sábado, junho 28

Brian Wilson – Smile, 2004


Aviso: por conta do feriado o meu post de quarta está saindo hoje, sábado.


Em julho de 67 Brian Wilson sofreu um colapso nervoso e foi parar no hospício. Com isso, um dos projetos musicais mais audaciosos da sua geração, Smile, “sua sinfonia adolescente para Deus”, teve de ser abortado.

As razões desse colapso foram se desenhando à medida em que Smile também ia ganhando forma. Ou por outra, à medida em que Smile ia se tornando cada vez mais um trabalho árduo, complexo e bastante sofisticado para uma só pessoa, exausta, compor (em parceria com Van Dyke Parks), arranjar e produzir tudo nos mínimos detalhes. As doses cavalares de ácido lisérgico não foram capazes de burlar a dura realidade que se instalara: os camaradas do Beach Boys estavam desgostosos com os rumos megalômanos que ele,Wilson, dava para da banda; os chefões da gravadora Capitol o pressionavam, queixavam-se de que o projeto estava se estendendo muito -- um ano era tempo demais para um disco ser feito. Como se esses fatos não bastassem para atormentar uma pessoa, tornaram-se freqüentes as bad-trips (reações negativas ao ácido), onde a confusão mental ficou óbvia e a loucura patológica estava a um passo.

Paranóico, solitário, melancólico, foi com esse estado de espírito que Wilson ouviu Sgt. Peppers, “a mais profunda e planetária revolução musical da história da humanidade”. Não deu outra: Wilson "quebrou de vez". Os Beatles saíram vitoriosos da batalha criativa que era travada com o beach boy desde quando o precioso e soberbo Pet Sounds fora lançado um ano antes, em 66.

Mas eis que ocorreu o improvável: Brian Wilson retomou os trabalhos de Smile e o lançou no conceito original trinta e sete anos depois. A época, naturalmente, era outra, boa parte daquela geração a que o disco estava destinado tinha morrido de overdose ou encarnado agora a imagem mais óbvia do reacionário: careca, pai pudico e dono de uma bela barriga de chop. O sonho havia acabado há muito, John Lennon havia proclamado. As cores fortes e vibrantes dos anos sessenta deram lugar aos tons acinzentados e turbulentos dos anos dois mil. Sob essa perspectiva, uma indagação surge: Wilson fez bem em tirar Smile do plano confortável das lendas do rock e transformá-lo em realidade mesmo que tardia? Fez. Fez sim. Porque uma obra dessa natureza, dessa grandiosidade não pode ser negligenciada de maneira alguma. Porque Smile não é somente um disco fantástico, uma jóia rara, é, antes de tudo, a redenção de um gênio. E, convenhamos, em matéria de redenção, toda a humanidade se compadece.

.
Brian Wilson: a roupa comprova a paranóia.


Faixa-a-faixa:


1) Our Prayer/Gee, Heroes and Villains, Roll Plymouth Rock, Barnyard, Old Master Painter/You're My Sunshine, Cabin Essence.

Era um desejo de Wilson: fazer com sua música as pessoas rezarem. Our Prayer/Gee, peça de abertura, convida-nos a uma prece, com sua vocalização celestial. Depois vem a tríade matadora Heroes and Villains, Roll Plymouth Rock e Barnyard. Difícil não se emocionar.

2) Wonderful, Song for Children, Child is Father of the Man, Surf's Up.

Dos três, é o bloco mais curto. É o intermédio entre as duas extremidades da obra. Alguns temas do primeiro momento aparecem agora entre as faixas, como para que não nos esqueçamos de que Smile contêm homogeneidade. Wonderful e Surf's Up se destacam pelos arranjos primorosos e melodias inesquecíveis.

3) I'm in Great Shape/I Wanna be Around/Workshop, Vega-Tables, On a Holiday, Wind Chimes, Mrs. O'Leary's Cow, In Blue Hawaii, Good Vibrations.

I'm in Great Shape/I Wanna be Around/Workshop começa em ritmo circense, passa pelo jazz e desemboca numa grande brincadeira musical com ferramentas (martelos, furadeiras, etc) e apitos de toda sorte. Vega-Tables é fruto da obsessão de Brian por uma vida saudável. Não há em todo Smile música mais bem humorada. Mrs. O'Leary's Cow é um instrumental que lembra um fogaréu devastador. Em suas crises psicológicas mais agudas, essa música era a que mais o atormentava. No documentário Beautiful Dreammer: Brian Wilson & The Story of Smile, ele declara que um dos motivos por ter abandonado o projeto foi que Mrs. O'Leary's Cow causava-lhe calafrios, temores profundos. Se Mrs. O'Leary's Cow é o fogo, In Blue Hawaii é a água, com sua melodia refrescante, calma e lúcida. O epílogo da obra é Good Vibration, única canção do disco lançada na época como single, que chegou a marca de dois milhões de cópias vendidas. Tira-se dessa marca a conclusão de que o mundo estava sedento por Smile, que, infelizmente, demorou três décadas para vir. Azar de quem morreu e não pode ouviu-lo. Azar.


NOTA:

Nenhum comentário: