sábado, julho 26

Satolep - VITOR RAMIL (COSACNAIFY, 288 pág.)


Numa abrasadora cidade do Norte brasileiro, Selbor ressente-se em meio ao calor e à nostalgia. Rememorando uma frase de Eça de Queirós, segundo a qual "estar longe é um grande telescópio para as virtudes da terra onde se vestiu a primeira camisa", esse gaúcho exilado lamenta a ausência do frio e das estações sulistas e a insistência da uniformidade climática na qual passara a viver. A partir daí, empreende um retorno a sua cidade natal. Satolep, anagrama e referência óbvios (e talvez tolos, talvez desnecessários) à Pelotas de Vitor Ramil, lhe retorna não apenas como uma paisagem familiar que se perdia, mas como uma cidade onírica e surpreendente - sobretudo para ele que, após partir, percebeu-lhe as qualidades.


O tom nostálgico e lírico do relato não é desculpa para um romance ingênuo. Sim, há seus trechos laudatórios, suas constatações de grandezas e valores insuspeitos da terra - mas há, além disso, a relação conflituosa entre o que a cidade promete e aquilo que ela de fato promove. Em entrevista, Ramil não procura disfarçar o que há de impressão e vivência própria e real em Selbor. Ao afirmar, por exemplo, que "ouvia falar na lendária Pelotas, rica e cosmopolita, e acreditava que no futuro o lugar em que eu vivia seria uma espécie de Paris" esclarece muito a respeito da construção de Satolep - longe da qual o narrador chega a afirmar que perdera contato com sua alma.


Para além da umidade, das paisagens frias, das ruas enevoadas e enregelantes, há uma cidade que acalenta e dá seus derradeiros sinais de vivacidade artística: João Simões Lopes Neto falece no dia em que Selbor, completando simbólicos trinta anos, retorna; Lobo da Costa, pouco tempo depois, entrega-se à loucura e ao vício e caminha, maltrapilho e ridicularizado, para o pântano onde morreria. As duas maiores figuras literárias de Satolep (que não são fiéis nem às personalidades reais e nem mesmo em relação ao tempo em que viveram e morreram, mas representações pessoais - ao ponto de Ramil afirmar que "o que está no livro é o 'meu' João Simões'") já decaem, mas é a partir delas que Selbor constrói sua obra-prima e seu relato. Encena-se uma inevitável continuidade da criatividade local - representada, por ora, no próprio Ramil.


E o trabalho de Selbor é fotografar Satolep. A utilização de antigas fotografias de Pelotas faz com que o romance se torne extremamente imagético e, além disso, se ampare numa estrutura bastante moderna - mas o que o livro tem de moderno em sua estrutura, compensa em comedimento e conservadorismo na sua prosa; ainda que os parágrafos sejam extensos, sua sintaxe é familiar e seu tom é ameno. O texto de Ramil é contido - como pede, por sinal, a sua busca por uma suposta estética do frio, vagamente teorizada pela figura do personagem Cubano, inspirada em Alejo Carpentier, que, sempre que pode, repete a afirmação segundo a qual "o frio geometriza as coisas".




O rigor perseguido por Ramil e seus personagens poderia ser perturbado pelo tom fantástico que, de assalto, toma a narrativa em certo momento. Após ficar com a maleta de um suposto desconhecido em mãos, Selbor trata de investigá-la e, nela, descobre textos que descrevem perfeitamente as fotos que já tirara e mesmo as que tiraria - a partir desse absurdo a narrativa desenrola-se rapidamente numa espiral incontrolável de imagens fantasmagóricas, mas nada obscuras. A história molda-se de forma circular e nítida: os textos descrevem as fotografias - para as quais Selbor caminha tranquilamente, aceitando o espelhismo que as descrições textuais de suas imagens representam.


Em meio ao seu trabalho, Selbor convive profundamente com as lendas, as pessoas e as memórias de Satolep. Encena reflexões bastante significativas sobre o Negrinho do Pastoreio; envolve-se e aprende-se em conversas com o Compositor (sempre a entoar suas convenientes milongas), o Cubano (sempre a repetir, ainda que ausente, sua idéia de que "nascer leva tempo") e Lobo da Costa, com quem caminha pela cidade e de quem a parte final de sua obra fotográfica se ocupa; remói as figuras familiares: seu irmão espelhado no desconhecido e fugaz dono da maleta, seu pai e sua mãe representados na fumaça com a qual conversa, isolado numa casa de estância durante uma enchente. Tanto as manifestações culturais quanto as memórias particulares lhe revelam a cidade vivida e a que há de viver.


Sua caminhada - conduzida de forma exemplar por Ramil, um autor relativamente novo, mas sem dúvida experiente - acaba por conduzi-lo a uma justificável suspeita de loucura: em certo momento, na busca pelo que seria a sua derradeira foto (já lida e compreendida, mas ainda não encontrada e materializada em imagens) passa a dormir na rua e a descuidar-se de tudo o mais. Mas Ramil não opta pela insanidade: justifica-se a fantasia, pouco importando a falta de verossimilhança. Vagaroso, resignado e lúcido, Selbor conhece e reconhece Satolep, conseguindo o direito de poder dizer-se recém-nascido.


Não lhe faltam, portanto, as reflexões sobre a condição gaudéria. Estando anteriormente exilado, conhecer-se e conhecer o Sul é notar-lhe o isolamento, a estranha condição de "Brasil frio". Como está escrito na breve nota Sobre o Autor, ao fim da edição, Ramil parte "da idéia de que o Rio Grande do Sul não estava à margem do centro do Brasil, mas sim no centro de uma outra história" - idéia que, distorcida pela desinformação ou pela má-fé, poderia trazer a certos espíritos a sensação de uma presunção gaúcha. Ora, tal prática é algo que a literatura e arte nordestina em geral fazem há quase um século sem que lhes apontem pretensões separatistas ou tolices equivalentes. Sobre essa relação entre os Brasis, afirma João Simões a certa altura:


"'Por vezes, os nossos compatriotas distantes perguntam, envolvendo na indagação uma afirmativa: o Sul!... é estéril... Lá o minuano cresta a inspiração, resfria a ebulição mental, criadora... Daqui, de fugazes e ruidosos cenáculos, cujos ecos aparamos, também interrogamos, dizendo: o Norte!... o calor é dissolvente; amolenta e fatiga... E, nem uns, nem outros temos razão bastante; somos preliminarmente ignorantes de nossas coisas e pejorativamente descuidosos de conhecê-las, para amá-las."


Acentuar, por meio da ficção, a relação íntima que o Sul possui com os países da prata é um expediente válido - mas não é, de forma alguma, um subterfúgio político ou ideológico. Selbor identifica-se com a milonga, com as paisagens uruguaias, com a língua espanhola e com a literatura fantástica de forma natural. Todas essas referências remetem à sua infância e às origens dos mitos que Simões Lopes Neto guardou em seus Contos Gauchescos e suas Lendas do Sul.


Ramil, portanto, faz de Selbor a imagem final do homem moldado pelo meio - mas, diante de uma construção urbana tão fluida e inapreensível, repleta de imagens oníricas e de homens materializados em fumaça, voltando-se sempre ao imaginário, às lendas e mitos locais, restará sempre a pergunta do quanto, em realidade, é o homem - seja personagem ou autor - quem molda e finaliza o meio. Pintando-lhe como bem deseja, Satolep, Pelotas, Sul - qualquer que seja o nome, é ela, a cidade, quem nos parece irreal e fantástica, toda retocada por meio da imaginação e da arte.


NOTA:

Um comentário:

Anônimo disse...

MUUUUUUUUUUUUUUUUUUITO OBRIGADO CARA!!!!!!!!!!!