sábado, julho 19

Verão em Baden-Baden - LEONID TSÍPKIN (Companhia das Letras, 208 pág.)


O que pensa o leitor que, por um discutível acaso, acaba abrindo as páginas de um romance intitulado Quando Nietzsche chorou? Que reações poderíamos constatar ao ver alguém folheando o livro Os crimes do mosaico e descobrindo que tal manuscrito conta uma história policial na qual o herói é ninguém menos que Dante Alighieri? Numa literatura essencialmente metalingüística que foi a do século XX, nada mais natural que tal sombra acabe se tornando intensa demais; e é daí surgem os livros medíocres, os manuscritos que, inspirados naquela que é provavelmente a mais imperdoável de todas as fórmulas da literatura, constroem suas histórias utilizando poetas consagrados e escritores do cânone universal.

Desse modo, é completamente óbvio o fato de que porventura possam aparecer aqui e ali as tão prazerosas exceções (que mais prazerosas se tornam à medida em que as bombas surgem): é o caso do bom Nhô Guimarães, livro já resenhado no blog, de autoria do baiano Aleilton Fonseca, cuja história traz impressa a figura eterna de Guimarães Rosa. É o caso também do elogiado O Ano da Morte de Ricardo Reis, romance de José Saramago, que pega emprestado não um grande poeta português, mas seu heterônimo - uma idéia que por si só já é mais do que fascinante -; e, sobretudo, é o caso de Verão em Baden-Baden, do russo Leonid Tsípkin: neste aqui, os heróis são ninguém menos que Dostoiévski e sua esposa Anna Gregorióvna.

Ora: um dos mais aclamados escritores da atualidade, o nobelizado J. M. Coetzee, é o autor de O Mestre de São Petersburgo, cuja história é protagonizada justamente pelo romancista russo. As semelhanças, contudo, acabam por aqui: no vertiginoso romance de Tsípkin, ficção e relatos autobiográficos se misturam; seu estilo montanhoso é apreciavelmente original; e sua devoção ao ídolo não impede uma força literária mais autêntica, pelo contrário: só a deixa ainda mais lírica, específica e bem-realizada.

O ano é 1867: o casal Dostoiévski viaja até Baden-Baden, na Alemanha, para descansar alguns dias e se afastar um pouco das relações pouco amistosas que eles mantinham, não por opção, na Rússia. Paralelamente, o narrador-autor, sem revelar seu nome, se encontra em algum momento do presente, viajando rumo à antiga São Petersburgo (atual Leningrado) para visitar os lugares que foram habitados ou freqüentados por Dostoiévski e também pelas personagens de seus romances. Carrega consigo uma máquina fotográfica e um tesouro inestimável: o Diário de Anna Gregoriovna. Os dois traços itinerantes se entrelaçam, complexos, e é com um deleite verdadeiramente voluptuoso que o leitor descobre que o foco da narrativa mudou, mas já voltou ao anterior e já mudou novamente. Tsípkin trata o leitor com respeito; não o subestima: insere na sua narrativa inúmeras particularidades, mas nos deixa à vontade em nossas interpretações; não usa seu recurso para no parágrafo abaixo dizer “olha, leitor, eu fiz isso e aquilo, usei tal imagem por causa disso e aquilo, não é difícil entender, é só você prestar atenção, seu danadinho”; Tsípkin nem era escritor profissional (sendo mais conhecido como respeitável médico), mas foi digno para com a literatura, ao contrário de muitos autores que, ao invés de ver no leitor uma fera a ser domada, considera-o apenas um mero receptáculo para suas elucubrações.


Quem abrir qualquer página do romance e observá-lo por 3 segundos notará uma parecença sobressalente: se utilizando de longas frases e parágrafos enormes, Tsípkin poderá facilmente ser comparado ao já citado José Saramago. Podemos deixar, entretanto, qualquer comparação de lado, tanto no tocante a supostas influências, quanto aos estilos dos distintos autores: no primeiro caso, basta lembrar que Tsípkin nunca leu Saramago; não é nenhum segredo para nós o sistema que governava a União Soviética no período da Guerra Fria, e desse modo a importação de material estrangeiro não era tão simples. Dos não-russos “recentes” que Tsípkin lia, Kafka era o que ele mais admirava - tira-se daí a conclusão. Segundo a crítica de arte Susan Sontag em sua bela introdução Amar Dostoiévski, além de Saramago, as frases de Tsípkin teriam “algo da força e da autoridade convulsiva” das frases de Thomas Bernhard, outro contemporâneo cuja obra Tsípkin não poderia ter conhecimento. Quanto ao segundo caso, devo salientar que, como eu afirmei anteriormente, o autor russo propõe uma viagem sem freios não só temática como também espacial, temporal e estética (quanto a esta última, podemos citar como exemplo os constantes retornos do autor a certas metáforas, como a inesquecível do casal Dostoiévski que nada enquanto faz amor). Além do mais, Tsípkin não possui a pena visionária e alegórica de Saramago; em outras palavras: Verão em Baden-Baden está mais preocupado em contar sua história do que em passar conselhos e proferir por escrito frases gratuitas de efeito moral. Se manusearmos qualquer romance do escritor português, provavelmente não encontraremos um parágrafo em que não há uma sentença feita para “educar”, um postulado em tom de sermão composto na terceira pessoa do singular ou do plural e no tempo presente. Talvez seja mesmo por essa odiosa característica que Saramago caia no raríssimo campo dos bons escritores que ganham dinheiro hoje em dia; e é basicamente por esse motivo que Paulo Coelho e seu sagrado manto da prosa de auto-ajuda fazem estrondoso sucesso; e igualmente por tal motivo é que as letras de Renato Russo marcaram a ferro em brasa inumeráveis gerações e até hoje são citadas.

Peguemos então outro estiloso: Raduan Nassar. Também construtor de parágrafos gigantes e ritmos frenéticos, o nosso honorável e ainda vivo brasileiro se encaixaria perfeitamente no correspondente ocidental de Tsípkin, não só na obra como na vida (são da mesma época e ambos publicaram bem pouco), não fosse a divergência de suas cadências literárias: enquanto Nassar mantém a tensão de uma cena até o limite, até o ápice mais sufocante e caliginoso, Tsípkin corta suas passagens ininterrupta e bruscamente, deixando o leitor sem fôlego mediante os infindáveis tentáculos que englobam o romance.

Leonid Tsípkin morreu em 1982, no dia do seu qüinquagésimo sexto aniversário. Nunca saiu da Rússia. Quando seu filho e sua nora conseguiram emigrar, ele foi rebaixado a médico-principiante (quando já tinha duas teses de doutorado defendidas) e perdeu 75% do salário da época. Reservado para com a (sua) literatura, teve de pedir a um amigo que contrabandeasse os originais de Verão em Baden-Baden para fora do país e tentasse a publicação. Sempre procurando conseguir vistos para ele, sua esposa e sua mãe, o médico-escritor acabou, após longa espera de anos, sendo avisado de que jamais sairia de sua terra natal. Nesse ínterim, seu filho acaba entrando em contato para dizer que finalmente eles haviam conseguido publicar o romance lá nos EUA: este seria editado periodicamente em um semanário dirigido por imigrantes russos, e já havia saído a primeira parte. Uma semana depois, em sua mesa de trabalho, Tsípkin sofreria um enfarto, e morreria sem jamais ver sua obra publicada.


NOTA:

Um comentário:

Ana Lúcia Parga disse...

Verão em Baden-Baden estou lendo neste momento.
Literatura russa é um dos meus vícios.
Recomendo vivamente Turgueniev: Cadernos de um Caçador e Pais e Filhos.