quarta-feira, abril 9

Um Copo de Cólera - RADUAN NASSAR (Editora Companhia das Letras, 86 pág.)


Se o estilo é, como dizem, a impressão digital do escritor, tê-lo, no entanto, não é assim tão natural e displicente como esses riscos que todos nós possuímos na ponta dos dedos. O estilo é um monumento que se vai construindo aos poucos, sob o peso dos anos, a cada assassinato simbólico dos escritores prediletos e exorcismo das obras mais influentes. É assim que costuma ser. Vem de Nelson Rodrigues aquela famosa queixa: "como é dura a vida de estilista!".
Muito raros são os escritores que desde a estréia possuem dicção própria. Raduan Nassar é um desses casos raros das nossas letras. Seu primeiro livro lançado, Lavoura Arcaica, alcançou um tal nível de excelência na linguagem que se tornou logo um clássico imediato. Lido, relido, estudado a exaustão nas academias, assunto recorrente em rodas de leitores etc, etc.

Inclusive, não há quem não atribua à alta qualidade literária de Lavoura Arcaica o motivo pelo qual Raduan veio deixar de escrever logo após sua estréia. À sombra de sua obra-prima, o escritor se viu ameaçado por não conseguir superá-la -- é o que dizem. O fato é que hoje em dia Raduan mora tranquilamente em um sítio no interior de São Paulo e é um pacato criador de galinhas. Há rumores de que ele ainda escreve e eu, particulamente, prefiro acreditar, mas ninguém sabe ao certo.

Embora lançado três anos depois de Lavoura Arcaica (1975), Um Copo de Cólera foi escrito cinco anos antes. Essa informação é necessária para que se perceba que os cinco anos que separam uma obra da outra não flagram assim uma evolução (leia-se mudança) tão nítida na maneira de Raduan escrever. Ao contrário, até: esse tempo serve para atestar que a linguagem em Lavoura Arcaica não foi obra do acaso, e sim de alguém que já sabia muito bem o que estava escrevendo.

Nassar: bucolismo após genialidade.


Mas vamos ao livro. A novela Um Copo de Cólera narra basicamente os acontecimentos de uma noite de amor e da manhã seguinte à essa noite na vida de um casal, quando a aparente harmonia entre eles se rompe por um motivo insignificante e eles partem para um bate-boca absurdo, onde, segundo a própria orelha do livro, "as paixões afloram, um palco se ilumina e os personagens ressurgem de manhã fazendo o mesmo que fizeram à noite: voltam, de certo modo, a tirar a roupa do corpo". Um jorro frenético de verdades anteriormente veladas, desejos reprimidos, visões de mundo antagônicas e ofensas gratuitas é deflorado e bolinado a exaustão.

O enrendo, ademais, é simples: preocupa-se em mostrar como os relacionamentos estão fadados a falta de comunicabilidade e como o ser humano pode não ser tão coerente assim em todos seus atos. "...eu não entendo como você se transforma, de repente você vira um facista", constata a personagem feminina em um dos momentos da narrativa.

Mas o que torna mesmo essa novela uma autêntica obra-prima é o poder que Raduan confere a linguagem, dando a todas as passagens uma vibração e uma beleza só possíveis pela escolha certeira de cada palavra. É recorrente a afirmação, entre poetas e estudiosos, de que não se faz poesia com idéias, mas com palavras. Acho que essa máxima serve muito bem para a prosa nassariana, que é uma prosa essencialmente de palavras: sonoridades, eloquências.

É claro, além da arma da linguagem, Raduan emprega também técnicas narrativas muito felizes para a dinâmica do enredo. O fluxo de consciência, por exemplo, que o escritor se vale para traçar o perfil psicológico do personagem masculino (percebam: eles não têm nome, nem o homem nem a mulher), um misantropo que tem rompantes infantis, é digno de aplauso. No capítulo final ainda temos o deslocamento do foco narrativo que passa do homem para a mulher, capítulo importatíssimo porque consolida uma das idéias centrais do texto: de que a verdade está com que discursa.

No mais, trata-se de um livro cuja leitura é obrigatória. "Obrigatória em que sentido?". No sentido de que é preciso reverenciar uma das nossas melhores literaturas.


NOTA:

Um comentário:

Anônimo disse...

ça c'est très bon, mon cher