quarta-feira, abril 16

ESTAMOS DE FÉRIAS

O BLOG ESTÁ DE FÉRIAS NOVAMENTE.

terça-feira, abril 15

Seção UM CONTO! - nº 1

Publicada no espaço anexo ao Fundo do Poço - o Moedotequeventos - a 1ª edição da Seção UM CONTO!. Exatos quatro contos foram analisados, cada um por um moedotecário diferente. Eis:

1) AVENTURA BÚLGARA de Kosztolányi Dezsö, por Rodrigo L..

2) O RABO DA SEREIA de Ildázio Tavares, por Eder Fernandes.

3) ANGÚSTIA de Tchekhov, por Daniel Oliveira.

4) TLÖN, UQBAR, ORBIS TERTIUS de Borges, por Davi Lara.

segunda-feira, abril 14

Nova Seção no Blog!!!

Eis uma nova seção no Blog dos Moedotecários: a Seção TOP 5. Inaugurada ontem, não hoje, mas ontem, e publicada no espaço anexo ao Fundo do Poço, o Moedotequeventos, esta seção traz, num único post, os 5 "alguma coisa" de cada um dos quatro autores do Moedoteca.


Nesta 1ª edição, temos o TOP dos 5 álbuns prediletos. Clique aqui para dar uma olhada... vale a pena conferir!


NOTA: A periodicidade da publicação desta seção ainda não foi definida. Mas provavelmente ela deverá seguir atualizada durante todo segundo domingo do mês.

sábado, abril 12

Órfãos do Eldorado - MILTON HATOUM (Editora Companhia das Letras, 107 pag.)


Milton Hatoum parece-me um autor pacífico. Não faz questão de ser um ou o autor do Norte brasileiro - embora o seja, inegavelmente. Após a leitura de três dos seus quatro livros, arrisco-me, sim, a afirmar que se trata de um autor pacífico. Suas referências a locais e lendas nortistas são naturais, fluidas - não denunciam um escritor preocupado com questões alheias ao ato de escrever. Órfãos do Eldorado, sua mais recente e breve narrativa, revela um artista imerso na arte somente: não notamos alguém que se debate, inútil e ridiculamente, tentando forçar para si um precoce lugar na história da literatura brasileira.

Essa tranqüilidade se reflete mesmo no ritmo de produção e publicação de Hatoum. Aos 55 anos de idade, possui apenas quatro livros editados. Dentre tais, pelo menos dois se impõem entre as melhores letras produzidas no Brasil nos últimos vinte anos: Dois Irmãos (provavelmente a sua obra-prima) e Cinzas do Norte (contundente e sombria narrativa que o firmou como grande romancista). Órfãos do Eldorado está aquém dessas duas obras, mas longe de ser descartável. De certa forma, pode ser ideal se utilizada como uma boa e rápida introdução ao universo de Milton Hatoum - afinal, se encontram nela praticamente todos os tema e métodos recorrentes ao longo das suas outras obras, porém condensados devido aos limites impostos pelo formato de novela.

Estilisticamente, não há uma evolução perceptível desde Dois Irmãos. Os narradores "informais" dão uma fluência admirável à narrativa - que, ainda que faça tal opção pelo coloquialismo, em momento algum denuncia um autor pouco confortável com uma linguagem menos acadêmica, num ato de populismo barato e constrangedor. Hatoum parece estudar exaustivamente e desenvolver cheio de calma os seus narradores - pois sabe que é deles que parte sua arte e que, portanto, seria um disparate expô-los a um ridículo tão recorrente na literatura brasileira atual.


A rigor, em Órfãos do Eldorado há uma estrutura muito semelhante à encontrada em Cinzas do Norte: nela, o autor descreve e analisa duas tragédias que se dão em níveis distintos; a primeira, talvez perene, talvez passível de deterioração com o passar dos anos, é a tragédia pátria, local; a segunda, universal e bem mais resistente, é a decadência de determinadas famílias. Há que se reconhecer a competência do autor ao unir perfeitamente as duas quedas: em Cinzas do Norte, o filho rompe com o pai na medida em que este se envolve com os militares e assume (ou acentua) seus traços autoritários; já a pobreza que desfaz o império dos Cordovil, em Órfãos do Eldorado, é conseqüência do início da Primeira Grande Guerra, que acarreta a queda da exportação e do preço da borracha. Há que se reconhecer, porém, que tais planos de fundo históricos, no geral, perdem interesse com o correr dos anos. Entre Cinzas do Norte e a recente novela, por exemplo, é inegável a maior pujança e o maior apelo da primeira, carregada de uma história mais recente, ainda dolorida.


Mas não é histórica a matéria de Hatoum. É sobretudo sentimental, familiar. Percebo, agora, que as explicações e as relações do parágrafo anterior são superficiais. A ruptura entre Jano e Mundo é devida, em realidade, à impossibilidade de conciliação entre dois temperamentos antagônicos, sendo tal atrito o principal sofrimento da família - assim como a dilapidação da riqueza dos Cordovil parece ser intencional por parte de Arminto, homem que não possui traquejo para a vida comercial e que, cheio de ressentimento contra o pai, percebe que acabar com o dinheiro é, de certa forma, acabar também com a presença espectral do falecido pai.

As duas obras acenam um distanciamento relativo aos cenários e às suas funcionalidades. O romance, a partir de determinado ponto, torna-se mundial (há Londres, Berlim, Rio de Janeiro) enquanto a novela jamais ultrapassa as fronteiras do Norte, navegando entre as regiões do Médio Amazonas, Manaus e, no máximo, Belém. Essa distância, porém, não é definitiva. Nos dois livros, o Norte é insuperável, incontornável - por mais que Mundo se distancie dele, sente-se por ele ainda perseguido. Arminto, resignado, sequer ousa fugir - sabe, através dos simbólicos versos de Kaváfis, lidos a certa altura da sua vida (e utilizados por Hatoum como epígrafe), que

Não encontrarás novas terras, nem outros mares.
A cidade irá contigo. Andarás sem rumo
Pelas mesmas ruas. Vais envelhecer no mesmo bairro,
Teu cabelo vai embranquecer nas mesmas casas.
Sempre chegarás a esta cidade. Não esperes ir a outro lugar,
Não há barco nem caminho para ti.
Como dissipaste tua vida aqui
Neste pequeno lugar, arruinaste-a na Terra inteira.

Como afirmei no início do texto, Hatoum não escolhe ser um autor do Norte brasileiro. Homem e artista maduro, sabe que isso se trata de uma condenação - que carrega sobriamente, sem pressa ou alarde, enquanto forja a melhor ficção brasileira da atualidade.

Nota:

quarta-feira, abril 9

Um Copo de Cólera - RADUAN NASSAR (Editora Companhia das Letras, 86 pág.)


Se o estilo é, como dizem, a impressão digital do escritor, tê-lo, no entanto, não é assim tão natural e displicente como esses riscos que todos nós possuímos na ponta dos dedos. O estilo é um monumento que se vai construindo aos poucos, sob o peso dos anos, a cada assassinato simbólico dos escritores prediletos e exorcismo das obras mais influentes. É assim que costuma ser. Vem de Nelson Rodrigues aquela famosa queixa: "como é dura a vida de estilista!".
Muito raros são os escritores que desde a estréia possuem dicção própria. Raduan Nassar é um desses casos raros das nossas letras. Seu primeiro livro lançado, Lavoura Arcaica, alcançou um tal nível de excelência na linguagem que se tornou logo um clássico imediato. Lido, relido, estudado a exaustão nas academias, assunto recorrente em rodas de leitores etc, etc.

Inclusive, não há quem não atribua à alta qualidade literária de Lavoura Arcaica o motivo pelo qual Raduan veio deixar de escrever logo após sua estréia. À sombra de sua obra-prima, o escritor se viu ameaçado por não conseguir superá-la -- é o que dizem. O fato é que hoje em dia Raduan mora tranquilamente em um sítio no interior de São Paulo e é um pacato criador de galinhas. Há rumores de que ele ainda escreve e eu, particulamente, prefiro acreditar, mas ninguém sabe ao certo.

Embora lançado três anos depois de Lavoura Arcaica (1975), Um Copo de Cólera foi escrito cinco anos antes. Essa informação é necessária para que se perceba que os cinco anos que separam uma obra da outra não flagram assim uma evolução (leia-se mudança) tão nítida na maneira de Raduan escrever. Ao contrário, até: esse tempo serve para atestar que a linguagem em Lavoura Arcaica não foi obra do acaso, e sim de alguém que já sabia muito bem o que estava escrevendo.

Nassar: bucolismo após genialidade.


Mas vamos ao livro. A novela Um Copo de Cólera narra basicamente os acontecimentos de uma noite de amor e da manhã seguinte à essa noite na vida de um casal, quando a aparente harmonia entre eles se rompe por um motivo insignificante e eles partem para um bate-boca absurdo, onde, segundo a própria orelha do livro, "as paixões afloram, um palco se ilumina e os personagens ressurgem de manhã fazendo o mesmo que fizeram à noite: voltam, de certo modo, a tirar a roupa do corpo". Um jorro frenético de verdades anteriormente veladas, desejos reprimidos, visões de mundo antagônicas e ofensas gratuitas é deflorado e bolinado a exaustão.

O enrendo, ademais, é simples: preocupa-se em mostrar como os relacionamentos estão fadados a falta de comunicabilidade e como o ser humano pode não ser tão coerente assim em todos seus atos. "...eu não entendo como você se transforma, de repente você vira um facista", constata a personagem feminina em um dos momentos da narrativa.

Mas o que torna mesmo essa novela uma autêntica obra-prima é o poder que Raduan confere a linguagem, dando a todas as passagens uma vibração e uma beleza só possíveis pela escolha certeira de cada palavra. É recorrente a afirmação, entre poetas e estudiosos, de que não se faz poesia com idéias, mas com palavras. Acho que essa máxima serve muito bem para a prosa nassariana, que é uma prosa essencialmente de palavras: sonoridades, eloquências.

É claro, além da arma da linguagem, Raduan emprega também técnicas narrativas muito felizes para a dinâmica do enredo. O fluxo de consciência, por exemplo, que o escritor se vale para traçar o perfil psicológico do personagem masculino (percebam: eles não têm nome, nem o homem nem a mulher), um misantropo que tem rompantes infantis, é digno de aplauso. No capítulo final ainda temos o deslocamento do foco narrativo que passa do homem para a mulher, capítulo importatíssimo porque consolida uma das idéias centrais do texto: de que a verdade está com que discursa.

No mais, trata-se de um livro cuja leitura é obrigatória. "Obrigatória em que sentido?". No sentido de que é preciso reverenciar uma das nossas melhores literaturas.


NOTA:

sábado, abril 5

Antes do Amanhecer (Before Sunrise, EUA/ÁUSTRIA/SUÍÇA, 1995) / Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, EUA, 2004)




A cultura de um país pode abranger muito mais valores morais e sociais do que possamos imaginar. Comecemos pela marca principal: a língua. Significativa porcentagem de nossos gostos nasce da influência que o idioma nativo exerce sobre nós. Na música, por exemplo, essa característica é indissociável: entre Bob Dylan e Caetano Veloso, prefiro Caetano. No entanto, se eu fosse estadunidense (ou um cidadão de qualquer país que fale a língua inglesa), optaria por Dylan. No cinema, temos o curioso caso de Tropa de Elite, um filme apenas muito bom, que não possui nada de deslumbrante e nem de longe é comparável a Cidade de Deus. O impacto que ele causa (causou) em nós, brasileiros, não se deve apenas às denúncias do roteiro e às violências chocantes: provém também da selvageria das falas, das palavras de baixo calão e dos jargões que tomam proporções infinitas vezes maior por serem proferidos na nossa língua-mãe. Um efeito causado pela prosódia portuguesa que tem sua força bastante amenizada num espectador inglês, por exemplo, que verá na telona um marmanjo fazendo cara de mau e bradando ofensas numa língua incompreensível, e logo abaixo uma legenda com o nome “Fuck!” ou coisa parecida.

Além da língua, existem os valores culturais do campo das concepções: o humor mexicano é diferente do canadense. Frases que um estadunidense consideraria espirituosas, na Bolívia podem soar apenas tolas. Enquanto um francês sorumbático perde a cabeça por certos motivos, um eufórico italiano achará imaturo se angustiar pelos mesmos. E qual o porquê de toda essa conversa sobre os aspectos das particularidades culturais? Porque, na minha opinião, somente um habitante dos EUA poderia fazer um julgamento “justo” dos filmes-sequência Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol, ambos dirigidos e escritos por Richard Linklater e estrelados por Julie Delpy e Ethan Hawke.

Inovador e excêntrico nas devidas proporções, Linklater é um dos bons diretores dessa nova era. Entre o cenário cult de Jovens, Louco e Rebeldes e o experimentalismo de Waking Life e O Homem Duplo há um meio termo em seu estilo no qual se encaixam os dois filmes citados acima. A principal marca de parecença para com todos os outros é, sem dúvida, a natureza verborrágica do roteiro; as conversas intermináveis não cansam, mas constrangem. Pelo menos a mim – brasileiro, baiano, homem, corintiano, relativamente jovem e admirador de Proust – constrangeu. Talvez o maior mérito desses dois filmes de Linklater seja mesmo o das múltiplas reações e opiniões: um catarinense poderia pensar diferente de mim, assim como um flamenguista, uma mulher jovem, uma criança, uma senhora de idade, um metaleiro ou um fã de Agatha Christie.

História de amor: no 1º filme, o casal de jovens se conhece e resolve passar um dia em Viena. Ele precisa voltar para os EUA até o amanhecer do outro dia; ela tem de regressar à sua terra natal, a França. Se amam intensamente, mas o dia está acabando. E agora? No 2º filme, o casal se reencontra nove anos depois, em Paris, e eles ganham nova chance de ficarem juntos para todo o sempre. Mas será que eles serão fortes em suas decisões? Agirão racionalmente ou se deixarão levar pelos seus corações?

O melhor do roteiro dos dois filmes é tudo o que não seja diálogos. As inconveniências e os acasos são forçados, mas não tanto, e não são bobos como as falas. As situações inusitadas não me fizeram gargalhar, obviamente, mas me deixaram com um constante sorriso no rosto. Se Nelson Rodrigues escrevesse os diálogos, o filme seria genial (ok, é exagero). Há passagens patéticas, muito idiotas mesmo, como por exemplo quando a jovem Céline revela que se encantou com o jovem Jesse, achando-o um cara sensível, no momento em que ele falou que via o fantasma da avó falecida e conversava com ela, e quando ele contava pros outros ninguém acreditava, mas ele sabia que sua avó estava sempre ali, ao seu lado - sem comentários. Linklater já foi alcunhado de “filósofo moderno” ou coisa parecida, por causa das reflexões de suas exóticas personagens; mas são discussões quase sempre vulgares, adolescentes e/ou impensadas. Em Antes do Pôr-do-Sol, há ainda a questão do execrável lugar-comum concernente às histórias das personagens: Jesse, nove anos depois, resolve escrever um livro sobre um romance único e inigualável que viveu em apenas um dia há exatos nove anos atrás. No dia da entrevista do lançamento em Paris, encontra a amada perdida – algo, cá entre nós, realmente bizarro. Repito: um estadunidense poderá achar os diálogos dos dois filmes realmente encantadores. Eu não achei.

O ponto alto é a direção – boa demais. No Antes do Amanhecer mais ainda, pois há um processo de dissecação dos protagonistas através da câmera que inacreditavelmente entra em paralelo com a proposta do roteiro: assim como há uma superabundância de falas (um mal do cinema moderno hollywoodiano que atinge até mesmo diretores do calibre de Tarantino e da envergadura de Robert Altman), há uma obsessão pelos gestos do casal, por cada movimento e sugestão. Julie Delpy tem todos os seus poros desvelados, todo o hesitar dos dedos das mãos e o arquear emblemático das sobrancelhas. Ethan Hawke também é desnudado pela câmera, mas não prestei muita atenção nele, pois fiquei hipnotizado pela beleza de Delpy (nos dois filmes, diga-se de passagem). Não há nada de genial como a câmera de Dreyer em O Martírio de Joana D’Arc, por exemplo, mas é muito bem trabalhado. Merece atenção.



Antes do Amanhecer:



Antes do Pôr-do-Sol:

sexta-feira, abril 4

Nota de Esclarecimento

O Moedoteca esclarece que ativou a moderação de comentários, mas que isso não afetará em nada os raros comentaristas que se identificam ao criticar ou elogiar os textos. Pode-se argumentar que o mais sensato seria simplesmente impedir o anonimato nos comentários, mas chegamos à conclusão que, dessa forma, inibiríamos muita gente boa (que nós, naturalmente, reconhecemos e admiramos) e perderíamos uma das maiores fontes de piadas e diversão que este modesto espaço nos proporciona - e, já que não ganhamos dinheiro ou afagos duvidosos em meio às austeras e admiráveis letras baianas e feirenses, achamos que a um pouco de gargalhadas ainda temos direito.


Agradecemos pela compreensão.

Atualização em P.S.: Devido ao surpreendente número de comentários relativos à moderação, tivemos que retornar ao assunto. Um dos anônimos, educadamente, afirma que a moderação "fere a liberdade de cada um dizer o que acha". Devemos admitir que ele tem toda a razão, mas que um blog não é, necessariamente, um Estado Democrático - tem dono e o dono tem o direito de publicar o que bem entender. É mais ou menos como um quintal: se algum gaiato entrar no seu jardim e começar a bradar impropérios contra a sua família, acredito que dar uma saudável carreira estimulada por pedradas ou uma paulada nas pernas do dito cujo sejam direitos seus. A moderação não vai ferir o direito de ninguém dizer o que acha desde que se tenha a hombridade para identificar-se - e, veja bem, a hombridade necessária para se comentar num mísero blog é a mínima possível, basicamente a mesma que um papagaio possui.

quarta-feira, abril 2

Caetano Veloso - Cê, 2006


Esse novo CD de Caetano, pelo que me permite supor meu restrito círculo social, agradou mais aos jovens, indies ou não, que aos antigos fãs. Chamo de fã, aqui, a todos que se considerem afinados com Caetano e tenham pelo menos uma dúzia de músicas suas decoradas. E nos fãs antigos quero ressaltar mais o “antigo" do termo, os trintões pra cima, os que viveram a construção ou a consolidação do artista e da figura pública de Caetano. A estes se soma à decepção de uma música estranha, diferente do bom e velho Caetano, cujas referências musicais de bandas de rock contemporâneo eles não conseguem assimilar, a (má) conduta pública do cantor. Muitas vezes ouvi queixas contra o “velho caduco” sem entender direito se tais críticas se estendiam ao aspecto profissional. É uma questão delicada. Eu mesmo fui apresentado ao álbum A Foreign Sound (disco anterior ao ) pelo programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão; ali alardeava-se uma onda anti-americana e Caetano era colocado na contramão dessa onda com um álbum todo de músicas americanas. Se, particularmente, não me deixo influenciar pelas polêmicas midiáticas (reais ou não) envolvendo Caetano, quando se trata da sua música, nesse caso, sem me revoltar, negligenciei esse álbum e até hoje ainda não o escutei. A manchete trazia a discussão para o ambiente político (a Guerra do Iraque era o assunto da vez) e relegava a música a um segundo plano como mera ferramenta ideológica. Conhecendo a sua trajetória e mesmo outras declarações sobre o mesmo álbum e sobre o tipo vazio de estrelismo, estranho até hoje que o cantor se submeta a esse tipo de promoção de sua obra que é, convenhamos, desnecessária.

Porém, esse tipo de discussão, ao meu entender, ofusca a música de Caetano e dá uma medida outra, onde a arte é que deveria importar. Foge aos objetivos desse texto, nesse fundo de poço demasiado estreito, analisar toda a obra de Caetano - antes, sem rodeios, devo isolar uma característica: a renovação. Quando me deu uma cópia de , Rodrigo, caro colega moedotecário, falou por alto a respeito de uma possível crise de meia idade. Rodrigo estava brincando, mas ao ver Caetano fazer o sinal do demo, antiquado e grisalho, e gritar rock’n roll na MTVê, um estereótipo desse tipo é quase inevitável. O álbum em si, contanto, está além desse papo qualquer coisa - é bom e, a meu ver, bastante significativo.

Em meio a questões classificatórias que não me importariam em outra ocasião, mas aqui as moedas têm valor e têm nome, convenci a mim mesmo que este é um álbum de rock. Mas se o rock é antes utilizado como um meio de expressão estética, não é o principal. O que fica marcado toda vez que a derradeira faixa chega ao fim é que há algo novo ali - que ele conseguiu, o coroa se renovou de novo. A temática é variada, com muito teor sexual, fim de relacionamento e velhice. Esse último se ressalta quando aparece por contraste com o contexto de três músicos relativamente jovens acompanhando um sessentão e toda a maturidade e inovação da música deles. As letras usam da escatologia em assuntos brandos. Tomei um susto quando, em "Deusa Urbana", uma canção musicalmente redonda e sem surpresas, eu ouvi “mucosa roxa, peito cor de rola” pela primeira vez. Nos pontos mais polêmicos, veste-se de ironia fina e cortante. Quanto à última faixa, "O herói", um rap que discute a questões raciais, alguns amigos se vêem-na como uma homenagem aos rappers. Sem querer justificar essa interpretação, longe disso, a ironia da canção é tanta que deixa tudo muito dúbio: uma homenagem bastante ambígua, se for. A simplicidade e economia dos arranjos, o power trio do rock, contrasta com as letras carregadas de imagens e jogos rítimicos.

rock'n roll!!!


FAIXA-A-FAIXA


1) Outro

Gosto quando ele fala “eu já chorei muito por você/ também já fiz você chorar” e logo antes diz que vai estar “de cara alegre e cruel/ feliz e mau como um pau duro”. A canção tem muita violência por trás dos jogos semânticos e do riff engraçadinhos.

2) Minhas Lágrimas

Canção morosa. Confesso que não entendo bem do que ela trata, talvez seja somente um retrato de um momento lento e triste.

3) Rocks

Foi trilha de novela e tudo o mais. Gosto da sonoridade de mau gosto da letra e da descrição da mulher que rateou com o eu lírico de Caetano do início da canção.

4) Deusa Urbana

Um suspiro. Três minutos e cinqüenta e três segundos depois, o ar sai do pulmão.

5) Waly Salomão

Uma homenagem póstuma.

6) Eu não me arrependo

As meninas gostam dessa.

7) Musa Híbrida

Depois de seis rocks, um rítimo brasileiro de letra altamente imagética.

8) Odeio

Começa com um riff hipnótico, um minuto e dez segundos depois inicia-se uma sucessão de metáforas mais ou menos herméticas, muito bonitas, que dão uma impressão de espera e insatisfação. No fim de tudo dizem que o refrão “odeio você” é para Paula Lavigne, recém ex-mulher e conclui-se a interpretação deveras complicada desta canção.

9) Homem
Uma declaração de hombridade e macheza.

10) Porquê?

“Estou a vir...”
Vir vt. 1. Transportar-se de um lugar para aquele outro onde está o falante. 2. Chegar. 3. Voltar, regressar. 4. Provir, resultar. 5. Afluir, comparecer. 6. Ocorrer (à memória, ao pensamento). Intr. 7. Chegar (um tempo ou ocasião). 8. Apresentar-se. 9. Caminhar, andar. 10. Ser trazido. -> vin.do adj.” (Ximenes, Sérgio. Minidicionário Ediouro da língua portuguesa. 2° Ed. Reform. Ed. Ediouro, 2000.)

“...e tu como é que te tens por dentro?/ porque não te vens também?”

11) Lua

Tenho escutado essa canção repetidamente (agora mesmo) com renovada alegria - e toda vez que penso em algo pra escrever a seu respeito, frustro minha intenção de não elogiar nada nesse álbum explicitamente, adjetivalmente ou passionalmente, coisa que pode soar estranha e sem rigor crítico.

12) O Herói

“Um tratado étnico como poucos.”
O eu lírico é uma caricatura de quem com o discurso de afirmação racial incorre em intolerância e na negação da brasilidade. A bíblia, a pistola, Guevara e Coca-Cola são imagens usadas para representar as contradições desse tipo de conduta. O herói do título é como o personagem se considera a si mesmo. “eu sou um herói/ só Deus e eu sabemos como dói/ Eu sou um herói/ só deus e eu."


obs: a intenção inicial deste post era uma comparação entre o de Caetano e o Carioca de Chico Buarque. Por conta de uma série de complicações não foi possível. No entanto, ainda pretendo fazê-lo em outra oportunidade.



NOTA:

terça-feira, abril 1

Seção DESMITIFICANDO Nº 1

Parece mentira, mas não é: inaugurando as seções especiais do blog Fundo do Poço, foi publicado neste dia 1º de abril, no blog-anexo Moedotequeventos, a 1ª edição da Seção DESMITIFICANDO. O texto, de autoria do moedotecário Daniel Oliveira, tenta desmitificar o cineasta Darren Aronofsky e é focado no seu clássico filme Requiém para um sonho. Confiram!

"Eu estava me perguntando se seria interessante escrever sobre o filme Réquiem para um Sonho, de Darren Aronofsky. Na verdade, pensei em escrever sobre algum dos três filmes que mais me intrigam na história do cinema. Filmes que fazem sucesso de público e crítica e aparecem em prestigiosas listas de melhores obras, mas que não possuem, a meu ver, qualidade para tal. Existem vários, decerto, mas esses três em particular merecem atenção: O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, Lanternas Vermelhas e Cinema Paradiso. Fico angustiado quando leio críticas sobre Lanternas Vermelhas, nas quais os entendidos elogiam as “cores” do filme e atentam para o fato do marido garanhão não ter seu rosto revelado, como se essa superficialidade fosse algo genial. Um torpor me invade o espírito quando leio sobre Amélie Poulain e seu louvor às pequenas alegrias da vida; as veias se dilatam e pulsam freneticamente quando escuto ou leio pessoas afirmarem que Cinema Paradiso é a maior homenagem ao cinema já feita."

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