sábado, março 29

Sangue Negro (There Will Be Blood, EUA, 2007)


Difícil discernir o que torna Daniel Plainview o maior personagem do cinema contemporâneo. Talvez a atuação milagrosa de Daniel Day-Lewis nos leve a tal conclusão. Talvez a direção magistral de Paul Thomas Anderson nos engane a respeito. O mais provável, contudo, é que esta certeza seja proveniente da personalidade que ator e diretor conseguiram impor à figura: em Plainview, tudo é nebuloso, incerto - ao longo de toda a película, a única referência ao seu passado (um irmão) é falsa; e, como não bastasse, tal referência é assassinada por ele mesmo, como a explicar que os seus dias mais antigos não nos pertencem: "Não gosto de me explicar" é a frase fundamental de Plainview.

Sangue Negro é todo composto por sugestões. Desde a longa e silenciosa abertura até o final súbito, P.T. Anderson orquestra cenas enigmáticas, extremamente visuais, com narrativa rara ou inexistente. A beleza imagética e os cenários são trunfos fundamentais da obra (tal como a magnífica trilha sonora composta por Jonny Greenwood): os saltos cronológicos, por exemplo, não são seguidos de textos em off ou de diálogos que nos insiram no contexto do ano que aparece em branco na tela - a certeza da riqueza e da decadência moral na parte final do filme, por exemplo, é obtida através da grandiosidade da construção onde Plainview aparece e pela solidão e silêncio presentes. Ainda sobre a pura estética, notável é também a capacidade da direção em não tornar enfadonho um filme longo, com muitas tomadas silentes de grandes e desolados planos - considerando que a vastidão da paisagem deserta tem o potencial para entediar o público do cinema moderno, afeito a cenários "cheios" (daí Anderson parece afastar-se da América e filmar como um italiano, um discípulo de Antonioni).

Houve, há e haverá quem saliente uma suposta crítica aos valores norte-americanos atravessando todo o filme. Sim, sempre haverá quem prefira adotar o caminho mais fácil, mais banal para analisar toda e qualquer obra de arte. É inegável que nenhuma produção passa ao largo do seu tempo - por mais que mire passado ou porvir, Sangue Negro é o presente absoluto. Comprovação: nas cenas mais dantescas (a falsa conversão de Plainview e o "massacre" final do falso profeta) as pessoas presentes na sala do cinema não reprimiam os risos. Não são, em absoluto, cenas cômicas: são lamentáveis, opressoras, dignas do mais forte mal-estar - mas elas riam o típico riso desconfortável de quem não pode se dar a chance de levar a sério o que se passa na tela, pois isso seria o equivalente a dar-se um tiro de Magnum .44 no próprio pé. Sangue Negro faz o presente rir. Tal situação já basta para cravar um "clássico" na capa do DVD.

a nobre arte de praticar clássicos

A junção mortal de ambição e fé conduz a trama que, assim como em outros filmes do diretor, está repleta de referências e de situações bíblicas. Há um personagem chamado Abel que é pai de gêmeos inimigos - um, profeta; outro, negociante ambicioso. Ambos, contudo, caminham em direção a Plainview com um único intuito: conseguir dinheiro. Mais do que dinheiro, poder. Plainview, aliás, é para onde todos os personagens convergem: filho, empresários, crentes, falsos profetas, jovens, velhos. Ele, pouco a pouco, trata de afastá-los, afugentando-os com um sarcasmo insuportável ou violência. A solidão que ele diz buscar é, de fato, conquistada. Ao fim da película, após o aniquilamento da última pessoa a buscá-lo, é sintomática a sua fala: "Terminei".

Pode-se dizer, então, que Plainview (não posso deixar de repetir: a atuação de Day-Lewis, como diria Nelson Rodrigues, deveria sair direto das telas para uma antologia) está fracassado, tendo se tornado um trapo humano, um imprestável e solitário andrajo. Pode-se dizer, por outro lado, que Plainview, justamente por conta da sua solidão total, está realizado, tendo finalmente alcançado o seu objetivo de isolar-se da maldade alheia (a certa altura, ele confessa ser esse o seu maior desejo). Esse isolamento vem a custo de muita maldade própria e não por meio de meditação, de práticas orientais de alheamento ou da compaixão e compreensão diante das imperfeições humanas: Plainview é o homem ocidental em seu estado mais puro, que não descarta a utilização de práticas bárbaras para lograr seus objetivos - está, portanto, realizado e contente enquanto chafurda na sua própria miséria e abandono. Plainview está salvo. Apenas ele.

NOTA:

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