quarta-feira, julho 23

Moacir Santos - Choros e Alegria, 2005


Vinicius de Moraes, em seu "Samba da Benção", cantou: “A benção maestro Moacir Santos. Não és um só, és tantos.” No caso particular do belo disco Choros e Alegria, de 2005, tomo essa homenagem quase de modo literal. Não há só um Moacir arranjando e tocando suas músicas. Há, sim, uma legião de moacirs, vinte ao todo, e entre eles Wynton Marsalis, considerado por muita gente boa o maior trompetista do jazz contemporâneo, buscando a melhor forma de executar a música do Maestro.

O projeto é encabeçado pelos dedicados pupilos Mário Adnet e Zé Nogueira, que já haviam trabalhado em 2001 com algo bem semelhante: Moacir Santos – Ouro Negro, uma espécie de antologia panorâmica que pretendia resgatar Moacir do esquecimento em grande escala, já que nas pequenas rodas de amantes da boa música não raro seu nome era confundido com o Santo Nome.

Em Choros e Alegria o mote central é a produção moaciana anterior a Coisas, de 65. Grande parte desses choros (valsas, boleros, marchas...), precisamente da faixa 4 a 9, foi composto nos anos 40, época que outro gênio (Pixinguinha) revolucionava nosso cancioneiro popular com suas orquestrações belíssimas. Pensa-se muito no efeito que essas canções de Moacir fariam se fossem lançadas em sua época, em vista da beleza e alta qualidade artística que possuem. Ainda hoje, carregadas de nostalgia, não soam datadas. Os fãs mais arrojados ousam dizer que Moacir desbancaria Pixinguinha do trono de revolucionário que este possui dentro da música brasileira. Uma bobagem pensar assim, porque todos os deuses podem habitar o mesmo Olimpo. Se Moacir não quis gravá-los é porque algo tão ou mais importante estava por vir, e, afinal, acabou vindo mesmo: mais ou menos 25 anos depois da revolução de Pixinguinha, Moacir consagrava a modernidade na música instrumental brasileira com um disco impecável, o acima citado (e aqui já resenhado) Coisas.

Moacir Santos faz parte dos seletos artistas que viveram tempo suficiente para testemunhar seu esquecimento e, décadas depois, sua imortalidade no cânone do cancioneiro brasileiro, embora não tenha passado da casa dos 80. Não tenho dúvidas de que sua música sobreviverá por séculos e acalantará ainda muitos corações chorosos com muita alegria. Desculpem o trocadilho de mau gosto.

Tantos e geniais



Faixa-a-Faixa

1 – Agora eu sei

Marchinha complexa. Não é difícil associá-la às composições de Coisas.

2 - Outra Coisa

Pelo título, as explicações tornam-se desnecessárias. Tem aquela mistura de música caribenha e africana tão cara a Moacir. O sax barítono é uma beleza.

3 – Paraíso

Inclassificável. Etérea como a idéia de um paraíso.

4 - Vaidoso

O primeiro tema do disco composto nos anos 40. Há um dueto impressionante de sax tenor (Marcelo Martins) com o trombone de Vittor Santos.

5 - Flores

Um convite à dança. Não me lembro de um clarinete tão bem tocado em todo o disco.

6 - Saudades de Jacques

Ganhar uma música de Moacir como homenagem não é para qualquer um. Jackson do Pandeiro não é qualquer um. Grande momento de Marcos Nimrichter, no piano e na safona.

7 – Cleonix

Choro, bossa-nova comovente. A homenageada da vez é Cleonice Santos, esposa de Moacir.

8 – Ricaom

O arranjo ficou a cargo do grupo de choro Trio Madeira Brasil. Violão, violão de 7 cordas, bandolim brilham majestosamente.

9 – De Bahia ao Ceará

Com esse choro fecha-se o ciclo de composições feitas nos anos 40. Talvez a melhor entre elas. Difícil dizer.

10 – Excerto N° 1

Arranjo complexo. Talvez seja a música que mais destoe do conjunto por sugerir várias nuances e não se decidir por nenhuma. É uma música-sugestão.

11 – Lemuriamos

Um dos temas assumidamente jazz de todo o disco.

12 – Rota Infinito

De show marcado em São Paulo na época da gravação de Choros e Alegria, Wynton Marsalis, admirador confesso de Moacir, aceitou o convite dos produtores Nogueira e Adnet e deu o ar da sua graça num solo de trompete arrasador. Um dos grandes momentos do disco.

13 – Samba di Amante

Samba-canção dos bons. Moacir põe sua voz característica em determinado trecho da música.

14 – Carrossel

Afro-jazz dos melhores. Vocalizações de Moacir e Muíza Adnet, irmã de Mário Adnet.

15 - Felipe

Um tema infantil para fechar com muita ternura e inocência o melhor disco brasileiro lançado em 2005.


NOTA:

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