quarta-feira, maio 28

Rufus Wainwright - Release the Stars, 2007


Rufus Wainwright não é um cantor. É uma cantora. E com toda sua opulência feminina — aqui estou de acordo com José Flávio Junior —, Rufus é uma Diva.

Como toda Diva que se preza, alguns adjetivos não lhe podem escapar: soberba, autêntica, complicada, etc, etc... Rufus, entretanto, ainda possui mais duas qualidades que ora falta a uma ou a outra Diva: talento e competência.

Pode-se ter uma bela mostra de seu talento e competência em Release the Stars (maio de 2007), quinto álbum autoral de uma carreia quase impecável — digo quase e depois explico. O disco, se não percorre fielmente os caminhos excessivos que os dois últimos sugeriam, não me parece também uma retomada do que foi feito antes deles, que é o que muita gente anda dizendo por aí. Release the Stars é um grande trabalho por mostrar uma face do Rufus que só o tempo lhe pôde dar: maturidade. E esta maturidade foi, como podemos ouvir ao longo do novo repertório, bem traduzida em sabedoria e sobriedade. O que há de grandioso, eloqüente, não se torna exaustivo, excessivo.

Mas vamos esclarecer o quase impecável. Cabe uma ilustração, um pequeno caso.

Certa feita, ao ouvir a canção "Agnus Dei", que inaugura seu penúltimo álbum, Want Two (uma bonita canção, sem dúvida), declarei que aquilo feria meus ouvidos. Mas por que me feria se a canção é mesmo bonita? Feria porque, cantada em latim, daquele jeito, pareceu-me de uma arrogância e vaidade intoleráveis; o que de certo modo me trouxe antipatia por todo disco. Minha declaração mexeu com o brio de alguns amigos que o admiram. Na época não me fiz entender corretamente, e minhas palavras soaram como uma implicância boba. Bombardeado com argumentos do tipo: “vaidade é para se ter mesmo”, calei-me. Silenciei-me porque as discussões não nos levam a nada, ou por outra, levam-nos à batalha de perdigotos. Aquela arrogância e vaidade que me feriam os ouvidos era senão ímpetos de um jovem talentoso desprezando etapas importantes de amadurecimento da sua arte. Não sou nenhum tonto, sei que há canções em Want One e Want Two que figuram entre as melhores e maiores que um cantor/compositor pôde escrever e cantar. Mas o que ocorre é que esses discos não possuem unidade, coesão, seus repertórios oscilam demais. Há entre uma e outra música célebre uma faixa que se não existisse não faria diferença alguma. Esse argumento foi usado também por Graciliano como jurado de um concurso literário no qual o ainda inédito Guimarães Rosa concorria. Graciliano votou contra Guimarães argumentando que em um livro onde se encontrava uma das melhores letras do país não podia conter contos de segunda grandeza. Seria um equívoco dar-lhe o prêmio naquele momento, como seria um equívoco chamar Rufus de gênio antes dele lançar essa obra tão coesa e bela que é Release the Stars. Se Rufus já chamava atenção, preciso dizer que é hora de reverenciá-lo. Não tenho nenhuma dúvida de que seu nome ficará para posteridade como a maior Diva do começo do século 21.


As meninas não têm vez

Faixa-a-faixa


1 - Do I Disappoint You
Uma linda opereta com tom de desabafo. “Eu te desaponto por ser um solitário?”, canta Rufus.

2 - Going To A Town

Este é o primeiro single. Há quem diga ser uma música política, engajada. Para mim não faz a menor diferença. Como canção ela é exemplar. Ponto alto para as segundas vozes; femininas, ao que parece. “Eu tenho uma vida para guiar, América”.

3 – Tiergarten

Uma das canções fundamentais para se entender o amadurecimento artístico de Rufus: uma ponte irresistível entre o popular e o erudito. Lembra Brain Wilson e Bach.

4 - Nobody's Off The Hook

Canção documental e fortemente biográfica. Possui as cordas mais bonitas do disco; violinos, violas, cellos em ação, chegam a comover a mais áspera das pedras.

5 - Between My Legs

O arranjo com guitarras encobre a dura confissão da letra.

6 - Rules And Regulations
Parece uma música retirada do Sgt. Peppers, só que com alguém cantando muito melhor que a dupla Lennon/ McCartney.

7 - I'm Not Ready To Love
Balada ao violão onde a melhor performance vocal do disco está.

8 – Slideshow

Na altura de 1 minuto e 39 segundos é impossível manter a respiração e os pêlos do braço indiferentes.

9 – Tulsa

Para mim, a melhor canção do disco. Não sei se os ares eruditos de Berlim (lugar onde o disco foi gravado) exerceram alguma influência, mas o que acontece nos 2:20 dessa música é a simbiose perfeita do popular com o erudito.

10 - Leaving For Paris No. 2

Não há instrumento que combine mais com a voz de Rufus do que um piano. Nessa balada, as notas graves criam uma atmosfera tristonha que as cordas, sobretudo os cellos, realçam com maestria.

11 – Sanssouci

A música pop por excelência. Refrão excelente, etc, etc.

12 - Release The Stars
Diz-se ter muito da mão do produtor Neil Tennant nessa canção, sobretudo nos sintetizadores, nos efeitos sonoros que custo a ouvir. Enfim, não consegui separar o que é produção do que é criação genuína de Rufus. Então fico pensando o seguinte: não importa. Tudo de bom em Rufus está nessa canção: voz poderosa, arranjo grandioso, atmosfera de caberé, musical da brodway, etc, etc, etc.


NOTA:

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