quarta-feira, julho 30

12 Homens e uma sentença (12 Angry Men, EUA, 1957)


Me lembro de Daniel, colega moedotecário, um pouco impressionado com a simplicidade de 12 homens e uma sentença. Levando-se em conta a dificuldade em se fazer um filme, problemas que começam na produção e se estendem às filmagens (quase sempre caras e dispendiosas), e, somando o êxito do filme referido, de fato, é impressionante como o filme é simples. Quando soube que o longa é uma adaptação de uma peça teatral, não me surpreendi. 12 homens uma sentença é famoso por ser filmado quase exclusivamente em um único set. Opção perigosa, pois tudo conspira para, não variando o ambiente, o filme ser monótono. A monotonia não consegue prevalecer devido aos tantos momentos de tensão e clímax e, principalmente, à habilidosa movimentação de câmeras e às marcações de cena.

A trama pode ser resumida assim: doze homens se reúnem numa sala de júri para dar o veredicto, "guilting or not guilting”, num caso de parricídio, baseados no princípio da dúvida. Mas o veredicto deve ser unânime. O júri 8, interpretado por Henry Fonda, é o único a votar contra a execução do rapaz a princípio, pois não tem certeza da culpa do acusado. Ao longo do filme, todas as provas e testemunhos apresentados pela acusação, antes aceitas como satisfatórias por onze dos jurados, são postas em cheque e muitas vezes se mostram incoerentes, até que todos concordam em inocentar o réu.

Inevitável não lembrar da literatura policial, no meu caso, dos contos de raciocínio de Poe, meu único contato com este gênero literário. O personagem de Fonda, no início, e outros personagens em seguida, procedem como o Dupin, analisando os pormenores das provas que têm a sua disposição. Experimenta-se um prazer semelhante ao prazer obtido com os discursos de Dupin, ao ver o modo como cada ponto da promotoria se torna inconclusivo sob um olhar investigativo mais rigoroso. Mas rotular o filme como de mistério, ou de raciocínio, seria um erro grosseiro. Pois o que verdadeiramente importa não é a culpa ou a inocência do réu, e sua conseqüente execução no caso de culpa, mas, sim, como doze indivíduos enclausurados numa saleta lidam com a responsabilidade de decisão sobre a vida de um homem. É um foco psicológico, portanto. Para isso, o maior desafio era trabalhar cada personagem. Que cada personagem tenha uma personalidade definida já algo louvável. Nos resta avaliar como se dá a construção das personalidades.


O primeiro impulso é considerar todos os outros mais ou menos simplórios quando relacionado com o personagem de Henry Fonda, e não é um impulso sem razão de ser. O júri 8 é o único que sugere uma complexidade, como quando coagido pelos outros onze jurados a sustentar sua solitária opinião e, consequentemente, anular o veredicto que deveria ser unânime. Então ele propõe uma segunda votação para os onze, comprometendo-se a mudar seu voto se o resultado se repetir: não se sabe se ele faz isso por falta de convicção em si ou na capacidade de escuta dos outros. Temos do outro lado, por exemplo, o pitoresco júri 6 que só pensa em dar o veredicto rapidamente para ir ao estádio ver um jogo de beisebol. Ou o irredutível júri 3, um cidadão americano padrão, que projeta no réu a figura do filho fugido de casa, drama trabalhado de forma assaz simplista. Os outros júris seguem por esse viés, sem deixar, no entanto, de possuir força nem legitimidade.

O fato do único set ser uma sala fechada à chave concorre para um ambiente claustrofóbico. Some-se a isso o dia mais quente do ano e se tem a idéia do desgastamento por qual o júri passa. As discussões explodem, os problemas íntimos afloram, alguns preconceitos são abordados, assim como a liderança, a relação entre pai e filho, em fim, uma quantidade razoável de temas relacionados à questão principal. A mim, particularmente, é inevitável pensar sobre a democracia. Coisa que não é tão desbaratada como pode parecer à primeira vista, pois se a veredicto fosse decidido pela maioria, ou seja, democraticamente, e não pela unanimidade, certamente a discussão seria drasticamente reduzida, senão abortada sem mesmo discutir, e ao réu restaria o repouso da cadeira elétrica. Mas, felizmente, inclusive, não é por esse viés que o filme trata do assunto social, senão como ponto insinuado. O filme inteiro gira em torno da ética do homem em sociedade. E uma ética bem peculiar: percebam que mesmo o júri 8, que sustenta uma atitude exemplar do início ao fim, jamais questiona a pena de morte em si; argumenta em favor da vida de um inocente, e mais nada: como prediz seu dever como júri, cabe acrescentar.



NOTA:

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