sábado, julho 5

CASADINHA Nº1 = O Coração das Trevas - JOSEPH CONRAD (Editora L&PM, 148 pág.) / Apocalypse Now (Apocalypse Now, EUA, 1976)

A proposta do Casadinha é, via de regra, analisar, num único post, uma obra literária e sua respectiva adaptação cinematográfica. A construção do post é confessadamente inspirada na poética de João Cabral de Melo Neto. Para ilustrar, recomendo a leitura da obra-prima Educação pela Pedra.

Reparem na frase abaixo do título.


O anti-heroísmo é um conceito instável. Décadas e mais décadas foram consumidas pelo tempo e ainda hoje ainda não sabemos qual a sua definição correta – obviamente, não são necessários muitos miolos para perceber que isto pouco importa. Os únicos fatores que aqui nos interessam são as mais diversas e apreciáveis construções de personagens deste gênero.

Outro questionamento ainda mais hermético: como julgar?, isto é, como determinar qual dos quais é melhor? Creio que seja improvável essa resolução; na verdade, somente expus tais questões para poder afirmar, sem receios, mas ainda cambaleante, que Marlow, o homem que conta a história de O Coração das Trevas, é, para mim até então, que eu me lembre, o melhor anti-herói já feito e impresso num romance escrito em língua inglesa.

Eu não poderia construir com eloqüência a minha idéia de um anti-herói perfeito e/ou ideal. Me contento em apenas um exemplo, que é este aí. Não obstante, considerar a personagem Marlow como o único mérito do livro que semi-intitula esse post não deixa de ser uma postura errônea, pois quem se encontra por trás da pena é Joseph Conrad.

Józef Teodor Konrad Korzeniowski

A meu ver, Conrad não influenciou apenas Bioy Casares e mais algumas dezenas de grandes escritores; para mim, Conrad influenciou até mesmo a humanidade. Me parece compreensível tamanho exacerbo de minha parte, afinal, ainda estou me recuperando da leitura recente (e bastante tardia, confesso). Após ler Marlow contando como chegou àquela terra inóspita, como conviveu com os negros selvagens e como conheceu o lendário Sr. Kurtz, eu comecei a achar que o dia estava anoitecendo rápido demais - e se aquele é o mais bem construído enquanto anti-herói, este - Kurtz - é o “coração” do romance. Kurtz não apenas existe, não apenas nos é apresentado: ele é entranhado em nossa alma, é fincado em nossos poros. Todos os arquétipos que a figura de Kurtz representa se resumem a uma passagem do final do livro - traduzido por Albino Poli Jr. - na qual uma mulher diz: “Quem não se tornaria amigo dele ao ouvi-lo falar, ainda que fosse uma só vez? Atraía as pessoas em direção a ele com o que havia de melhor nelas. Esse é o dom dos grandes homens.”

A frase que ecoará por um bom tempo nos canais sensoriais do leitor é aquela que Kurtz profere no seu desolador leito de morte: “O horror! O horror!”. A palavra “horror” não possui a mesma carga emblemática quando traduzida. Mas por que, diriam, se até mesmo o seu correspondente em inglês possui a mesma grafia? Explico: sim, possui, mas a tonicidade da pronúncia modifica a essência sinistra da palavra. Em português, “horror” é oxítona; em inglês, a sílaba tônica é a primeira. A expressão “O horror”, dita em português, quase se aproxima de interjeições picarescas como “U-hu!” ou “Yahoo!”; no inglês, temos uma dicção mais pomposa, ou seja, mais condizente com o contexto específico. Não estou desmerecendo nenhuma língua: cada uma possui seus preciosismos. Se utilizássemos, por exemplo, a expressão “A morte”, teríamos algo de impacto em português: o nome “morte”, além de ser paroxítono, contém a letra “r” para corroborar com a textura áspera que é o significado da palavra. Em inglês, teríamos “The dead” ou “The death”: a cacofonia da pronúncia Dê-déed/Dê-déef arrefece bastante o efeito desejado (e nós brasileiros poderíamos até mesmo confundi-la com um certo trapalhão).


O processo de adaptação cinematográfica carece de uma definição estável. Anos e anos de cinema já foram deixados para trás, mas ainda assim não sabemos dizer se este ou aquele romance foi fielmente adaptado ou não - obviamente, não são necessários muitos miolos para perceber que isto pouco importa. O único fator que aqui nos interessa é a diversidade de boas adaptações que temos o prazer de apreciar.

Outro questionamento ainda mais confuso: como julgar, isto é, como dizer qual adaptação é melhor que a outra? Me parece irrespondível essa pergunta: na verdade, somente expus tais questões para afirmar que, das grandes adaptações do cinema, ou, antes, dos grandes filmes da história, Apocalypse Now é, para mim, até então, o mais hermético e intricado.

Talvez eu consiga construir com precisão a minha idéia de uma adaptação cinematográfica perfeita e/ou ideal. Porém, me satisfaço com os exemplos que estão por aí, dentre os quais Apocalypse Now merece atenção particular. Afinal, é quase uma vilania esquecer que Francis Ford Coppola não está impecável apenas como roteirista.

A meu ver, tudo que deu errado na produção foi melhor para a realização desta. Os imprevistos deixaram à flor da pele a inspiração da equipe; Harvey Keitel, graças a Deus, não fez o papel do protagonista que nada tem a ver com sua pessoa - o semblante de Martin Sheen, que até nos pareceu um pouco abatido depois da parada cardíaca que sofrera no meio das gravações, estava no ponto; Marlon Brando apareceu depois de longa espera extremamente obeso, a tal ponto que não se permitiu ser gravado integralmente, fazendo com que Coppola, numa das melhores uniões do útil ao agradável da história do cinema, o mostrasse em luz fraca, na maioria das vezes apenas sua sombra ou a metade do rosto imponente do ator. No momento em que Brando brada “The Horror!”, descobrimos que estamos diante de uma projeção imortal. E se a produção fora de fato problemática, chegando ao absurdo de um furacão arrasar completamente o set, o resultado não poderia ser melhor: tudo parece perfeito, desde à música de abertura dos The Doors ao trecho da Marcha das Valquírias de Wagner.


A frase que se tornou a mais conhecida do filme é aquela em que o personagem de Robert Duvall confessa adorar o cheiro de napalm durante a manhã porque ele “cheira à vitória”. Coppola, ao adaptar o romance de Conrad, escolheu a ambientação perfeita para a época: a guerra do Vietnã. Está claro que Apocalypse Now não é um mero filme de guerra; mas, por outro lado, é talvez aí que se encontre uma linha divisória: nós, brasileiros, ou os suecos, ou os suíços, ou os neozelandeses, não tomamos em absoluto parte desta guerra. Infelizmente ou não, a nossa geração de 50-60-70 não soube o que era esperar ser chamado a qualquer momento pelo governo para ser levado a um lugar onde a morte era quase certa. Nós não sentimos na pele a paranóia do marcatismo, nem a obsessão em se tornar um falso patriota. Por conseguinte, nós não vemos o filme como os estadunidenses vêem; não há como negar que, para eles, o golpe é muito maior. Não pretendo hierarquizar nenhuma história de nenhum país; apenas me refiro ao fato de que, assim como as loucuras da guerra do Vietnã não fazem parte de nós brasileiros, os estadunidenses não souberam nem nunca saberão o que foram as terríveis ditaduras latino-americanas da época ou o extermínio judeu nas terras germânicas. Cada país, portanto, possui sua história, suas glórias e seus “horrores”.


O coração das trevas:


Apocalypse Now:

2 comentários:

Maurício disse...

Bem Daniel, achei sua opinião um infundada, visto que você não se posiciona sobre o romance ou filme, num sentido de roteiro, mas tão somente em conhecimentos pessoais sem embasamento teórico em análises concisas.

Daniel Oliveira disse...

Bem Mauricio, é um pouco delicado ter sempre que associar necessariamente a análise de uma obra ao embasamento teórico daquele que analisa.

Mas acho que a proposta do "Casadinha" é essa mesma: uma análise pessoal, tangenciando o intelectual e o passional - um post "artístico", de certo modo. Bom, pelo menos eu tentei.

Uma duvidazinha: você por acaso é o Maurício que faz direito na UEFS? =/