sábado, junho 7

Casa Vazia (Bin-Jip, CÓREIA-DO-SUL/JAPÃO, 2004)


Caros leitores do Blog “Fundo do Poço”,

Venho através desta expressar minha consternação diante de uma revelação surpreendente da qual fui testemunha e que agora me vejo na obrigação de compartilhar com vocês. Prestem bem atenção nessas palavras, meus amigos: Kim Ki-Duk não é um bom diretor. Eu, na minha comovente ingenuidade, procurei assistir aos filmes do sul-coreano com a melhor das intenções, pois ouvi muitos elogios a respeito. Corri atrás deles e me surpreendi com as capas, que eram muito bonitas. A minha desconfiança, entretanto, se iniciou após ler o medonho nome do mais aclamado dos seus projetos: Primavera, verão, outono, inverno e... primavera. A princípio suspeitei que estivesse diante de mais um belíssimo trabalho dos tradutores de título daqui do Brasil, mas a tradução, infelizmente, era literal. Não obstante, tal tragédia nomenclatural não arrefeceu minha vontade de apreciar a obra que intitula e é o motivo desta carta blogística. Escolhi divagar sobre esta produção em parceria japonesa e sul-coreana pelo único motivo de que provavelmente nenhum outro longa de Kim Ki-Duk representa tão bem a palavra que lhe é mais significativa: estúpido. Devo lembrá-los, magnânimos leitores, de que, embora execrável, o filme possui um notável argumento: Sun-Hwa é um solitário jovem que invade casas quando estas se encontram vazias (seus donos geralmente estão em viajem de férias); ele não rouba nada e muito menos destrói: apenas passa um dia lá, come, bebe, usa a roupa alheia e assiste TV. Antes de ir embora, lava a louça e as vestes usadas e limpa a casa. Numa dessas casas Sun-Hwa não percebe de imediato uma presença feminina que não por acaso também é solitária e apanha do marido. Quando eles finalmente se contemplam, surge a afinidade. Aqui, longânimes leitores, acaba a parte boa. Os próximos 65 minutos são uma tortura indefensável. Mas não se enganem, confrades: se temos aqueles filmes que vos despertam o ódio, tamanha a sua indignidade, há os que vos fazem rir descontroladamente – este caso. Relembro-me agora de uma cena em que o herói provoca uma abominável desgraça. Como grande fã de golfe que é, Sun-Hwa gosta de praticar sozinho, ao ar livre, com um taco e uma bola, sendo que esta é amarrada num pedaço de arame de ferro que por sua vez é fixado no tronco de uma árvore, para o jogador dar a tacada e a bola girar em círculo e não sair do lugar. Toda vez que sai de uma casa “invadida” ele faz isso. E a mulher, Tae-Suk, que a partir de certo tempo começa a acompanhá-lo, não gosta dessa mania. Mas ele faz. E então, leitores, assim que ela desiste de impedi-lo – e coincidentemente um carro passa na rua –, o bastardo dá uma tacada e a bola sai do infame arame; voa dezenas de metros e – surpresa! – atinge justamente o carro que trafega, quebrando o vidro e acertando em cheio a moça do banco dos passageiros, matando-a. Quando os dois “invasores às avessas” chegam ao local, vêem o motorista do Studio chorando a namorada agonizante. Mas esperem um pouco!, que a formidável cena ainda não acabou: Sun-Hwa, ao constatar o infortúnio desencadeado, se afasta rapidamente, senta num cantinho escuro e, como diria Cartola, disfarça e chora.

Dizem que há uma simbologia referente ao budismo na questão dos tacos de golfe; mas utilizar uma referência não implica em resultar num bom recurso. Não se deve jamais pensar assim; até Godard e Woody Allen sabem disso. Esse fato me remete a uma outra cena, a mais engraçada dos intermináveis 90 minutos, na qual Tae-Suk recebe um tapa do maridão ciumento; antes fizesse uma massagem nas costas, pareceria mais brutal. O miserável, além de parecer que acariciou a cara da vítima, ainda ousa, numa improvisação fenomenal, morder o lábio inferior enquanto procede com a agressão (apenas imaginem, leitores). Me perguntei se Ki-Duk não dirigiu as cenas por telefone.. Inclusive essa mulher não merece apenas um tapa: ela é daquelas psicologicamente perturbadas que não falam nada (o protagonista também não). Mas este não é um filme de Antonioni, Bresson ou – para citar um contemporâneo – Ming-Liang. É Kim Ki-Duk. Ele simplesmente esqueceu que é preciso um significado para o fato de uma pessoa simplesmente não falar nada. Há três alternativas: não fala porque não pode; não quer; não precisa. A primeira só é possível se a personagem for muda; a terceira requer cuidado especial para as situações, que, como se diz por aí, “falam por si só”; e a segunda é a mais complicada, a que exige mais talento do seu autor. O caso de Tae-Suk não é o terceiro, como a maioria considera, mas o segundo. E é por isso que parece tão ruim, forçado e inverossímil. Não há simbologia, metáfora ou poesia: se ela não falar, não será convincente. Ela tem que falar. A situação, o contexto, a lógica e até a falta de lógica exigem. Nós te avisamos, Kim Ki-Duk também roteirista. Você ainda poderia se redimir. Todos os teus produtores te alertaram: faça-a falar. Não a deixe nesse silêncio literalmente constrangedor. Até a própria atriz te pediu para improvisar um pouco e falar algo. Mas você não ouviu nenhum de nós, Ki-Duk; você a fez ficar calada (não só ela: o jovem golfista também). Você não quis fazer algo bom, meu caro; você só quis soar o mais espirituoso e espiritual possível, sem se preocupar com as margens, as fontes e os justificados. Devo dizer a vocês, nobres leitores, que só contei as partes menos bizarras desta poética obra. Ainda há muito mais. Para prepará-los, envio em P.S. a frase final do filme que revela toda a sua significância e em anexo uma foto do cineasta, para vocês gravarem bem sua fisionomia e, caso o encontrem na rua, cederem-lhe uma tremenda sapatada.


P.S. Eis a frase: É difícil dizer se o mundo em que vivemos é uma realidade ou um sonho. Como diria o meu caro colega Eder Fernandes: confessem que é de um mau gosto hediondo.

Atenciosamente,

Daniel

Procura-se. Vivo ou Morto.

NOTA:

Um comentário:

Raphael disse...

Engraçado que este é o melhor filme que já vi nos meus 25 anos. E olha que vejo bastante. Enfim, gosto é gosto.

Achei de uma delicadeza estupenda, de uma sensibilidade única, como a cena em que ela toca os pés do rapaz com seus próprios pés, uma atitude que demonstra carinho e confiança vindo de uma mulher que não tem oportunidade de mostrar seus sentimentos, seja pela repressão do marido, seja pela própria falta de vontade em fazê-lo, em virtude das atitudes agressivas do mesmo.

Ou seja caros leitores, antes de tomarem suas conclusões a partir destas duas versões distintas, assistam ao filme. Tenho certeza que irá valer a pena.

Abraços,
Raphael
raphael.ufrj@gmail.com