sábado, maio 24

POST TRIPLO: Suzanne Vega - Retrospective, 2003 / CocoRosie - La Maison de Mon Rêve, 2002 / Stina Nordenstam - And She Closed Her Eyes, 1994


Provavelmente nenhum, mas nenhum ser vivo da face da Terra concordará com a frase que direi a seguir: considero Suzanne Vega tão boa letrista quanto Chico Buarque. Eu sei: isso é estapafúrdio, é uma completa loucura. (UPDATE: Até mesmo o Blogger ficou revoltado com essa comparação: quando fui publicar a postagem ele se recusou a fazê-lo, e o comando ficou dando erro por bem uns 50 minutos – só agora consegui publicar). Mas se já disseram que Chico não serve como padrão de música de qualidade, e sim Faith No More, acho que também tenho o direito de afirmar minhas ignorâncias.

Não sei se o certo é dizer se Suzanne Vega é subestimada ou se ela é ignorada. A única certeza que tenho é a de que quase ninguém lhe dá bola, e pouco importa saber mais a seu respeito. Seu próprio nome não é atraente, tem um quê de banal, e sua imagem artística também não chama a atenção (muito embora as fotos do novo álbum sejam encantadoras). A coitada já fez mais sucesso na década de 90: já foi comparada a Joni Mitchell (exagero, mas tudo bem), a Lou Reed (exagero absurdo, mas tudo bem) e a Leonard Cohen (exagero completamente absurdo e descabido, e não está nada bem). E quem não conhece Luka, canção que toca em vários bares semi-undergrounds e que todos cantarolam mas ninguém sabe de quem é?



Voltando à questão da letra: quando comparo Vega a Chico, falo da construção. A construção desses dois é, em todos os sentidos, impecável. Naturalmente que os níveis de impecabilidade podem divergir, e devo dizer que o de Chico Buarque é claramente superior ao de Suzanne Vega; vendo por esse lado, eu praticamente nem cheguei a compará-los. Sugiro que vocês dêem uma olhada na letra de Marlene on the wall, de Vega.

Quanto ao disco Retrospective: altamente recomendável. TODAS as canções são boas. Mas, por serem um tanto convencionais, são pelo menos 3 vezes inferiores à qualidade das letras. Por esse fator, acho a nota 4 bastante justa. Sem contar que é uma coletânea.



Sinto-me muito agastado quando ouço CocoRosie. Porque eu simplesmente acho maravilhoso e não condiz com nenhuma das minhas opiniões sobre uma considerável proposta musical ou como um artista do gênero deveria se comprometer e bla bla bla. CocoRosie quebra com todos os meus postulados e sepulta quase todas as minhas concepções (e isso só Jorge Ben Jor consegue fazer). CocoRosie é virtuose, é a verve do artista, é quase vanguarda. As famosas Sierra e Bianca Casady são donas de vozes tão viscerais que, quando as escuto, minhas têmporas literalmente sofrem convulsões. Sinto um estremecimento nas áreas laterais do pescoço e meu lábio inferior começa a adormecer. Repito: à exceção dessas duas, só Jorge Ben faz isso comigo.

CocoRosie é, definitivamente, música para poucos. As primeiras impressões são previsíveis e negativas: muito tolinho, muito nhénhénhé. Quem não já disse “Desliga isso” ou “Tira essa idiotice da minha frente” quando ouviu By Your Side? Eu, quando a ouvi, tomei um susto: primeiro pensei que baixei uma gravação caseira e amadora ou a música errada. Mas, ao apreciá-la integralmente, percebo que, pelo contrário, as irmãs sabem o que fazem, cantam bem e, mesmo que estejam brincando, o fazem com muita irreverência. Acho que a dupla é bastante hermética e difícil de ser compreendida. Eu, embora goste, creio que ainda não a entendi por completo, e prefiro assim.

La Maison de Mon Rêve é seu disco de estréia, nascido de um encontro casual das irmãs no apartamento de uma delas em Paris. Faixas como Terrible Angels, By Your Side, Jesus Love Me e Good Friday fazem valer a pena a aquisição do produto.


Quando apresentei Stina Nordenstam a meu caro colega Eder Fernandes, ele ficou chocado, indignado, e não mediu esforços para me dizer o quanto era intragável o disco que eu havia lhe emprestado. Ao sugeri-lo ao outro colega, o Rodrigo L., a única resposta que recebi foi um silêncio sepulcral. Fiquei tão aturdido que não tive coragem de mostrar a cantora também para o último dos colegas, Davi Lara, que provavelmente não a veria com bons olhos, ou melhor, "não a ouviria com bons ouvidos". A verdade é que nem eu mesmo sei por que admiro esta pequena notável. Stina Nordenstam é uma sueca que canta em inglês e possui o sotaque mais idiota que eu já ouvi (não é que seja peculiar ou estranhíssimo; é ridículo mesmo). Não dá pra entender nada do que ela diz, absolutamente nada. Sua voz é de um agudo absurdo, parece a de uma criança, e é o instrumento que mais se sobressai nas músicas, todas minimalistas, etéreas e morosas, cujas letras têm qualquer coisa de obscuro e introspectivo. Ainda assim, fico angustiado só de pensar que adoro esta infeliz, e mais ainda o álbum em questão, e mais e mais ainda a música-título, And She Closed Her Eyes, que é a minha 2ª predileta de todas as músicas existentes, ficando atrás apenas daquela do Dylan. Isso é absurdo. Vejam um trecho da letra, primeiramente como um falante de inglês normal ou um de sotaque (o meu caso) cantaria; e, logo abaixo, a forma como ela canta:


A letra, na forma escrita:

And she closed her eyes and said
No I'm not in love
I'm not in much
For real


*
Eu (ou um falante de língua inglesa) cantaria mais ou menos assim:

End xi clôs rer ais end sei
Nô aim nórin lóv
Aim nórin mãtchi
For ríeu


*

E ela canta mais ou menos assim:

à xi cãis tim vais san síuver
Nô a nê im nhem
Nô a nê im nhem
Fô ríeueu

Ou seja: um absurdo. Não sei como ela transformou o “Said” em “Silver”, o “Love” em “Nhéim” e o “Mutch” em – loucura! – “Nhéim” também. Pois é. E isso é só o sotaque.



Hoje em dia essa artista é tabu para mim. Tenho medo de apresentá-las para as outras pessoas, não sei pronunciar seu nome e nem quero saber como se diz, mas já vai fazer um ano que espero desesperadamente por um álbum novo (não lança desde 2004). Depois de ouvi-la pelas primeiras vezes (não lembro de onde tirei seu nome), saí procurando coisas a seu respeito. Descobri que ela é bastante respeitada na Suécia, é admirada por vários artistas, dentre eles o Brett Anderson do Suede e, imaginem só, o falecido Ingmar Bergman. Mas parece que essa bola toda não saiu das terras escandinavas. Embora esses elogios ou qualquer crítica a respeito não signifiquem muita coisa, devo confessar que me sinto bem mais aliviado.




Retrospective - The Best of Suzanne Vega:



La Maison de Mon Rêve:



And She Closed Her Eyes:

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