quinta-feira, agosto 21

Huckabees - A Vida É Uma Comédia (I ♥ Huckabees, EUA/Alemanha, 2004)


Primeiramente, considerações sobre a tradução do título: em original I ♥ Huckabees, pronunciado I Love Huckabees, ou I heart Huckabees – ambigüidade que já foi matéria de debates tão infindáveis quanto inúteis por cinéfilos furiosos. Além da piadinha, o título se refere a uma loja modelo fictícia, exclusiva do filme, com evidente ironia. Caberia aqui um tratado sobre títulos traduzidos para o português com admirável incompetência. Para não estender um tópico assaz desimportante, lamentemos a ausência da delirante polêmica lingüística em língua vernácula.

Contudo, Huckabees - A Vida É Uma Comédia, corresponde um tantinho ao filme, mas não sugere a sua complexidade. A complexidade não está nas referências filosóficas. Os assuntos que pesam em inúmeros calhamaços, divididos em inumeráveis tomos, e entalham rugas nas testas pensadoras e graves ganham uma leveza prodigiosa – a leveza substanciosa de Huckabees. Tomemos algumas notas sobre o argumento.

Albert Markoviski (Jason Schwartzman), poeta, presidente da Open Spaces Coalition, ONG destinada a proteger o meio ambiente, intrigado com uma série de coincidências, encontra por acaso o consultório de um casal de detetives existenciais. Idéia, por si só, muito boa. No curso da investigação aparece a figura desagregadora da filósofa francesa Caterine Vauban (Isabelle Huppert). Ela é a oposição do simpático casal de detetives, interpretados por Lily Tomlin e Dustin (ainda ponho uma auréola sobre a cabeça desse homem). Isso complica mais ainda a problemática de Albert Markoviski, que neste meio tempo perde a diretoria da Open Spaces para um empresário da Huckabees, papel ao cargo do famigerado Jude Law.

Numa das muitas cenas absurdas e hilárias, Albert Markoviski, após tocar fogo na casa de Jude com o incentivo da Caterine Vauban, descobre que os homens são iguais na dor ao ver o desespero do executivo comparado ao seu próprio. Quando tenta dizer isso ao novo irmão de alma ele é agredido, ao que responde: “você está machucando a si mesmo”. Logo ele se impacienta e enfia a mão na cara de seu rival dizendo “agora estou ferindo a mim mesmo”. Tenho certeza que o leitor moedotecário achou a cena hilariante, mesmo adaptada às letras bloguísticas.
"você está agredindo a si mesmo"

Devo advertir ao leitor que agora se farta em gargalhadas, que a escolha da cena foi aleatória. A descrição do enredo funciona para ambientar o leitor que não ainda pôde assistir ao filme, ou seja, quase todo mundo. As histórias que se interpenetram com o drama de Albert Markoviski (de certo modo, o episódio central) são de igual importância. Quase todos no filme passam por uma crise existencial, cada crise mais ou menos trabalhada, com o pendor à caricatura que o gênero de humor adéqua.

A já referida complexidade dá um tom incomodatício de sugestão à presente resenha. Para uma análise adequada seria preciso bem mais espaço do que o conveniente; em meus delírios pensei em algo como Especial de Cinema Huckabees, mas recobrei o bom senso. Que fique sugerido, mas uma sugestão efusiva. Cabe, antes de terminar, lembrar o último post do moedotecário Daniel, que os minguados e fidelíssimos leitores moedotecários certamente nos fizeram o favor de ler, onde se discute a assaz polêmica separação entre Filme de arte e de entretenimento. Esse é um bom momento para reiterar a posição assumida, agora que se fala de Huckabees.

NOTA:

Um comentário:

Palavras e co-lirius disse...

Oi, meu caro...depois de muito tempo, bateu a saudade de ler seus textos. E então, nada mais justo que vir logo. Boa semana que ainda perdura.