quarta-feira, junho 18

Thérèse Desqueyroux - FRANÇOIS MAURIAC (Editora COSACNAIFY, 192 pág.)


A opção religiosa de Mauriac o precede e aos seus escritos como a avisar ao leitor desprecavido duma informação chave para a apreciação de sua literatura. Assim, François Mauriac ser católico é usado como questão fundamental da sua obra. Sabe-se que uma obra de arte é (ou deve ser) maior que seu autor e o seu tempo, pois precisa vencer os anos e as diferenças culturais e individuais. É também sabido que o catolicismo (e isso vale a qualquer doutrina ou filosofia) é restrito a um contexto, muito embora amplamente divulgado e influente. Entretanto as religiões são uma criação humana, e, portanto, uma projeção do próprio homem de um aspecto de si mesmo: isso tudo dito para ressaltar o caráter universal de Thérèse Desqueyroux. Esse alarde que se costuma fazer sobre posicionamentos de um autor em vida deve ser analisado cuidadosamente. Analisemos o caso Mauriac.

O moralismo do narrador é explicitado desde o início do livro, onde mescla-se o amor e a recriminação do criador para a criatura: "Muita gente me recriminará por ter podido eu inventar uma cratura ainda mais odiosa que todas as minhas personagens anteriores." e mais adiante: "Gostaria que a dor te entregasse a Deus, Teresa;". O livro se constitui na investigação dos motivos que levaram Teresa a um crime tão terrível. É, em suma, essa busca. Na confecção da personagem, o moralismo não influi, senão para ser negado. E é nessa tensão entre a moral, claramente cristã, e a sua subversão o ponto de partida para a trama de Teresa. A culpa e a redenção são pólos de força em atuação na alma de Teresa.

Thérèse Desqueyroux só existe onde há a violação do equilibrio espiritual do homem. Nesta conjuntura, atrevo-me a dizer que é um romance de um persongem só. Os demais, figurantes, são como projeções e representam a externalização de uma única personagem. Que legitimidade tem o pai de Teresa, satisfeito com a manunteção da sua imagem pública, enquanto esta teme, receia seu destino e deseja a compaixão do marido? Que interesse o conformista e acomodado esposo de Teresa desperta no leitor com sua visão simplista da vida senão como um opositor evidente à esposa? A prima, a tia, e suas caracterizações são como projeções dos pólos em conflito na protagonista. O jovem poeta em quem Teresa vê a oposição da vida monótona e vazia que leva como dama da Sociedade não representaria essa inquietação tão dela? Todos estão condenados, mas só Teresa o sente. Só Teresa que tem direito a redenção (ao menos artística), pois conhece a dor.


Mesmo a "atmosfera Mauriac" de que se fala, neste romance, parece representar estados de espírito. Desse modo, o calor imobilizador de Argelouse no verão, os cigarros e os livros vorazmente consumidos por Teresa, uns, na ruína, os outros na juventude; assim com os cheiros que são evocados e as cores descritas tornam-se representações do processo interno da personagem. Tornam-se símbolos. Dizem que Mauriac se repete em seus livros. Não atesto esta afirmação, devido a dificuldade em lê-lo aqui no Brasil. Mas em Thérèse Desqueyroux Mauriac é obsessivo: uma atitude até mesmo restritiva.

E é essa atitude obssessiva do escritor o seu maior mérito e sua principal deficiência. Deficiência no sentido da limitação, que se em dá na variedade de pontos de vista, em quantidade; não em profundidade: sob um único ângulo tudo é devassado. Porque a Mauriac, o escritor de Thérèse Desqueyroux, não parece importar nada além dessa mergulho na consciência turbulenta de Teresa, nem mesmo onde esta busca descambará, interrompendo-a ainda inconcluída. Concluí-la, desafogar este conflito, seria pôr fim ao que lhe caracteriza. Nem o enredo tem muita importância; cada linha funciona como uma holografia de todo o romance. Desse modo, ingressa-se nesse labirinto assombroso e desfila por suas galerias a agonia que é saber-se inexoravelmente perdido, mas sob a influência do "elemento invisível", do divino a que Carlos Drummond se refere na introdução ao romance traduzido por ele. Elemento esse muito mais amplo do que é o divino nesta ou em outra doutrina, e que une os homens.


NOTA:

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