quarta-feira, julho 16

História de O - PAULINE RÉAGE (Editora Ediouro, 243 pág.)


Desabilitando a tentação de uma interpretação fácil de História de O, meramente como um livro erótico sobre o sadomasoquismo, o prefácio de Jean Paulhan aponta uma leitura mais comprometida com o texto. Entendo que a posição mais polêmica e contundente de Paulhan seja a "impiedosa decência do texto", pois como conceber todas as torturas e humilhações sofridas por O, os chicotes e a marca a ferro, desse modo icomodadamente ameno? (Como se houvesse amenidades na decência...) De qualquer modo, há uma inversão, ao menos chocante, do modo de pensar corrente, aquele que, como Paulhan nota, une o amor à liberdade numa relação interdependente: fica claro que O, que é maltratada quase ritualisticamente pelo seus Amantes, que passa por um processo de perda total da liberdade, é mais plenamente recompensada à medida que seu flagelo aumenta e que se torna uma melhor escrava, como se a sua liberdade estivesse equacionada em igualdade inversamente proporcional à abstinência de si mesma, à entrega ao seu senhor e dono. Mas, caros leitores, é preciso que se veja as desventuras de O, com acordo à linguagem literária, como um artifício e símbolo, caso contrário, a violência das cenas e das idéias contidas nas cenas provocam horrores pudicos, imperdoáveis.

Mas, como eu vinha falando, do que há de sádico e masoquista no texto (e há algumas formas de refutar sua presença) é preciso considerá-lo sem precipitações. O prefaciador vindica a ausência da motivação sádica dos dois senhores de O, René e Sir Stephen, que a torturam muitas vezes contrariados, como denuncia, por exemplo, o pedido de perdão de Sir Stephen por um espancamento mais atroz, mas antes de espancá-la, como cumprisse uma obrigação. Quanto a O, seria reducionista chamar sua alegria em ser escravizada como masoquismo. Há algo de espiritual no modo como ela se entrega ao Amante. Entregar-se a um Senhor, aliás, é a forma pragmática de se entregar a um ideal, como outras pessoas entregam-se à orientação espiritual de um guru. De que outro modo se interpretaria a relativa facilidade com que ela transfere sua devoção de René para o mais severo Sir Stephen senão como uma troca de ídolo, mas como a permanência, e até a acentuação, da mesma devoção? Percebam a palavra "devoção", não é àtoa que ela se encaixa aqui. Em diversos trechos O refere-se ao seu senhor como um "Deus", um "Deus vivo", com poderes absolutos sobre ela.

A orelha de minha edição, impressa em maio de 2005, faz um comentário interessante: "(...) a pequena Anne Desclos [nome de nascença da autora] aprendera, nas lições de catecismo, que o amor absoluto exigia uma consentida desapropriação de si mesmo e o abandono de corpo e alma(...)" A esse radicalismo que se refere a "impiedosa decência" da História de O. E há mesmo semelhanças com o cristianismo, do modo como Nietzsche a coloca em termos, a partir da dicotomia entre o corpo e o espírito, onde o espírito deseja a pujança do corpo para a sua elevação. No caso de O, a entrega a uma causa maior, digamos, na falta de nome melhor, ao amor, implica na necessidade da supressão da sua individualidade. Assim, ela se deixa entregar aos suplícios com uma alegria religiosa. Ouçamos O falar das suas impressões sobre uma disposição de chicotes na parede de seu quarto destinados à sua carne:

"Era uma linda panóplia, tão harmoniosa quanto a roda e as tenazes nos quadros que representam Santa Catarina, a mártir, e o martelo e os pregos, a coroa de espinhos, a lança e as varas, nos quadros da Paixão."

Agora falando das restrições que lhe são impostas:

"Que bom que isso era, materialmente, como a grade do convento impede materialmente às noviças de pertencerem a si mesmas e de fugirem"

O se alegra por sua anulação individual e sente-se aliviada de um peso que lhe permite alçar vôo.

Ademais, é necessário prestar alguma mesura para a realização estilística do romance. Publicado na França, no ano de 1950, o escândalo que causou, e ainda hoje causa, pois tratando de questões morais, não rápido nem facilmente superadas, ao contrário, que continuam queimando em febre, é uma tendência fácil ignorar as características literárias e fazer um julgamento moral, como aconteceu quando da sua publicação. De estilo direto e regular, cheio de minúcias, descrições detalhadas e descrições listadas de ambientes, a história é conduzida com naturalidade, sem hesitações. Eis trecho ilustrativo, escolhido ao acaso:

"A pequena Natalie estava sentada no tapete branco, no meio do quarto, como uma mosca no leite, enquanto O, que estava de pé diante da cômoda abaulada que lhe servia de penteadeira, acima da qual podia se ver num espelho antigo até o meio do corpo, ligeiramente trêmula e esverdeada como num lago, fazia pensar numa dessas gravuras do final do outro século, em que mulheres passeavam nuas na penumbra dos apartamentos, no auge do verão"

Contudo, há que se admitir, que muito embora bem realizado, sua leitura não carecendo, de forma alguma, de prazer estético, História de O é verdadeiramente grande pela franqueza, quase cruel, da sua narrativa. Faz-me refletir, inclusive, sobre um aspecto da literatura que ora está resolvida e desapercebida, sentada no chão, recostada na parede de minha mente, até um livro como História de O pousa em minhas mãos e se alvoroçar: a questão da temática nas artes narrativas: qual a importância real daquilo que se diz? Até onde um tema engradece um livro, ou um filme? Mesmo não procurando uma resposta absoluta, e analisando essa problemática em exemplos específicos, reconheço a impotância dum questionamento com esse num aspecto mais amplo. No caso peculiar de História de O, creio ter tomado uma posição.

NOTA:

Um comentário:

Janaína disse...

Adorei o texto. Gostaria de entrar em contato. Meu e-mail: janarsimoes@hotmail.com