surgiu há muitos anos de uma constatação simples e nem por isso surpreendente: no Brasil, o futebol é bastante jogado e insuficientemente pensado.” Sob essa premissa, Hilário Franco Júnior, historiador e professor da USP, vai fundo no tema futebolístico e o faz dialogar — observando e apontando semelhanças reais — com aspectos importantes da vida do homem não apenas brasileiro, mas do homem universal.

Na primeira parte do livro, Futebol, micro-história do mundo contemporâneo, Hilário Franco contextualiza, entre outras coisas, o surgimento do esporte com o seu berço, a Inglaterra da revolução industrial, e explica características do esporte herdeiras da lógica capitalista-industrial de trabalho em grupo. Explica também como o futebol serviu de bode expiatório para inúmeros joguetes políticos dado a sua força popular (o famoso “ópio do povo”); isso indiscriminadamente entre os fascistas, entre os liberais, os comunistas, as ditaduras latino-americanas (sobretudo Brasil e Argentina), etc, etc. Em suma, Hilário diz que o futebol é um dos espelhos da sociedade.

A primeira parte ainda cita dados, digamos, pitorescos, como Maquiavel ter praticado um esporte muito parecido com o futebol e Da Vinci ter sido entusiástico apreciador também de um tipo de jogo muito parecido.

Na segunda parte do livro, Futebol, metáfora do mundo contemporâneo, os tópicos religião, sociologia, antropologia, psicologia e lingüística (talvez o tópico mais improvável, e por isso um dos mais interessantes) são dissecados sob a ótica do esporte.

Hilário Franco explica o caráter violento inerente ao jogo (segundo ele, não só ao jogo, mas às manifestações religiosas e ritualísticas de um modo geral), de como o futebol é, sim, uma espécie de religião laica, e como ele pode ser também uma língua com morfologia, semântica, sintaxe própria.

Evidentemente, por ser um livro extenso e preocupado em explicar minúcias do esporte, uma pequena resenha jamais dará conta de resumi-lo tão bem. Fica aqui a dica da leitura (que é agradável pelo estilo ágil e informativo), sobretudo àqueles que não conseguem ver no futebol algo mais que vinte e dois homens correndo atrás de uma bola.

NOTA:

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