sábado, junho 21

Repulsa ao Sexo (Repulsion, UK, 1965)


Desde a abertura da película, o longa-metragem Repulsa ao Sexo impressiona: os créditos iniciais passam por dentro do olho de Catherine Deneuve. Ok, vá lá, isso não é tão impressionante assim, mas pelo menos empolga. O filme conta a história de Carol, uma manicure tímida e retraída, odiosa até, com suas afetações e frigidez. Tem horror às investidas pecaminosas dos machos e mora com a irmã em um apartamento alugado. Por falar nisso, Repulsa ao Sexo é o primeiro dos três filmes que compõem a Trilogia do Apartamento realizada por Roman Polanski (os outros dois são O bebê de Rosemary e O Inquilino). Quando a irmã de Carol recebe o namorado em casa, o que invariavelmente significa sexo na cama, a coitadinha sofre ao ouvir de seu quarto os gemidos e grunhidos das feras que vêm do outro.

Certo dia a irmã e seu namorado resolvem viajar, deixando a paranóica Carol sozinha no seu apartamento. Desesperada, a infeliz começa a tomar atitudes doentias, tais quais enclausurar-se dentro do próprio apartamento e outras coisas mais que não é direito contar aqui. A partir daí é esquizofrenia pura: homens surgindo do nada tentando agarrar e estuprar nossa heroína, das paredes, do teto, do chão, de todo o local. O desfecho é impressionante.

Deneuve + Polanski = um ótimo resultado.

Usando alguns recursos notáveis e demonstrando domínio de câmera, Polanski nos cede no começo um bom e necessário filme (o roteiro também é ótimo). Mas seu golpe de mestre, embora já em ação, só é de fato constatado na segunda metade do filme, quando começam as alucinações. Desde o início, o diretor vem nos anestesiando, deixando-nos relaxados e despreocupados, como se o nível emocional de tensão e adrenalina fossem manter-se regularmente até o final. Quando estamos a ponto de considerar o filme, enquanto suspense, algo despretensioso, ou, como disse o colega Davi, “mais um daqueles filmes psicológicos lentos”, surge a primeira visão, de forma totalmente inesperada, gelando-nos a espinha. A cena é até simples se comparada a outras, mas o efeito de hibernação que Polanski impõe no espectador o faz despertar brutalmente, criando uma atmosfera muito mais densa que a dos “filmes de terror” convencionais em voga hoje, que desde o começo nos alerta sobre a bizarrice que estará por vir. Vale destacar a atuação dessa pedra preciosa chamada Catherine Deneuve: seu desempenho é soberbo e exemplar, digno de constar numa lista de 200 melhores, talvez 100.

Essa estética de construção emocional é marca insuperável de outro grande cineasta: Alfred Hitchcock. Tanto que, na época de seu lançamento, Repulsa ao Sexo foi comparado a Psicose, uma das obras-primas do mestre inglês. A diferença é que o cinema de Polanski, além de não-hollywoodiano, é mais niilista, obsessivo, mórbido e cético (segundo alguns, até satanista), o que faz com que Repulsa ao Sexo e Psicose sejam dois filmes de linhas bem distintas.


NOTA:

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