sábado, abril 12

Órfãos do Eldorado - MILTON HATOUM (Editora Companhia das Letras, 107 pag.)


Milton Hatoum parece-me um autor pacífico. Não faz questão de ser um ou o autor do Norte brasileiro - embora o seja, inegavelmente. Após a leitura de três dos seus quatro livros, arrisco-me, sim, a afirmar que se trata de um autor pacífico. Suas referências a locais e lendas nortistas são naturais, fluidas - não denunciam um escritor preocupado com questões alheias ao ato de escrever. Órfãos do Eldorado, sua mais recente e breve narrativa, revela um artista imerso na arte somente: não notamos alguém que se debate, inútil e ridiculamente, tentando forçar para si um precoce lugar na história da literatura brasileira.

Essa tranqüilidade se reflete mesmo no ritmo de produção e publicação de Hatoum. Aos 55 anos de idade, possui apenas quatro livros editados. Dentre tais, pelo menos dois se impõem entre as melhores letras produzidas no Brasil nos últimos vinte anos: Dois Irmãos (provavelmente a sua obra-prima) e Cinzas do Norte (contundente e sombria narrativa que o firmou como grande romancista). Órfãos do Eldorado está aquém dessas duas obras, mas longe de ser descartável. De certa forma, pode ser ideal se utilizada como uma boa e rápida introdução ao universo de Milton Hatoum - afinal, se encontram nela praticamente todos os tema e métodos recorrentes ao longo das suas outras obras, porém condensados devido aos limites impostos pelo formato de novela.

Estilisticamente, não há uma evolução perceptível desde Dois Irmãos. Os narradores "informais" dão uma fluência admirável à narrativa - que, ainda que faça tal opção pelo coloquialismo, em momento algum denuncia um autor pouco confortável com uma linguagem menos acadêmica, num ato de populismo barato e constrangedor. Hatoum parece estudar exaustivamente e desenvolver cheio de calma os seus narradores - pois sabe que é deles que parte sua arte e que, portanto, seria um disparate expô-los a um ridículo tão recorrente na literatura brasileira atual.


A rigor, em Órfãos do Eldorado há uma estrutura muito semelhante à encontrada em Cinzas do Norte: nela, o autor descreve e analisa duas tragédias que se dão em níveis distintos; a primeira, talvez perene, talvez passível de deterioração com o passar dos anos, é a tragédia pátria, local; a segunda, universal e bem mais resistente, é a decadência de determinadas famílias. Há que se reconhecer a competência do autor ao unir perfeitamente as duas quedas: em Cinzas do Norte, o filho rompe com o pai na medida em que este se envolve com os militares e assume (ou acentua) seus traços autoritários; já a pobreza que desfaz o império dos Cordovil, em Órfãos do Eldorado, é conseqüência do início da Primeira Grande Guerra, que acarreta a queda da exportação e do preço da borracha. Há que se reconhecer, porém, que tais planos de fundo históricos, no geral, perdem interesse com o correr dos anos. Entre Cinzas do Norte e a recente novela, por exemplo, é inegável a maior pujança e o maior apelo da primeira, carregada de uma história mais recente, ainda dolorida.


Mas não é histórica a matéria de Hatoum. É sobretudo sentimental, familiar. Percebo, agora, que as explicações e as relações do parágrafo anterior são superficiais. A ruptura entre Jano e Mundo é devida, em realidade, à impossibilidade de conciliação entre dois temperamentos antagônicos, sendo tal atrito o principal sofrimento da família - assim como a dilapidação da riqueza dos Cordovil parece ser intencional por parte de Arminto, homem que não possui traquejo para a vida comercial e que, cheio de ressentimento contra o pai, percebe que acabar com o dinheiro é, de certa forma, acabar também com a presença espectral do falecido pai.

As duas obras acenam um distanciamento relativo aos cenários e às suas funcionalidades. O romance, a partir de determinado ponto, torna-se mundial (há Londres, Berlim, Rio de Janeiro) enquanto a novela jamais ultrapassa as fronteiras do Norte, navegando entre as regiões do Médio Amazonas, Manaus e, no máximo, Belém. Essa distância, porém, não é definitiva. Nos dois livros, o Norte é insuperável, incontornável - por mais que Mundo se distancie dele, sente-se por ele ainda perseguido. Arminto, resignado, sequer ousa fugir - sabe, através dos simbólicos versos de Kaváfis, lidos a certa altura da sua vida (e utilizados por Hatoum como epígrafe), que

Não encontrarás novas terras, nem outros mares.
A cidade irá contigo. Andarás sem rumo
Pelas mesmas ruas. Vais envelhecer no mesmo bairro,
Teu cabelo vai embranquecer nas mesmas casas.
Sempre chegarás a esta cidade. Não esperes ir a outro lugar,
Não há barco nem caminho para ti.
Como dissipaste tua vida aqui
Neste pequeno lugar, arruinaste-a na Terra inteira.

Como afirmei no início do texto, Hatoum não escolhe ser um autor do Norte brasileiro. Homem e artista maduro, sabe que isso se trata de uma condenação - que carrega sobriamente, sem pressa ou alarde, enquanto forja a melhor ficção brasileira da atualidade.

Nota:

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