quarta-feira, julho 2

João Gilberto, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Caetano Veloso - Brasil, 1981.



Quando menino (sabe-se que crianças são de material esponjoso) costumava elevar a voz emocionada e orgulhosa em defesa da primazia bahiana; sobretudo sobre o Rio de Janeiro. Minha evolução individual apontou, contudo, ao afastamento das idéias ufanistas (é sabido que no sonho bahiano o Brasil é o acarajé, o Campo Grande e os coqueiros de Itapoã). Portanto, desde minha segunda infância que me interessa cada vez menos defender o berço bahiano do samba ou a superioridade do pagode, mesmo que no quesito canalhice, em relação ao funk. E em vista da inegável decadência da Bahia (e aqui se confundem as impressões pessoais com a social), Salvador que foi a primeira capital brasileira, só podemos alegar em nosso favor o nosso passado e esperança num futuro nebuloso. Mas vejamos, com o rigor adequado a uma página virtual, já que todo soteropolitano é a Bahia inteira, tomemos a mim mesmo, na infância (sim, sou de Salvador), como exemplo e (com o pendor para a hipérbole declarado) logo se concluirá: no fundo, todo bahiano quer ser carioca. Essa é uma das verdades veladas nos sotaques de nossas canções. Há algum tempo se deseja que o Rio volte a ser bahiano. Em nosso imaginário Itapõa é sempre preferível a Copacabana, assim como o Pelourinho à Lapa e Castro Alves em relação a todos os poetas, salvo o Boca do inferno e Antônio Brasileiro. Um grupo de quatro bahianos, desse modo, em 1981, concretizou o sonho bahiano por exelência:

assemelha-se a um exotismo as manifestações de Minas ou de um Nordeste uniforme e estereotipado; o Sul é europeu; o Norte é quientista; o Rio, tudo do seu encanto é o espelho dos coqueiros de Itapoã. No álbum Livro, de 1997, Caetano pronunciou-se tardiamente sobre a verde-e-rosa na canção Onde o Rio é mais Bahiano:

"A Bahia estação primeira do Brasil/ Ao ver a mangueira nela inteira se viu/ exibiu-se sua façe verdadeira (...)isso é a confirmação de que a mangueira/ É onde o Rio é mais bahiano"

o Brasil redireciona o eixo principal brasileiro para a terra de Caymmi. E o que é o Brasil? é claro que o Brasil em questão é uma abstração, não existe senão abstraído. E o Brasil de João, Bethânia, Caetano e Gil não podia ser mais bahiano.

a confabulação bahiana


Faixa-a-Faixa

1) Aquarela do Brasil
(Ary Barroso)

Aqui se pincela, com o perdão do trocadilho, o Brasil arcaico das belezas naturais, da mistura de cor e do samba. Com esse retrato se encerra o assunto da unidade sem abordá-lo necessariamente. Fica claro não ser essa uma questão de relvância para os cantores, e de fato não é.

2) Disse Alguém (All Of Me)
(Seymour Simons & Gerald Marks)

Versão: Haroldo Barbosa

Se a primeira faixa é o Brasil, a segunda é uma tradução.

A voz de Gil é levemente sobresalente (aliás Gil canta estupendamente em todas as faixas), mas os três cantam juntos numa espantosa sincronia e na mais espantosa ainda coincidência de intenções e intensidade. E, engraçado, eu certa feita cofessei a dois amigos moedotecários que considero esta a mais perfeita canção em português, como se tivesse sido composta para língua portuguesa. E não me venham, como o fez João, colega moedotecário, apontar a linha do baixo ou qualquer outro traço gringo.

Se meu juízo é influenciado pela interpretação, arranjo e todo o contexto (não digo que não o seja) isso muda nada. Das realidades da música, a que mais importa ao ouvinte é a realidade acústica, e para a idéia existir como som tem que ser parida como o Moisés que emergiu na pedra bruta.

3) Bahia com H
(Denis Brian)

"Salve a santa Bahia imortal/ Bahia dos sonhos mil/ Eu fico contente da vida ao saber que Bahia é Brasil"

É a canção de quem vem de fora, ou que, com toda licença, já é bahiano. O restante dispensa explanações.

4) No Tabuleiro da Bahiana
(Ary Barroso)

A única participação de Bethânia (por isso, inclusive, alguns creditam a autoria do álbum somente aos três outros), discreta e um tanto nasal, mas sem perder a pujança de sua interpretação. Está aqui também a melhor interpretação de Caetano do álbum.

5) Milagre
(Dorival Caymmi)

A música flui do modo mais dempedido, simples e clara:

"Era só jogar a rede e puxar a rede"

No mais, cantar Caymmi é cantar a Bahia. É a terceira do bloco final das quatro canções "bahianas".

6) Cordeiro de Nan
(Mateus & Dadinho)

João é um dos principais nomes na construção da imagem brasileira no exterior, com a bossa nova. Menos falada é a sua contribuição para a representação bahiana no país. Um intérprete redundante do impecável Dorival Caymmi, também dialoga com as novas Bahias. Foi uma influência direta nas melhoes produções bahianas desde ele mesmo - só pelo prazer de citar os nomes: Gil, Caetano, Bethânia e, mais que essa (embora não cante no álbum), Gal Costa; só quem ouviu Ferro na Boneca sabe a proporção do bem que João fez ao aproximar-se de Novos Bahianos.

Brasil, o álbum (mas sem querer excluir ambivalências), tem a cara de João Gilberto. Toda a concepção é marcadamente João Gilbertiana. "Cordeio de Nan", igualmente; a canção mais pessoal e intimista do álbum. Quem teve a oportunidade de ouvi-la há de concordar, não há palavras...

NOTA:

Um comentário:

Glen Batoca disse...

Vasculhando a rede a procura de músicas, para a minha felicidade me deparei com o seu blog,falando justamente de um disco fenomenal (Entre outras coisas concordo plenamente que a "linguagem" da bolacha é completamente "João Gilbertiana").Tinha o LP que se perdeu com o tempo,enfim foi ótimo passar por aqui e ler um pouco a respeito desse extraordinário trabalho.