quarta-feira, maio 21

Chico Buarque - Carioca, 2006


Em cada esquina, mesa de bar ou banco de praça que se olhe se vê um especialista em música popular. Vestidos de ares graves, intelectuais e universitários publicam livros e escrevem em blogs suas opiniões inteligentes sobre esse ou aquele cantor, aquela ou a outra canção. Do mesmo modo, mas com uma sabedoria desinteressada, as pessoas nas ruas e em suas casas elegem seus reis e sua plebe. Apaixonados ou displicentes todos têm um juízo e uma opinião gabaritada sobre música. Pois então, foi com renovada surpresa que ouvi falar-se em burburinho do Carioca, mais recente álbum de Chico Buarque.

Uma opinião repetida muitas vezes, tornada popular, é legitimada e passado um tempo, fixa-se na tábua das verdades incontestes. Há algum tempo já que Chico Buarque goza do prestígio que lhe valeu a alcunha de unanimidade. É certo que há os que não corroboram com essa opinião e tão pouco desvalidam a unanimidade que é menos feita de unidade que de mítica. A popularidade de uma música se dá na medida em que acha resposta na cultura e na boca do povo. Falando a respeito da comentada "dificuldade" desse novo álbum, Chico diz já ter se desiludido de tocar no rádio. O que não atesta uma impopularidade ou nega a brasilidade dessa obra. Apenas revela uma mudança de público, ou melhor, uma mudança no modo de consumo da sua música; de forma alguma um desprestígio. Chico ainda vende, ainda encanta, ainda permanece um mito.

Essa série de DVD lançada recentemente, prevista inicialmente para quatro DVDs, cada um explorando uma face diferente do compositor, é um bom exemplo do que se disse. Uma quebra da reclusão de Chico, o homem tímido e distante, causou alvoroço e se estendeu para além do planejado, sucesso de vendas. Confesso, contudo, que participei da febre e também do espanto causado pelas constatações de humanidade em Chico, ele tem rugas, meu Deus, ele gagueja!

Ensaio algumas explicações para tanto prestígio. O que interessa para falar do Carioca: a composição de Chico transita num terreno seguro. A estrutura das letras, as rimas ricas, a métrica perfeita e a distribuição rítmica lógica (mesmo previsível) contesta isso. Também na temática Chico pouco ousa (um pouco mais que na estrutura da letra, talvez), mais colhe da tradição suas temáticas e lhes dá cara própria. Acontece que essa estrutura de conseqüente apelo popular somada à habilidade espantosa de Chico no ofício de compor causa um efeito mais rápido e duradouro num público de olhos arregalados. Claro que não falo só da técnica, há em oposição a essa - e em simbiose - uma humanidade de pulso quente. Poucos duvidam de seus méritos e dos poucos que conheci eram todos tolos.

Tudo isso pra dizer que vejo algumas mudanças substanciais nas canções do Carioca. Nada que espante, aliás, são mudanças tênues que só causam um leve incômodo a quem espera aquele deslumbramento de outro tempo, de outro Chico. Quando o cantor fala que espera que quem ouça o álbum, ouça-o repetidas vezes, em casa, ele mostra consciência de que esse trabalho é de digestão lenta e gradativa. Há nas letras das canções uma priorização da sonoridade, a letra como instrumento. O discurso, então, fica depois da assimilação dessa sonoridade sutilmente atravancada. Numa canção como Renata Maria o deslumbramento do eu-lírico é desenhado por imagens congeladas, contemplação; poesia. O resultado não deixa de causar estranhamento. No início desgostava dela, hoje é essa canção, para mim, o estandarte de toda ousadia contida do álbum.

Uma letra de forte apelo sonoro pode cativar sem a necessidade da compreensão do que se diz. Diferentemente, em cada faixa do Carioca as letras são exigentes; há quem desista; mas se colarmos os ouvidos e deixamos a canção agir o que se descortina são harmonias e melodias preciosas. Tudo é dificultado para ter o máximo de envolvimento.


Faixa-a-Faixa


1) Subúrbio

"Carrega a tua cruz e teus tambores"

O subúrbio carioca na voz de Chico é sem cor e musical. Sua graça e maravilha está na sua música (teus tambores); do outro lado, a pobreza, a miséria (tua cruz), à sombra do outro Rio "que abusa de ser maravilhoso".

2) Outros Sonhos

Essa canção é uma versão de uma canção popular em espanhol que Chico, quando criança, escutava do pai cantar. É ingênua até não poder mais. E usa disso para contrastar com a realidade social do país.

Quando fala em ladrões, drogas, polícia e em maconha na construção de um mundo ideal quase contagia com seu idealismo. Fala para as humanidades dos homens.

3) Ode aos Ratos

Desde o título a ironia é tanta que beira a crueldade. Faz-nos lembrar das canções O meu guri e Brejo da cruz que cantam outras faces de um mesmo personagem.

Muito se fala do rap desta faixa, que é, a rigor, uma embolada. Um elemento que cai muito bem na canção.

4) Dura na Queda

Da letra ao interlúdio, o arranjo e o tema, tudo converge para uma coloração ensolarada e irresponsável. A princípio se chamaria Ela desatinou n° 2. Mas, diferentemente da Ela desatinou n° 1 esta Dura na Queda mais que a história de uma mulher desatinada é um hino de alegria inconseqüente.

A água brota na minha boca sempre que os metais irrompem, dourados, na introdução e no interlúdio.

5) Porque Era Ela, Porque Era Eu

A mais lírica das canções do álbum.

6) As Atrizes

Uma homenagem às atrizes que na juventude do cantor o deslumbravam quando apareciam na tela; as francesinhas nuas.

7) Ela faz Cinema

Um repórter italiano iniciou uma discussão deveras interessante colocando a canção como um modo de música representativo do séc. XX, como a ópera foi no séc. XIX, e, portanto um gênero fadado à extinção. Chico diz, não sei bem com que tom, que talvez este álbum seja uma obra tardia em pleno séc. XXI.

Nesta canção exemplar Chico canta mais uma face feminina (das tantas que ele já cantou); a face das mil faces. Se precisasse, valeria todo o álbum.

8) Bolero Blues

É triste sem deixar de ser leve. É até engraçada, sem deixar de ser triste.

9) Renata Maria

A música é de Ivan Lins, o arranjo traz um teclado que lembra os anos oitenta e faz estremecer os bons-gostos. A levada da bateria é exasperante.

Chico, que como intérprete, nunca deixou de ser compositor, neste álbum, deixa o intérprete aflorar. Divide os tempos, ataza, entra antes, treme a voz de intenções. Comparem, se tiverem a oportunidade, como ele entoa "Renata Maria" no Carioca ao vivo e neste Carioca de estúdio.

10) Leve

Engraçado, o eu lírico da canção não assume gênero. Tem muita feminilidade e também uma inconseqüência quase grosseira, masculina. Essa canção caminha sem muitos obstáculos, leve.

11) Sempre

Considero das composições de Chico, (fora Ela faz cinema, que é uma exceção pra tudo), essa é a mais melódica.

12) Imagina

A letra foi feita em uma música de Tom composta ainda em seus tempos de estudante de piano. Chico a escreveu ainda jovem. O que é curioso, pois esta canção se enquadra perfeitamente na estética do álbum.

Mônica Salmaso empresta o sotaque paulista e os encantos de sua voz para o duo com Chico.


NOTA:

2 comentários:

Anônimo disse...

Meu querido, adorei a resenha e cada dia aprecio mais o blog; pena que nossos colegas não saibam valorizar aquilo que esta tão próximo, e que tem atributos incontestáveis.

Davi Lara disse...

Fico feliz que tenha gostado. A página de cometários está aberta, digam o que desejarem, é interessante que o digam. Só volto a bater na tecla já desgastada do anonimato. Por que não se identificar? não vejo motivos.