quarta-feira, agosto 13

Keith Jarrett - The Köln Concert, 1975


O sentimento que fica ao terminar de ouvir The Köln Concert e seus sessenta e cinco minutos de rara beleza musical é o de esperança. Esperança, sobretudo, na obra humana, de como o homem tenta nobremente se igualar a Deus em fortuna criativa, sem dever-lhe, em certos casos, quase nada.

Mas é até compreensível pensar em The Köln Concert como realização divina, isso se considerarmos aquela definição grega sobre o poeta (leia-se o artista em geral) como mero instrumento dos deuses para divulgar o belo, incapaz de fazê-lo sem estar numa sintonia com o divino, espécie de transe, que de ordinário chamamos inspiração.

A respeito de Keith Jarrett, músico estadunidense nascido em 1945, na Pensilvânia, é preciso tocar sempre no ponto da inspiração, do transe artístico, porque, sem dúvida, quem o viu tocar (ao vivo ou em vídeo, como eu) percebe a sua total entrega e familiaridade com o piano, que, ademais, está em sua vida desde a mais tenra infância: começou a tocar aos três e aos sete fez seu primeiro recital.

No caso das famosas apresentações solo, o nível de entrega e de paixão alcança ares inacreditáveis. Com efeito, não é raro que se diga que Keith e o seu piano transformam-se em um terceiro ente, misto de suor e teclas e de melodias gordurosamente vivas. Isso se deve em destaque aos improvisos com a mão direita, o que torna cada peça exclusiva de certo público, de certo teatro, de certo tempo no espaço.

Jarrett, o performático

O disco The Köln Concert, gravado na Alemanha, em 1975, sem dúvida é seu maior momento como solista, pelo menos do que se tem registrado em álbum. Não à toa é o disco mais vendido da generosa carreira de Keith, ainda hoje produtiva e brilhante.

The Köln Concert tornou-se um disco obrigatório de jazz, ao lado de obras como Kind of Blue, de Miles Davis e A Love Supreme, de John Coltrane. Mas é inusitado classificar TKC somente como um disco de jazz. A começar que Keith Jarrett não é um pianista exclusivo deste gênero estadunidense. Ele, aliás, transita muito bem por todos os pólos da música, incluindo aí a música erudita. São freqüentes discos e apresentações suas tocando Bach, Shostakovich, Mozart, Handel, entre outros. E há muitos destes compositores em TKC, como há também ecos do jazz de Bill Evans, que Keith disse adorar, música gospel, rhythym'blues e tantos outros ritmos misturados em um jorro fulminante e apaixonado.

Como eu disse no começo desta resenha, o sentimento que fica ao terminar de ouvir The Köln Concert e seus sessenta e cinco minutos de rara beleza é o de esperança. Mesmo que a esperança não fosse a última a morrer, como é dito por aí, se ela morresse facilmente, bastaria TKC para fazê-la ressuscitar sempre fresca e vigorada. Ou seja, já temos este recurso quando ela se for.

NOTA:

Um comentário:

Bernardo Ramirez disse...

Sou um fã convicto deste album. Um dos mais bonitos de todo o sempre. Será que isto está registado algures em vídeo. Ia adorar vê-lo tocar...