quarta-feira, junho 4

Assédio (Besieged, ITÁLIA/UK, 1998)


O cinema é uma arte velada; perde-se na velocidade e no entretenimento. Quem primeiro me deu uma medida artística do cinema, ainda garoto, deslumbrado, foi Sonhos, de Akira Kurosawa. Pareceu-me inconveniente dedicar àquele filme, tão esmerado, belo, a atenção fortuita que costumava dedicar a filmes em geral. Sonhos, então, durou mais que seus 120 min., permaneceu em mim, como acontece com as obras de arte. Assim que passei a me interessar por cinema. Mas foi somente depois, com Assédio, que apreendi a ver alguns dos seus mecanismos e adivinhei sua complexidade. Já assisti Assédio algumas vezes. O que me atrai no que vejo nele, e nele reconheço, é tênue. As potencializações do cinema, arte complexa, coletiva (que de tão complexa e coletiva se questiona se é mesmo arte) e as suas possibilidades são infinitas e imprevisíveis. Essa mescla de outras expressões, a literatura, a fotografia, a pintura, a música etc., e a transcendência delas numa expressão única, forma um emaranhado e, pelo menos a mim, dificulta o entendimento. Minha apreciação do cinema, então, é bastante sensual. E é ai que se enquadra Assédio, como um poema, o filme dispõe seus símbolos e simbologia, convida-nos a significá-lo, insinua-se. O cinema, em Assédio, é poesia.

Como falei mais acima dos mecanismos de funcionamento e feitura do cinema que Assédio me descortinou, isso não é gratuito. De 1998, o penúltimo filme do diretor italiano Bernardo Bertolucci, explicita e potencializa recursos restritamente cinematográficos. O filme começa com o exílio de Shandurai, uma sul-africana, após a prisão do seu marido pela ditadura recém instaurada em seu país. Em Roma, trabalha como empregada doméstica de um pianista excêntrico, Jason Kinsky, em sua mansão, onde moram sós, os dois. A música sai do plano de fundo. Com poucos diálogos, a música fala. Fala e caracteriza as personalidades, os sentimentos. Numa cena, o patrão toca seu piano em cortejo noturno. Shandurai levanta-se da cama, consternada; Jason Kinsky silencia seu piano ao escutá-la: "Não entendo você. Não entendo essa música".Uma escada em espiral, vertiginosa, e um compartimento com rolamento que desliza pelos dois andares, e que serve de armário a Shandurai, são as mediações da relação, vertical (ela no térreo, ele no primeiro andar). Essa hierarquia legitima o título do filme.

O pianista é belamente interpretado por David Thewlis. A exilada, pela bela Thandie Newton. Mesmo em face da sua má atuação, não consigo imaginar uma escolha mais acertada para o papel do que ela. Nas imagens mais belas a câmera percorre seu corpo. Deixa a impressão de ter desvendado cada poro, cada nuance de cor; invoca cheiros e temperaturas. Um bom exemplo do valor simbólico das imagens vem do comecinho do filme. Depois de um sono atormentado por lembranças da ditadura, Shandurai acorda com o barulho do seu armário descendo; acha sobre suas roupas, um papel pautado com uma interrogação. Nesta cena estão condensados vários elementos, desde a música até uma caracterização psicológica e social dos personagens.

As personagens principais não representam somente sua individualidade, sua psicologia e posição social próprias, mas representam continentes. E à medida que a trama se desenvolve, vemos a transformação de uma personagem sem nome: o africano que vemos nos créditos iniciais, semi-nu e desdentado, embaixo de uma árvore do prado africano, cantando uma música visceral, em sua última aparição anda vestido de terno e gravata e, obviamente, cantando. O autor não foge da abordagem política que em algumas vezes, como no exemplo da África engravatada, extrapola a simples sugestão. Mas o roteiro se envereda por um caminho distinto, seus passos parecem suspensos em solo fugídio; de adivinhação e de sugestão.

Mas isso inicia outro tópico e eu já vou me estendendo demais. Compreensível, aliás, dado a extensão do assunto como é um filme como Assédio, que se utiliza do emaranhado que a complexidade que o cinema possui e mantêm-se assim, arte velada.


NOTA:

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