sábado, março 1

Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street, EUA/UK, 2007)



O maniqueísmo é a melhor maneira de compreender o mundo. E só filósofos barbudos e incompreensíveis poderiam dizer o contrário - e quem leva a sério o que dizem filósofos, sobretudo barbudos e incompreensíveis? Uma das simplificações essenciais para que se entendam as pessoas que nos rodeiam é dividi-las entre aquelas que gostam de musicais (raras) e aquelas que não os suportam (todos nós). Eu, numa constante e deliberada tentativa de desfazer-me em meio à multidão, afirmo que não tolero o referido gênero. Portanto, adentrei a sala de cinema com os dois pés atrás.

Uma segunda simplificação que poderíamos adotar é a seguinte: ou amas (e és um chato) ou odeias (e és um são) Tim Burton. A saber: Mãos de Tesoura está no meu Top 10 Sessão da Tarde (perdendo, apenas, para Um Príncipe em NY). É a execução perfeita de uma bela idéia, basicamente. Tem a dose certa de sentimentalismo e, sobretudo, de humor - característica que ressalto pelo fato de o humor do famigerado diretor já ter produzido coisas lamentáveis como o remake de A Fantástica Fábrica de Chocolate. Ainda assim, coloco-me entre aqueles, meus leitores, meus irmãos, que não confiam neste simpático gótico. Fez-se uma combinação explosiva. Além de musical, Tim Burton. Portanto, adentrei a sala de cinema com os quatro pés atrás.

Mas desde os primeiros versos eu me abati. Meus preconceitos eram estripados, minhas idéias antigas e ridículas pereciam. Aos poucos, fui percebendo que o filme era grande e, principalmente, que a música era enorme. Minha apreciação musical é lenta, exige repetição - e talvez seja esta característica que me afaste dos musicais. Sweeney Todd, contudo, é mais exigente do que eu - e mais forte:

"There's a whole in the world like a great black pit
and the vermin of the world inhabit it
and its morals aren't worth what a pin can spit
and it goes by the name of London"


"No place like London" resume perfeitamente a película. Stephen Sondheim, que dizem ser um verdadeiro gênio (coisa à qual inclino-me a acreditar), é o responsável pelo drama original e pelas canções, que se atropelam numa inacreditável seqüência de obras-primas. É provável que a grandiosidade do filme se deva a este homem. Não serei exagerado e, a sério, reconhecerei a competência de Burton na direção: o filme é exato, impecável - não cansa, não provoca ou agride gratuitamente e possui uma crueldade ímpar e um humor refinado, mas perfeitamente assimilável. É um filme clássico, correto, que permite um acompanhamento com alguns raros (e caros) sobressaltos, mas sem a irritante tática de pregar estúpidas peças no espectador.


Sondheim: o gênio em questão


Sweeney Todd não possui grandezas no roteiro: é tudo linear e, de certa forma, previsível. Ainda assim, consegue não ser cansativo ou banal. A revolta do barbeiro tem motivos óbvios, a sua sanha justiceira corre quase sem surpresas. A sua vingança pessoal, contudo, revela dimensões maiores quando espalha-se para além de quem lhe causou desgraças diretamente: num dueto soturno (e engraçadíssimo) de Johnny Depp e Helena Bonham Carter, canta-se a desgraça do mundo, o seu algoz, a sua condenação - o próprio homem. É pontual a fala do juiz Turpin quando, saindo do tribunal, no qual acabara de condenar à forca um provável inocente, pergunta ao bedel que homem, afinal, não merece o cadafalso?

A música sublime de Sondheim nos desconcerta por seus temas sombrios, cantados numa Londres tenebrosa povoada por personagens infectos e desesperançosos. Simbólica, por sinal, é a cena final - na qual a criança, que outrora cantava, inocente, quase uma lullaby para a sua protetora, elimina o mal representado no serial killer que dá título ao filme e transforma-se, ela mesma, no símbolo do grande dilema que a película propõe: que homem, afinal, mesmo criança, ainda que representação do bem, não merece a forca? Não se iludam: o maniqueísmo é a melhor maneira de compreender o mundo, mas a pior forma para faze arte. Tim Burton entendeu isso e legou, finalmente, um filme para a cinemateca mais rigorosa que há: a minha.


NOTA:

Um comentário:

sofia martínez disse...

O filme é bastante atraente, especialmente envolvendo Jonny profunda é ótimo. Também devo admitir que apesar de ser um musical o roteiro era bastante atraente, cujo mérito deve entregá-lo a J. Logan. Altamente recomendado.