sábado, março 15

Of Mice and Men - JOHN STEINBECK (Editora PENGUIN, 144 pág.)


Houve um momento, em passado longínquo, no qual Edmund Wilson afirmou que os personagens criados por Steinbeck assemelhavam-se mais a animais do que a humanos. Houve um momento, em passado bem mais recente, em que nutrir um certo preconceito contra o referido ficcionista norte-americano era uma das formas para afirmar meu bom gosto e seriedade. Não se enganem: só os invertebrados não possuem preconceitos; só os débeis não percebem que o preconceito é fundamento básico para desenvolver-se uma personalidade sã. Não me pronuncio, neste post, a favor do ódio contra minorias, estrangeiros, etc. Não conclamo a que nossos sagazes leitores perambulem pelas cidades com camisas de Hitler (muito embora as de Lênin existam e sejam usadas - e me insultem).

Em termos literários, há que se nutrir preconceitos óbvios: contra best-sellers, contra magos, contra contemporâneos. Mais importante, contudo, é enfrentá-los, condená-los ou - na melhor das hipóteses - reconhecer-se tolo e livre de mais um pensamento pré-concebido. Particularmente, ainda preservo-me longe dos best-sellers. Entre os magos, ignoro o nosso - mas, embora não fosse exatamente um místico que afirmava ter o poder de provocar tempestades, enfrentei Herman Hesse e não o detestei, deixando de considerá-lo, sem lê-lo, o Paulo Coelho germânico. A luta com os contemporâneos é constante e, em certos casos, como num recente questionamento meu a respeito da qualidade de Mayrant Gallo, pode descambar até para o enfrentamento físico ou o tradicional e saudoso duelo de floretes ou pistolas com o próprio autor ou, como o foi em meu caso, com seus constrangedores asseclas.

O caso de Steinbeck, contudo, relacionava-se a um fator sobre o qual já me manifestei em textos anteriores: o populismo, a tentativa constante de congraçamento com o pobre, a necessidade insuperável de defender ideais de compaixão pelo homem menos favorecido. Há, em nossos tempos sombrios, um método de contemplação e avaliação da obra de arte que muito me desagrada: o leitor, o crítico ou quem quer que seja ignora qualidades estéticas e variedade temática para se concentrar em uma hipotética e (quase sempre) indignada mensagem do artista. Filmes, livros, canções - tudo perde a sua condição primeira de arte para ser transformado em panfleto, justificativa para ideais estúpidos ou brilhantes. Sobre este método, Steinbeck parecia-me o autor pronto, o autor que, esquecendo todo o resto, prestou-se a servi-lo fielmente. Tolice. Após a leitura de Of mice and men, pude constatar a minha ignorância e compreendi que existiam, em sua obra, nuances que um preconceituoso jamais poderia suspeitar.


Wilson, como de costume, estava correto em sua afirmação: o personagem de Steinbeck só falta andar de quatro e relinchar. Vejamos: para beber água, Lennie "drank with long gulps, snorting into the water like a horse"; em dado momento, George afirma que "somebody'd shoot you for a coyote if you was by yourself"; quando perguntado sobre as qualidades retóricas de Lennie, George afirma que a conversação, de fato, não é sua especialidade, mas que ele é "strong as a bull". No caso específico de Of mice and men, o personagem animalizado é justamente Lennie, um grandalhão que oscila entre a ingenuidade e a pura demência. Encontra-se justamente nesta oscilação o salto da prosa de Steinbeck. Fosse ele um uniformizador, um tendencioso, um autor que, em busca de justificativa, frauda a realidade e a sua ficção, seriam todos ingênuos no ambiente onde se desenrola a ação da novela - num rancho povoado por homens pobres e ignorantes, trabalhadores alquebrados pela rotina cansativa e sem o mínimo de instrução, Steinbeck individualiza-os e torna-os não apenas rapazes presos pelas estruturas sociais quase feudais do oeste americano, mas homens em constante conflito com o seu meio e com os seus semelhantes, nos quais muitas vezes não se reconhecem.

A ambigüidade que transparece no caráter de Lennie está, de forma ainda mais clara e potente, no ato final de George. Ao sacrificar o companheiro imbecil como a um animal (como, poucas páginas antes, fora sacrificado um cão sarnento e indesejável), jamais deixa de praticar um ato de ternura e compaixão. Pouco antes de acertá-lo, discorre mais uma vez sobre o lar com o qual sonhavam e pelo qual cruzavam o oeste juntos. "We'll have a cow (...) An' we'll have maybe a pig an' chickens", "Ever'body gonna be nice to you. Ain't gonna be no more trouble", "An' live on the fatta the lan'." - é neste nível a conversa que mantêm antes do sacrifício, que se dá quando Lennie, de costas, implora para que partam imediamente para o sonhado rancho. A crueldade deste ato, que sela de uma vez a qualidade de mero animal de Lennie, está, o tempo todo, mesclada à idéia de que George estaria fazendo o melhor, livrando-o de um sofrimento mais longo. A arte de Steinbeck é, de fato, pouco sutil, até brutal, eu diria - mas nunca medíocre ou covarde. Lennie, o homem animalizado, morre cheio de sonhos e esperanças puramente humanos - enquanto George, o compassivo humano, que reflete a condição miserável do amigo e resolve encerrá-la, decide-se pelo assassinato (que é brutal, estúpido e covarde, mas essencialmente um ato humano).



NOTA:

4 comentários:

Anônimo disse...
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Ricardo Pinto disse...

Ah, a flor quer duelar com florete... Em pleno século XXI. Como crítico literário você não passa de dândi... Ou será o contrário? Lamentável que a internet permita que pessoas assim, sem nada sério para dizer, e que jamais o diriam em nenhuma outra circunstância (daí os ressentimentos), consigam subir nos caixotes.

Rodrigo L. disse...

Caríssimo Ricardo Pinto,

Sinto-me lisonjeado pelo adjetivo "flor" e pelo fato de você me lembrar que já estamos no século XXI. Desisti do duelo. Grato. No mais, concordo com a última parte do seu comentário.

andressa disse...

que baixaria!
kakakakakaka!