sábado, abril 5

Antes do Amanhecer (Before Sunrise, EUA/ÁUSTRIA/SUÍÇA, 1995) / Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, EUA, 2004)




A cultura de um país pode abranger muito mais valores morais e sociais do que possamos imaginar. Comecemos pela marca principal: a língua. Significativa porcentagem de nossos gostos nasce da influência que o idioma nativo exerce sobre nós. Na música, por exemplo, essa característica é indissociável: entre Bob Dylan e Caetano Veloso, prefiro Caetano. No entanto, se eu fosse estadunidense (ou um cidadão de qualquer país que fale a língua inglesa), optaria por Dylan. No cinema, temos o curioso caso de Tropa de Elite, um filme apenas muito bom, que não possui nada de deslumbrante e nem de longe é comparável a Cidade de Deus. O impacto que ele causa (causou) em nós, brasileiros, não se deve apenas às denúncias do roteiro e às violências chocantes: provém também da selvageria das falas, das palavras de baixo calão e dos jargões que tomam proporções infinitas vezes maior por serem proferidos na nossa língua-mãe. Um efeito causado pela prosódia portuguesa que tem sua força bastante amenizada num espectador inglês, por exemplo, que verá na telona um marmanjo fazendo cara de mau e bradando ofensas numa língua incompreensível, e logo abaixo uma legenda com o nome “Fuck!” ou coisa parecida.

Além da língua, existem os valores culturais do campo das concepções: o humor mexicano é diferente do canadense. Frases que um estadunidense consideraria espirituosas, na Bolívia podem soar apenas tolas. Enquanto um francês sorumbático perde a cabeça por certos motivos, um eufórico italiano achará imaturo se angustiar pelos mesmos. E qual o porquê de toda essa conversa sobre os aspectos das particularidades culturais? Porque, na minha opinião, somente um habitante dos EUA poderia fazer um julgamento “justo” dos filmes-sequência Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol, ambos dirigidos e escritos por Richard Linklater e estrelados por Julie Delpy e Ethan Hawke.

Inovador e excêntrico nas devidas proporções, Linklater é um dos bons diretores dessa nova era. Entre o cenário cult de Jovens, Louco e Rebeldes e o experimentalismo de Waking Life e O Homem Duplo há um meio termo em seu estilo no qual se encaixam os dois filmes citados acima. A principal marca de parecença para com todos os outros é, sem dúvida, a natureza verborrágica do roteiro; as conversas intermináveis não cansam, mas constrangem. Pelo menos a mim – brasileiro, baiano, homem, corintiano, relativamente jovem e admirador de Proust – constrangeu. Talvez o maior mérito desses dois filmes de Linklater seja mesmo o das múltiplas reações e opiniões: um catarinense poderia pensar diferente de mim, assim como um flamenguista, uma mulher jovem, uma criança, uma senhora de idade, um metaleiro ou um fã de Agatha Christie.

História de amor: no 1º filme, o casal de jovens se conhece e resolve passar um dia em Viena. Ele precisa voltar para os EUA até o amanhecer do outro dia; ela tem de regressar à sua terra natal, a França. Se amam intensamente, mas o dia está acabando. E agora? No 2º filme, o casal se reencontra nove anos depois, em Paris, e eles ganham nova chance de ficarem juntos para todo o sempre. Mas será que eles serão fortes em suas decisões? Agirão racionalmente ou se deixarão levar pelos seus corações?

O melhor do roteiro dos dois filmes é tudo o que não seja diálogos. As inconveniências e os acasos são forçados, mas não tanto, e não são bobos como as falas. As situações inusitadas não me fizeram gargalhar, obviamente, mas me deixaram com um constante sorriso no rosto. Se Nelson Rodrigues escrevesse os diálogos, o filme seria genial (ok, é exagero). Há passagens patéticas, muito idiotas mesmo, como por exemplo quando a jovem Céline revela que se encantou com o jovem Jesse, achando-o um cara sensível, no momento em que ele falou que via o fantasma da avó falecida e conversava com ela, e quando ele contava pros outros ninguém acreditava, mas ele sabia que sua avó estava sempre ali, ao seu lado - sem comentários. Linklater já foi alcunhado de “filósofo moderno” ou coisa parecida, por causa das reflexões de suas exóticas personagens; mas são discussões quase sempre vulgares, adolescentes e/ou impensadas. Em Antes do Pôr-do-Sol, há ainda a questão do execrável lugar-comum concernente às histórias das personagens: Jesse, nove anos depois, resolve escrever um livro sobre um romance único e inigualável que viveu em apenas um dia há exatos nove anos atrás. No dia da entrevista do lançamento em Paris, encontra a amada perdida – algo, cá entre nós, realmente bizarro. Repito: um estadunidense poderá achar os diálogos dos dois filmes realmente encantadores. Eu não achei.

O ponto alto é a direção – boa demais. No Antes do Amanhecer mais ainda, pois há um processo de dissecação dos protagonistas através da câmera que inacreditavelmente entra em paralelo com a proposta do roteiro: assim como há uma superabundância de falas (um mal do cinema moderno hollywoodiano que atinge até mesmo diretores do calibre de Tarantino e da envergadura de Robert Altman), há uma obsessão pelos gestos do casal, por cada movimento e sugestão. Julie Delpy tem todos os seus poros desvelados, todo o hesitar dos dedos das mãos e o arquear emblemático das sobrancelhas. Ethan Hawke também é desnudado pela câmera, mas não prestei muita atenção nele, pois fiquei hipnotizado pela beleza de Delpy (nos dois filmes, diga-se de passagem). Não há nada de genial como a câmera de Dreyer em O Martírio de Joana D’Arc, por exemplo, mas é muito bem trabalhado. Merece atenção.



Antes do Amanhecer:



Antes do Pôr-do-Sol:

5 comentários:

Anônimo disse...

Caro Daniel - o clichê contido neste início de frase é intencional - não vejo motivo para este post, do mesmo modo que não quero escrever este comentário, mas ao fazer uma ligeira lida em Schopenhauer creio que entender-me-á. Estes dois filmes não são tão ruins, só que não entendo o por que de resenhá-los. Não quero ser mais um chato puritano, longe de mim, porém vc não acha que o cinema americano, apesar de sua qualidade, não está sendo superestimado neste blog? o ruim é só americano?

Daniel disse...

Caro anônimo - resolvi publicar seu comentário porque, além de interessante, é educado.

Gostaria de saber um bom motivo para você não assinar seu nome. Nós somos apenas blogueiros, e não vamos lhe procurar para lhe assassinar ou coisa parecida caso saibamos sua identidade; estamos abertos a opiniões e discussões - caso contrário, nem ao menos a opção de se comentar nós disponibilizaríamos. Não é verdade?

*

Sobre esse assunto do cinema americano, é questão delicada. Não há superestimação alguma (aliás, você quis dizer "subestimado", não?): se você ler com atenção, eu dei nota 3 aos filmes, que equivale a "bom"; ou seja, os considero bons filmes, além da ótima direção,etc. Se você der uma olhada no blog, nós, moedotecários, falamos bem e muito bem de filmes "americanos" como Chinatown e Cães de Aluguel ou Sangue Negro, assim como falamos mal de filmes também "americanos" como Pergunte ao Pó ou A Agenda Secreta do meu namorado.

Em suma: não vi subestimação e não acho esses dois filmes ruins. A única questão é que existem as qualidades e existem os defeitos.

É preciso entender que a arte não depende de geografias. Não importa se é estadunidense, europeu ou brasileiro. O caso deste filme é diferente, ou melhor, curioso, porque envolve uma questão sociológica de valores culturais presente só, e somente só, no roteiro. Há filmes bons e há filmes ruins; e por mais que essa sentença última seja rasteira e maniqueísta, ela é e nunca deixará de ser bastante apropriada.

Volte sempre. E com o nome assinado, espero.

Luciano disse...

...E anônimo prefere o anonimato, mesmo sendo tão conhecido.

Rômulo Coelho disse...

Esse blog é por demais pretensioso. Os supostos críticos só sabem reproduzir os clichês dos jornais e revistas, recheados de vez em quando de palavras do estilo caipira, como no uso de "parecença" e similares. Não negam que são de Feira de Santana, BA. Aliás, todos "neguinhas" de Caetano Veloso. A petulância é tanta que até fizeram um I Encontro dos blogueiros muito inteligentes daqui, dando notícia do "evento". Ah, como levam a sério suas existências forjadas no sonho, no delírio. Fico pensando no dia em que eles tiverem realmente algum poder, no que farão...

Beatriz disse...

"No dia da entrevista do lançamento em Paris, encontra a amada perdida – – algo, cá entre nós, realmente bizarro."

Desculpa, mas não é tão bizarro assim, tendo em vista que Celine havia lido o livro e visto um cartaz indicando que o autor, Jesse, estaria naquela livraria naquela data. Não foi um encontro casual e sim proposital por parte dela.