sábado, maio 31

Death of a Salesman - Arthur Miller (Editora Viking Press, 139 pág.)


É inevitável: lê-se um breve comentário, uma resenha, uma análise, um tratado sobre alguma obra de arte norte-americana e, em algum ponto da referida leitura, encontrar-se-á a referência, a explicação, o dado, a ligação com o sonho americano. Ao menos, com o tal american way of life. Toda e qualquer obra literária é uma crítica a tais "entidades" - o oposto ocorre com a arte cinematográfica, que é inteira de propaganda do império. Faulkner? Steinbeck? Twain? Hemingway? Dickinson? Quem quer que seja, seja de onde seja (norte, sul profundo, oeste distante, leste) está combatendo os sonhos da nação. As mais descabidas releituras (sejam culturais, políticas, ideológicas) são feitas a partir de pontos mínimos de qualquer obra - pontos que, por meio deste procedimento, são superestimados e acabam relegando a obra em si a um segundo plano.

A condição imperial dos Estados Unidos, naturalmente, gera ressentimentos e incompreensões (justificáveis ou não). Já ouvi, certa feita, que o sonho americano se resume a dois carros na garagem e a uma casa branca com jardim. Aprendi que o american way of life é assassinar os colegas de escola. Presenciei a iluminação de outrem: a luta pelos direitos civis não resultou em nada porque tudo que se passa na América do Norte é hipocrisia, barbárie, farsa. Não é de surpreender, portanto, que todos os livros dos imperialistas sejam minimizados à condição de armas contra a própria nação que criou seus autores.

Pois é aí que chegamos a Arthur Miller. Houve um momento na vida deste simpático dramaturgo em que ele, de fato, almoçava com Marilyn Monroe - e não se enganem: este devia ser o momento mais enfadonho do seu dia. Não tenho pudores em afirmar que esta seria uma definição mais correta do sonho americano: almoçar com Marilyn Monroe. Além do casamento com a loira, o maior feito de Miller foi nos ter legado uma vasta dramaturgia e, sobretudo, a obra Death of a Salesman - uma peça que, dizem-me, tenta desmoralizar os meios de vida e ascensão da classe média gringa.

É provável que haja certo fundo de verdade nesta idéia. Por conta da opção do autor em explicitar local, data e em trabalhar com tipos reconhecíveis, é natural que haja a forte presença da cultura do sítio em questão. Mais certo, contudo, é o fato de que direcionar as análises do drama ao trato que o autor dá a temas sociais, culturais, políticos e econômicos é reduzi-las drasticamente. E toda análise que se reduz trata de apequenar a obra analisada. É como afirmar que Vidas Secas é sobre a seca - é tomar o livro pelo título e pela capa com foto ou desenho de retirantes famintos.


Sim, Willy (personagem central da peça) é um típico americano médio (reconheçam aqui o termo "medíocre"): numa busca constante por dinheiro e status, vive um casamento aparentemente tranqüilo, mas repleto de segredos e traições. Por outro lado, é possível defini-lo como um homem inseguro e ultrapassado numa procura desesperada por aprovação - e que, nesta procura, não se contenta em apenas fantasiar a realidade (imaginando-se influente, poderoso e querido quando, na verdade, é uma companhia indesejável, um andrajo obsoleto num meio que já não necessita dele), mas tenta também convencer a sua família da veracidade do seu delírio. Bill, um dos seus filhos, resiste a isso desde que, ainda adolescente, soube seu pai hipócrita e perdeu estima e respeito por ele.

E é justo no conflito entre pai e filho (milenar, histórico e, portanto, não apenas estadunidense) que se concentra a obra. As fraquezas e crueldades dos personagens não existem apenas dentro das imensas fronteiras ianques. São traços de um caráter que existe em todo lugar - e, por isso, a obra é grande, obrigatória: não se faz boa literatura para a província ou para os camaradas. Sábato Magaldi, no ensaio "Modernidade de Arthur Miller" afirma, a respeito da faceta política e social comumente apontada na obra do dramaturgo, que "Com efeito, esses elementos que sublinhamos são nítidos e importantes, mas não constituem toda a complexidade de sua expressão artística. Definem-se, por assim dizer, como o macrocosmo cênico, dentro do qual evoluem as psicologias individuais. As personagens não existem para ilustrar uma tese social".

O ensaísta mineiro resume aí as relações que existem entre a individualidade dos personagens e o meio social em que sobrevivem: ao mesmo tempo em que Willy é relegado a uma posição inferior por conta da sua datada profissão de caixeiro-viajante, devidamente superada pelas fórmulas de venda e publicidade modernas, é notável a sua persistência em não aceitar as mudanças e continuar uma vida irreal e cheia de esperança - esperança tola, injusfiticada e, com vemos ao fim da peça, que serve apenas para condená-lo.

A estrutura do drama (dois atos e um breve réquiem entrecortados pelas lembranças e pelo delírio de Willy) não é de fácil assimilação, além de ser extremamente irônica e opressora - sobretudo por conta da progressiva alteração no cenário: pouco a pouco, a imagem de prédios altíssimos trata de cobrir a vista que se tem da janela da casa, uma representação clara da modernidade que acossa o caixeiro-viajante. Termina-se a peça com o descrédito absoluto dos personagens: quando o outro filho de Willy, o mulherengo e tolo Happy, diz que "I'm gonna show you and everybody else that Willy Loman did not die in vain", sabemos que é pura farsa. A ridícula e enfática farsa do luto.

Mais revelador, porém, é o diálogo que Linda, esposa do digníssimo falecido, mantém com o túmulo: após contar-lhe que, enfim, terminara de pagar as prestações da casa, afirma "We're free and clear". Notável não é o poder do autor, mas do próprio drama, que parece correr naturalmente até esse desfecho melancólico e cômico sem a interferência direta do dramaturgo. A grande peça, lembremos, é aquela cujo autor é um demiurgo discreto e silencioso - que apenas sorri perante a tragédia da matéria que ele cria.

NOTA:

Um comentário:

Anônimo disse...

Estou lendo esse livro, neste momento, estou sem duvida adorando e gostaria de saber, se esse tag foi você que o escreveu ou se retirou algumas ideias de algum outro lugar... peço fazer um pequeno trabalho para minha apresentação de mestrado e sem duvida é importante a opinião de várias pessoas.

Obrigada
S.Moreira