terça-feira, março 4

Vitor Ramil - Tambong, 2000


Antes de mais nada, uma apresentação. O gaúcho Vitor ramil é cantor, compositor, arranjador, escritor e quase um desconhecido. Com mais de vinte anos de carreira (o seu primeiro e promissor disco, Estrela, estrela - que teve a faixa título gravada por Gal Costa e as vozes de Tetê e Zizi - data de 1980) Vitor Ramil não seguiu os caminhos da fama. Mesmo coroa é como se começasse sempre. Além das cantoras citadas, sua carreira é recheada de nomes credenciais, figurões*. É antiga sua ligação com Egberto Gismonti, Wagner Tiso. No Tambong, seu sexto álbum, temos Chico Cesar, Lenine e João Barone nos créditos.

Mesmo afastado, Vitor Ramil faz parte de uma geração nova, já não tão nova, que carrega o árduo encargo de substituir uma geração seqüencialmente anterior canônica e consagrada. Entendo que a comparação, arbitrária e superficial, é prejudicial tanto a uns como a outros; mas cabem algumas observações**. O próprio cantor fala abertamente do seu esforço para superar a influência da bossa e da tropicália. Percebe-se uma busca por algo novo e próprio.

Outra característica de Vitor Ramil é a reflexão ou consciência de sua obra. Ao condensar em sua famosa estética do frio características regionais (do Rio Grande do Sul) e toda uma concepção artística (sete fundamentos: rigor, profundidade, clareza, concisão, pureza, leveza e melancolia), ele definiu parâmetros para sua arte.

Em Tambong, o trabalho em questão, percebe-se essa estética mais como delineador que como fim em si. A produção fica por conta do músico argentino Pedro Aznar. Gravado na Argentina o nome Tambong é a união entre tango (argentino), candombe (uruguaio), a bossa (canarinha) e a milonga (platina).

estética do friuuuuuu


Das treze faixas há bons e maus momentos. Em geral, os arranjos simples (poucos instrumentos) e músicas de belas melodias como "Grama Verde" ou a lindíssima "Valérie" valem o disco. "O velho Leon e Natália em Coyoacán", faixa 6, música de Ramil sobre um poema de Paulo Leminski é a minha predileta, apesar da boa concorrência. Há duas versões em português de Bob Dylan mal-sucedidas (uma mais que a outra). Resolvo o problema destas e de outras canções (exatamente duas, uma em espanhol, outra em inglês, malogradas) pulando para a próxima faixa.

Arrajos exóticos, belas melodias, uma tentativa de revolução estética constante, às vezes auto-justificadas. Irregular, mas um bom disco; um bom artista.


*O rapaz é Irmão de Kleiton e Kleidir, produtores de seu primeiro álbum.

**Quanto a sua semelhança com Caetano, ele a atribei mais aos ouvintes e mítica presença do baiano no inconsciente popular. Mas reconhece que tem um timbre de voz parecidinho, nuns graves, talvez.



NOTA:

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