quarta-feira, março 19

Piaf - um hino ao amor (La môme, FRANÇA/UK/REPÚBLICA TCHECA, 2007)


Antes mesmo de assistir, antes mesmo do Oscar, todos tinham ouvido falar do filme de Piaf e tinham algo a falar sobre ele. Pelo menos foi assim comigo. Após ter assistido ao filme alguns dos comentários se justificaram. Outros nem tanto. A verdade é que o filme não se diferencia de tantos outros filmes biográficos, alguns recentes como Ray, ou o Aviador. (Esse é, inclusive, um comentário reincidente). Não escapa aqui nenhum clichê. Mas há também uma densidade emocional, um grito que vem, dói na garganta e que reclama cumplicidade.

A vida de Edith Piaf, a pequena pardal, é folhetinesca. Saiu das ruas para a glória dos palcos. A mãe, uma cantora, o pai, contorcionista, são ausentes, e num prostíbulo, durante sua infância, encontra numa prostituta a verdadeira figura materna. Por essa época fica cega mas, em seguida, recupera a visão. Depois do sucesso, viciada em morfina, precocemente envelhecida, e com seu amante morto num desastre de avião, morre doente, sem poder andar, numa cama.

A edição do filme, alternando fases diferentes na vida da cantora, ora velha, ora criança, ora jovem, quebrando a linearidade temporal, é apontada como outro ponto alto do filme. Não discordo, mas se entenda: esse recurso não vale por si só, antes se insere numa estrutura maior, onde, junto ao roteiro e à ótima movimentação de câmeras, contribui para a agilidade, essa sim, uma das maiores virtudes do filme. Se a movimentação de câmeras é boa a fotografia é minha maior birra. É plasticamente bonita, confesso – mas e daí? As luzes e cores se arrumam em cena constituindo uma estética vazia, que não acrescenta muito ao filme. Um momento de encantamento fácil e frívolo, talvez. É o que mais justifica a tendência apontada pela crítica de se enquadrar nos padrões holywoodianos e, consequentemente, angariar alguma estatueta.

Quanto a atriz, Marion Cotillard, que ganhou o Oscar, é realmente boa. Se ela está igualzinha a Piaf, é coisa que ignoro, pois até hoje não vi nem foto da cantora “de verdade”. Mas entendo que a validade de seu trabalho está além da semelhança que se possa ter com Edith Piaf: a encenação visceral, quase melodramática (muito parecido ao estilo de cantar de Piaf), caracteriza e ressignifica todo o restante do filme. Se pode dizer sem exagero, que a sua atuação faz do filme melhor; bom, até.


NOTA:

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