quarta-feira, junho 4

RESULTADO DA 2ª ENQUETE DO BLOG


Com consideráveis 41%, venceu Transa, álbum para o qual este humilde redator também deu seu humilde voto. Tratarei de explicar-me: a certa altura da vida, um homem percebe que, na Bahia, não existem baianos. O baiano que não parte é um mero sergipano, um reles mineiro, um alagoano qualquer. Mas basta que o homem nascido nas terras místicas e cálidas de Bahia atravesse a fronteira para que se dê o milagre, a transformação inevitável: ele vira baiano, desses com camisa listrada em azul e branco, camisa do Dorival Caymmi - baiano de anedota. E a música baiana só existe porque daqui partiram o próprio Caymmi, João Gilberto, Gilberto Gil e, sobretudo, Caetano Veloso.

Analisem, pois, os seus primeiros discos, gravados e produzidos entre Rio de Janeiro e São Paulo - naqueles ali começa a metamorfose, mas Caetano ainda tinha uma velada vontade de ser carioca. Só mais longe, um oceano mais longe, ele poderia ser verdadeiramente baiano - e, pior, cantando em inglês: numa Londres fervilhante, grava um poema de Gregório de Matos ("Triste Bahia"), compõe um reggae no qual se declara não homem, mas nervos puros ("Nine Out of Ten") e enche suas composições com referências a canções tradicionais da terra de onde saiu corrido. Andava o sombrio ano de 1972 e, já em 1971, o músico tivera a audácia de gravar "Maria Bethânia" e "Asa Branca". Em Londres, Caetano firma a Bahia - considere-se que a Bahia só existe em discos: fisicamente, é uma banda de Sergipe, outra de Pernambuco, alguma do Piauí e parte de Minas.




Ajudado por um batalhão que consistia em Jards Macalé, Tutti Moreno e mais alguns outros mestres dos instrumentos, Caetano registra, por exemplo, "It's a Long Way" - que começa como uma fiel e bela cópia dos Beatles e vira uma capoeira repleta de Vinícius de Moraes, Dorival e quadrinhas outras. Há, ainda, a soberba recriação de "Mora na Filosofia": Caetano e sua banda fazem um samba tão denso que se pode cortá-lo com faca, embalá-lo e despachá-lo pelos correios.

Anotem: Qualquer Coisa, Cinema Transcendental (que terminou em segundo, com 23% dos votos) e todos os auto-intitulados discos do início da sua carreira (17% para o Tropicália e 5% para o Álbum Branco) são dignos de antologia e já estão lá, registrados nas devidas e imortais páginas, mas é Transa, seu álbum mais nostálgico e catártico, é Transa a pedra fundamental de uma música brasileira, baiana, cujo tema é, basicamente, a nostalgia e a catarse - e cuja realização, desde então, não renega nada, nenhuma influência. Seu nível de inovação e hibridismo é constantemente perseguido por uma vastíssima paisagem de compositores dos quatro cantos do mundo e, se a maioria se frustra nessa busca, temos aí só mais um motivo para aceitar nosso espanto diante desta obra-prima.

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