segunda-feira, julho 7

RESULTADO DA 3ª ENQUETE DO BLOG

Intimado a decidir qual o maior poeta brasileiro do século XX, nosso mui nobre e fiel público leitor assim se pronunciou e se dividiu:

Manuel Bandeira (21%)
João Cabral de Melo Neto (21%)
Drummond de Andrade (45%)
Murilo Mendes (3%)
Ferreira Gullar (6%)
Paulo Leminski (3%)




***

Dadas as minhas preferências por João Cabral, comunico e comento a vitória de Carlos Drummond de Andrade com indisfarçáveis decepção e dor-de-cotovelo: uma vitória do poeta pernambucano seria a desculpa perfeita para escrever livremente sobre a sua obra, que acredito imensa - a maior destas bandas. Contudo, perdeu - abraçado ao seu conterrâneo Manuel Bandeira (21% para cada) - para um vulto absolutamente incontornável dos versos brasileiros.

Drummond, no imaginário nacional, confude-se com o próprio conceito vago de poesia que nossa multidão possui. O poeta, capaz de erguer monumentos como "A Máquina do Mundo", eternizou-se nos versos populares de "E agora, José?", no conceito antes estranho, mas hoje diluído, de "No meio do caminho" e, sobretudo, numa numerosa coleção de poemas amorosos de gosto duvidoso.

Natural que uma produção tão extensa apresente deslizes consideráveis (caso semelhante ao de Bandeira) - mas isso pouco ou nada importa. Como negar a força intelectual e poética de um homem com tão vasta fronte? Sabe-se, naturalmente, que a testa indica o gênio. E a grande obra de Drummond está lançada, perpetua-se numa influência, por vezes atroz, nas gerações que se atropelam (ora admiradas, ora sôfregas de rebelião contra a poesia do mestre) sem que apareça poeta algum para fazer-lhe frente.

"Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

(...)
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo."


O poeta, que não apenas nossos escassos e cultos leitores consideram o maior do século, largou sobre a poesia a maldição metalingüística - prática que dominava e na qual, creio eu, alcançou o ápice de sua escrita. Essa estranha pedagogia poética, contudo, disseminou-se pelos cadernos de todos os pretensos versejadores e é assim, sobretudo, que Drummond segue vivo, incomodatício e genial.

Pouco importa aquilo que fizeram do seu legado; menos ainda que, tantas vezes, seja evocado por seus momentos menos inspirados: o que a vulgaridade não consegue exterminar é "A Máquina do Mundo", "Procura da Poesia", "Soneto da Perdida Esperança", "Mãos Dadas" ou "Mundo Grande" - é a poesia contida, mas desenvolta, de alguém que se lê sempre, em leitura concentrada e solitária. Drummond, de quem aprendemos a verborragia, procurou nos ensinar o silêncio.

***


Murilo Mendes com traje e óculos tipicamente barrocos

Surpreende, ademais, a solitária lembrança que um caridoso e incompreendido espírito fez a Murilo Mendes. O poeta mineiro, assim que for devidamente considerado e lido, terá direito a - no mínimo - cinco votos dos nossos escassos e eruditos leitores. A sua obra, que escorrega sabiamente entre o pastiche moderno e a grandiloqüência barroca, reúne momentos dignos dos mais efusivos elogios. Considere-se, por exemplo, "Estudo Quase Patético":

"O vento em ré maior
Prepara o temporal,
Desfolha as estátuas,
Parte as hélices dos anjos.
Ah! quem é que namora
As filhas dos açougueiros?"

Ou, ainda, "Poema Barroco" - que mais parece um Gregório de Matos tardiamente encarnado num corpo jovem de Juiz de Fora:

"Os cavalos da aurora derrubando pianos
Avançam furiosamente pelas portas da noite.
Dormem na penumbra antigos santos com os pés feridos,
Dormem relógios e cristais de outro tempo, esqueletos de atrizes.."

O Moedoteca recomenda ainda, e de maneira enfática, poemas como "Uma Mulher", "O Exilado" (no qual dialoga abertamente com o conterrâneo e vencedor Drummond) e "A Esfinge" - iniciando, assim, a campanha para que nossos escassos e refinados leitores façam uma humilde reconsideração para que o poeta mineiro nunca mais termine empatado com Paulo Leminski. É uma questão de justiça histórica.

***


Aproveitemos, moedotecários e leitores, o clima etéreo da enquete para relembrar, com apenas um dia de atraso, a morte de Castro Alves, maior poeta das terras brasileiras. Embora efemérides mortais sejam estranhas ou mórbidas demais, falecido a 6 de julho de 1871, aos 24 anos, jovem e febril demais, Cecéu nos legou uma poesia que, ao contrário do verso de Drummond, deve ser vociferada.

As tardes pouco ou nada fagueiras nos colégios - aquelas em que a professora de português obriga a leitura em voz alta de "O Navio Negreiro" - servem para educar ouvidos e almas. E nós, leitores modernos, e vós, versejadores modernos, atentamo-nos, enfim, à música e à grandiloqüência do condoreiro.

Por ora, contentemo-nos com curto trecho de "Crepúsculo Sertanejo", verdadeiro delírio imagético e melódico:

"A tarde morria! Nas águas barrentas
As sombras das margens deitavam-se longas;
Na esguia atalaia das árvores secas
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.

A tarde morria! Dos ramos, das lascas,
Das pedras, do líquen, das heras, dos cardos,
As trevas rasteiras com o ventre por terra
Saíam, quais negros, cruéis leopardos."

4 comentários:

Daniel Oliveira disse...

Belo texto, Rodrigo. Também fiquei desolado com a derrota de Cabral, meu poeta predileto e que eu leio com a mesma consideração que dedico a um Baudelaire ou um Eliot.

"a testa indica o gênio" haueuaeahuhuea!

nunca mais procuro brincadeiras nas enquetes do tipo colocar opções absurdas, como o A foreing sound de Caetano e o Paulo Leminski. Porque M. Mendes empatar com Leminski é realmente algo antológico - no mau sentido.

Rodrigo L. disse...

Essa da testa eu li em alguma crônica do Nelson Rodrigues. Ele fala algo sobre a figura do político antigo, que era só uma testa imensa e mais nada.

João Santana disse...

Que tal uma enquete com os poetas baianos vivos? Será que alguém os conhece?

Rodrigo L. disse...

João, sem dúvida algumas pessoas conhecem - mas, naturalmente, são poucas e quase todas iniciadas. Quase todas poetas, eu poderia dizer. É um bom tema para uma enquete futura. Tentamos seguir uma ordem tipo "uma enquente de cinema, seguida de uma musical e outra literária". É uma possibilidade das boas, essa dos poetas baianos contemporâneos.