sábado, junho 28

Moby Dick - HERMAN MELVILLE (Editora COSACNAIFY, 656 pág.)


Devido à sua extensão e à minha atual lentidão na leitura, a obra-mestra de Herman Melville será analisada em dois posts distintos. De início, ocorreu-me a infame idéia de fazer algo como um "diário de bordo", aproveitando-me dos temas náuticos do romance - mas mesmo o Moedoteca conhece certos limites. Sendo assim, optei por uma divisão lógica e sensata: nesta primeira entrada (feita após a leitura do capítulo 1 ao 74), trato de aspectos mais gerais ou passíveis de alguma espécie de análise sem que se tenha encerrado a leitura (tradução, edição, linguagem, importância histórica, alguns métodos narrativos, etc.), deixando as considerações acerca de trama, desenvolvimento e interpretações cabais para o próximo texto.


A Cosac & Naify diz ter publicado a versão definitiva de Moby Dick em português. Para isso, trabalharam Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza na tradução do que é, provavelmente, o maior clássico da literatura norte-americana. Tendo a tal edição em mãos, é difícil não começar por considerações que em pouco ou nada se relacionam com a narrativa: não exagero ao afirmar que se trata de uma edição perfeita - as gravuras, a diagramação, o trabalho de arte, o cuidado em informar o leitor sem que, para isso, se recorra às enfadonhas e irritantes notas de rodapé, a boa vontade em disponibilizar estudos e textos fundamentais acerca do romance e de reunir uma considerável quantidade de referências bibliográficas; tudo isso, afinal, para que o leitor tenha um contato denso e proveitoso com a incrível saga de Ahab e seus marinheiros. E, ademais, para que aqueles que nutrem o hediondo e prazeroso fetiche pelo livro-objeto experimentem suas alegrias pueris.

Tudo isso considerado, parto para o registro das minhas primeiras impressões: foi-me impossível pensar num capítulo inicial mais perfeito do que esse com que Melville abre o seu clássico. Recordei Brás Cubas, No Caminho de Swann, Lolita. Moby Dick supera a todos - o estilo de Melville me parece nascer de uma improvável união da linguagem religiosa e apocalíptica dos sermões, da poesia romântica inglesa, de uma vontade inata de ser épico e, enfim, da consciência de que nenhuma dessas linguagens poderia conter uma história como a que Ishmael, o narrador, se propõe a contar. Exigia-se um estilo distinto disso tudo e, para tanto, o autor, ao mesmo tempo em que se expressa com fluência digna de oradores competentes, interrompe o discurso com uma pontuação por vezes absurda - a utilização de ponto-e-vírgula é curiosíssima, bastante agramatical. Ilustro algumas dessas considerações:

"Perambule pela cidade numa tarde etérea de sábado. Vá de Corlears Hook para Coenties Slip e de lá para o norte, via Whitehall. O que se vê? Plantados como sentinelas silenciosas por toda a cidade, milhares e milhares de pobres mortais perdidos em fantasias oceânicas. Alguns encostados nos pilares; outros sentados de um lado do cais; ou olhando sobre a amurada de navios chineses; ou, ainda mais elevados, no cordame, como que tentando conseguir dar uma olhada ainda melhor no mar. Mas estes são todos homens de terra; que nos dias da semana estão enclausurados em ripas e estuques - cravados em balcões, pregados em assentos, fincados em escrivaninhas. O que é isso, então? Acabaram-se as verdes pradarias? O que eles fazem ali?"



Eis um curto parágrafo de Miragens, o incensado capítulo de abertura. Há quem afirme que se trata de uma prosa datada, já superada pelo narrador moderno - mas vem justamente daí a minha admiração: quanto mais nos distanciamos de um ideal estilístico arcaico, notadamente do século XIX, em direção ao estilo obtuso e tosco da maioria dos escritores contemporâneos, mais admiráveis se tornam Flaubert, Stendhal, Eça, Melville...

Qualquer coisa que se afirme sobre tais temas, é preciso dizer, deve referir-se e curvar-se aos tradutores. Conheço uma parte mínima da obra em inglês (justamente Miragens) e não me considero capacitado para discutir nenhum tipo de tradução. Esse trabalho aborrecido e cheio de sacrifícios me encanta apenas de longe - motivo pelo qual tenho um respeito, quase um temor, pelos tradutores: Rubens Figueiredo, Paulo Ronai e Boris Schnaiderman, por exemplo, são alvos constantes de minhas orações. Irene Hirsch, como explica a própria editora, possui "longa experiência acadêmica (...) com a obra de Melville" enquanto que Alexandre Barbosa de Souza, que não sei se é homem do mar, encarregou-se da "pesquisa de vocabulário náutico", ponto fundamental de Moby Dick.

Não seria absurdo alguém considerar desnecessária tanta preocupação com esse vocabulário náutico e, pelo menos para mim, inescrutável. Isso porque muitos leitores e críticos desgostam e amaldiçoam os chamados "capítulos técnicos", nos quais Ishmael discorre longamente sobre coisas como a ostaxa e a "corda de macaco" ou se dedica à prática informal da cetologia, analisando diversos tipos de baleias e dedicando atenção especial às diferenças quase imperceptíveis entre as cabeças dos Cachalotes e das Baleias Francas. Contudo, a tradução exata não serve apenas como forma de não tomar o leitor por idiota - afinal, creio que exigir uma tradução fiel (na qual o castelo de proa não seja confundido com o mastro de mezena) seja uma atitude natural. Serve, sobretudo, para que não se desvirtue o caráter excepcional que Melville dá ao seu narrador.

No capítulo intitulado A declaração juramentada, Ishmael escreve o que talvez seja um dos pontos fundamentais para compreendê-lo:

"Tão ignorante é a maioria dos homens de terra firme no que diz respeito a algumas das mais simples e palpáveis maravilhas do mundo que, sem a menção de alguns fatos simples, históricos ou não, sobre a pescaria, poderiam desprezar Moby Dick como uma fábula monstruosa, ou ainda pior e mais detestável, como hedionda e insuportável alegoria."

Ou seja, Ishmael deixa explícita a sua intenção de escrever, digamos, um romance de aventura - ou um extenso texto dedicado não apenas à monomania de Ahab mas também, e sobretudo, à vida briosa dos pescadores de Leviatãs, classe à qual pertence e que admira profundamente. Contudo, numa leitura mais atenta, é possível notar diversos momentos em que o narrador se trai, imprimindo à sua narrativa um caráter pouco confiável. Exemplifico com um trecho do capítulo Brit, no qual Ishmael faz comparações entre o mar e o homem, uma alegoria clara:

"(...) e você não acha que existe uma analogia estranha com algo dentro de você? Pois, tal como o oceano aterrador cerca a terra verdejante, também na alma do homem há um Taiti insular, cheio de paz e alegria, mas rodeado por todos os horrores da metade desconhecida da vida. Deus te proteja! Não te afastes dessa ilha, poderás não mais voltar!"

Esse procedimento de desmontar sutilmente o discurso do narrador é típico dos grandes e revolucionários romances do século XIX. Machado de Assis o praticaria, por exemplo, no já citado Brás Cubas. Nos 1900, sobretudo por meio das técnicas modernistas, isso viraria norma quase indispensável para se fazer um romance: Kafka, Guimarães Rosa, Joyce - todos esfacelam o poder do narrador tradicional. O espírito visionário e pioneiro de Melville, após refletir sobre tais fatos, me pareceu bastante óbvio. E esclareceu-se, também, o fato de seu trabalho ter sido alvo, quando do seu lançamento, daquela que talvez seja a mais monumental incompreensão crítica da história da literatura. Destaque-se, do trecho citado, também os trejeitos apocalípticos e proféticos de Ishmael: a religião é fundamento indispensável ao romance, algo que nenhuma análise pode se dar ao luxo de ignorar (pretendo tratar a esse respeito no próximo texto).

Ainda assim, há que se esclarecer algo: concordamos todos nós, leitores, críticos, estudiosos, tradutores e a quem mais possa interessar o romance, que a aventura e a vida nos baleeiros, que Ishmael parece querer elevar à categoria de principal motivador da narrativa, não é o essencial. Importante mesmo é o poder da linguagem, a sagacidade ao mesclar os mais diversos tipos e gêneros literários, a preocupação na construção minuciosa das psicologias dos seus personagens e, sobretudo, a condição de "hedionda e insuportável alegoria" que cerca Moby Dick, a baleia e a obra.

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Pintura do artista e corsário francês Ambroise Louis Garneray (1783-1857) - citado, a certa altura de Moby Dick, como um dos únicos artistas a conseguir reproduzir algo semelhante a uma baleia real - animal que, em toda a sua complexidade e gigantismo, Ishmael considera absolutamente inapreensível. É possível ver imagens (no geral, reproduzidas de forma tosca) de algumas de suas produções aqui.
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Devido à leitura incompleta, por ora não será atribuída qualquer moeda à obra.

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