sábado, junho 14

Barranca Abajo - Florencio Sánchez (Ed. Montevideo, 96 pág.)


A literatura hispano-americana já não é nenhuma desconhecida dos leitores brasileiros. Obras inúmeras de Borges, Cortázar, Onetti, Sabato - obras inúmeras de todo o cânone moderno da região já inundam as livrarias pátrias há décadas. Mesmo alguns dos melhores ensaístas do país dedicaram-se com um afinco louvável à interpretação e à difusão desta literatura: penso, por ora, apenas em Davi Arrigucci Jr. - homem responsável por finas análises da tradição hispânica e, ademais, por traduções e lançamentos valiosíssimos como o da coletânea O Cavalo Perdido e Outras Histórias, do uruguaio Felisberto Hernández, até então inédito em português.

Desse nosso primeiro contato com os vizinhos, ficou-nos a idéia de que são, sobretudo, povos contistas. Ainda que Márquez e Sabato tentem nos fazer enxergar o romance, a impressão maior de gente como Quiroga, Arlt e Casares ainda provém do conto - que é, provavelmente, o maior do século XX. E, se até o romance é, de certa forma, relegado a um patamar levemente inferior, que dizer do teatro? O drama hispano-americano nos é totalmente estranho - ignoramos a sua história, o seu valor. Mesmo que pesquisemos entre leitores interessados nas produções artísticas da região, é muito provável que nenhum dramaturgo seja citado numa hipotética lista de geniais escritores latino-americanos.

Ao constatar essa ignorância que me assolava, busquei qualquer informação possível. A primeira impressão, devo confessar, foi a de que a dramaturgia de países como Argentina, Uruguai e México se sobressaía em relação à das outras nações - e que, ainda assim, nenhuma delas havia produzido um único autor que pudesse chamar de fato a atenção de gente alheia à história política e social da região onde nasceram e produziram: o teatro, com seu apego indisfarçável à terra e ao homem típico, esvaziava-se quando tirado do seu contexto original. Um tanto calejado em matéria de preconceitos artísticos, tratei de desconfiar da crítica e da historiografia e procurar uma obra. Escolhi Florencio Sanchéz.

Nascido em Montevidéu (1875), falecido em Milão (1910) e vivido no trânsito constante entre Uruguai e Argentina, o jornalista e dramaturgo produziu cerca de 21 texto teatrais em seis anos de trabalho - quase em estado febril, conta-se que se martirizava para escrever peças em um único dia. Entre essas duas dezenas de obras, encontramos comédias, tragédias, zarzuelas e sainetes. E, sobretudo, encontramos Barranca Abajo - tragédia encenada pela primeira vez no longínquo 1905.

Do recente e rápido contato que mantive com seus textos, pareceu-me o mais bem acabado e representativo. Sainetes como La tigra ou Moneda falsa, por exemplo, estão por demais atrelados aos modos e falares típicos da ralé portenha e, há que se dizer, envelheceram mal: a trama é ordinária e os personagens são muito rígidos - ademais, o gênero (de caráter quase picaresco e bastante ligeiro, de um ato só) parece-me que acaba pedindo um pouco de ingenuidade por parte do autor. Em Barranca Abajo, contudo, num gênero mais consolidado como a tragédia, Sánchez desenvolve-se plenamente, criando personagens profundamente humanos e diálogos em que consegue demonstrar uma psicologia e uma intimidade perturbadas e nem um pouco caricatas, previsíveis ou artificiais (acontecimento recorrente nos sainetes citados).



A representatividade que aleguei no parágrafo anterior se deve ao fato de que o mesmo registro dos modos e falares típicos de certa região está também presente em Barranca Abajo: é recorrente o uso de um castelhano pouco castiço, um tanto rural, em termos como "aura" (ahora), "tata" (papá), "güeno" (bueno), "mija" (mi hija) etc. - além de estarem nítidos em seus personagens os traços do criollo aferrado às terras rioplatenses e que, com a chegada súbita dos gringos, começa a perder o seu espaço e influência.

A tragédia desenrola-se em torno da figura de Don Zoilo, velho estancieiro que, no correr dos anos, tornou-se intolerante e, para quase toda sua família (composta apenas por mulheres: sua esposa, duas filhas e uma irmã), também intolerável. A ruína pecuniária de Zoilo (que perdeu suas propriedades e vive no limiar da miséria) parece transformá-lo, aos olhos das outras personagens, numa insuportável imagem do fracasso familiar. Esse tema obviamente batido do conflito entre familiares denuncia sua maior influência: Henrik Ibsen. Influência que, ademais, não se resume apenas ao seus temas, mas também à estrutura linear e quase "científica" da obra - encontramos, em Barranca Abajo, todos os arquétipos da tragédia familiar ibseniana: o casal desgastado, a personagem responsável por intrigas, o conquistador, os ingênuos.

Há, contudo, a pontual figura de Robusta, uma das suas filhas que lhe conserva e dedica carinho. E é a perda prematura dessa jovem que acelera o processo de desagregação da família: após descobrir um certo "complô", um plano para que pudessem fugir, é o próprio Don Zoilo quem desiste de mantê-las, reconhecendo seu fracasso e, de certa forma, libertando-as - mas sem sentir ou demonstrar, nesse ato, nenhuma grandeza ou altivez, realizando-o por pura estafa e com o intuito de praticar seu ato final (que é, naturalmente, o enforcamento).

O final do drama, por sinal, é um dos seus pontos mais polêmicos. Inicialmente, Sánchez fez com que um dos personagens, Ancieto, dissuadisse Zoilo temporariamente do suicídio - porém, público e crítica estavam certos de que "Zoilo debe ahorcarse sin que nadie se lo impida". Essa opinião geral levou Sánchez a modificações que, de fato, aumentaram o poder dramático deste ato de encerramento: o suicídio de um homem que, tal qual Zoilo, chegou à conclusão de que

"... y cuando ese desgraciao, cuando ese viejo Zoilo, cansao, deshecho, inútil pa todo, sin una esperanza, loco de vergüenza y de sufrimiento resuelve acabar de una vez con tanta inmundicia de vida, todos corren a atajarlo. "¡No se mate, que la vida es güena!" ¿Güena pa qué?"

não pode ser, digamos, atrapalhado por outro personagem. A figura de Ancieto, a proferir terríveis obviedades e tolices como "La vida es sagrada" (em reposta, ouve "Todo lo sagrado es bueno; la vida es mala") tornava-se bastante anti-climática e desnecessária.

Assim, enquanto a platéia acompanha a preparação da corda e do banco no qual subirá para dependurar-se pelo pescoço, ouve-o ainda dizer "¡Se deshace más fácilmente el nido de un hombre que el nido de un pájaro!" e, antes que se suicide, a cortina é fechada. Parece-me, enfim, a maneira mais sutil e contundente de encerrar a peça: sem redenção forçada, mas também sem agressão gratuita.

NOTA:

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