quarta-feira, agosto 27

O Salário do Medo (Le Salaire de la Peur, FRANÇA/ITÁLIA, 1953)


É do conhecimento de todos o trabalho que nós, apreciadores da arte, temos ao rotular uma obra. Os moedotecários também sofrem deste mal: há poucas semanas brigávamos a murros para decidir qual marcador inserir no post sobre o álbum Release the Stars, de Rufus Wainwright. Não queríamos pôr apenas pop. Sugeri pop barroco, e gostaram. Entretanto, refleti melhor e resolvi que deveria deixar como estava. Meus colegas que me perdoem, mas não quero baderna na hora da escolha dos marcadores.

Sendo assim, sinto-me aliviado ao resenhar Le Salaire de la Peur neste blog. Por quê? Ora, como vocês já devem ter constatado, o único marcador relacionado a filmes é o da década de sua produção. Pela graça divina, não precisarei pôr-lhe um gênero, pois este é - no longa em questão - particularmente peculiar.



Quatro sujeitos sem qualquer futuro num desolador México aceitam o mais arriscado dos empregos: atravessar centenas de quilômetros de estradas esburacadas com dois caminhões cheios de nitroglicerina. Num caminhão, Luigi e Bimba; no outro, os protagonistas Mario (o astro Yves Montand) e M. Jo São homens completamente diferentes, de personalidades muito bem construídas – e, à medida em que o filme avança e os perigos surgem maiores e mais evitáveis, vamos descobrindo as fraquezas de cada um. Não é pequena a probabilidade de um espectador impaciente considerar os momentos iniciais do longa uma grande perda de tempo (eu considerei); mas, após a primeira hora, com o início da jornada, cada minuto é justificado. Neles são mostrados as sutilezas dos humores dos 4 heróis em meio à localidade ordinária em que eles vivem seus miseráveis dias. A relação de Mario com Linda aparenta uma beleza romântica, um quê de afeição mútua, mas qual!, basta a oportunidade de ganhar dinheiro surgir, que Mario a despreza completamente, e fica claro no começo que a consideração dele por ela não é do mesmo tamanho que a dela por ele.

M. Jo (Charles Vanel, na melhor atuação do filme) chega com um ar soberano, intimidando a todos. Mario, humilde, logo vê nele um homem a se respeitar. Mas na estrada, diante do risco de perder a vida, se revela um covarde que beira ao patético; Mario se decepciona e passa tratá-lo quase como um cão. Luigi procura confusão com todos e não consegue engolir calado uma provocação; na estrada, porém, deixa facilmente de lado as desavenças e passa a tratar seu parceiro com respeito e sentimento de fraternidade. Esse parceiro, o Bimba, é homem de poucas palavras, discreto e não muito sociável; se revelará, posteriormente, o mais inteligente para se livrar dos obstáculos.

Mario (Montand) livra M. Jo (Vanel) de uma enrascada.


Diriam: ora, o que acontece não é nada mais que uma “inversão” do caráter dos quatro. Quem era bom vira mau, quem era forte fica fraco, quem era honesto se torna ignóbil. Mas não é bem assim; peguemos Luigi, por exemplo: se ele briga com todos facilmente é porque é uma pessoa hipersensível, capaz de explodir, mas também, graças a essa sensibilidade, ser alguém compreensivo e sem vergonha de demonstrar carinho ao alheio (e é o que acontece depois). Se Bimba é homem de poucas palavras e não gosta de compartilhar seus pensamentos, provavelmente se deve ao fato de ser uma pessoa senhora de si, sabedora de seus limites e de suas virtudes (é o que vemos em seguida). Se M. Jo “se faz de machão” e quer sempre sair por cima nas situações de conflito, é porque deve esconder alguma vileza ou tem um alto receio de vê-la descoberta pelos outros (e na estrada, apenas à vista de Mario, se revela nada mais que um velho fraco). Minha conclusão: quatro personagens genialmente bem-feitos. Assim que terminei de assistir o filme, voltei imediatamente aos créditos iniciais para me certificar de que o roteiro era adaptado de algum romance; posso até estar sendo preconceituoso, mas, para mim, na grande maioria dos casos, somente a literatura consegue construir um ser humano (nesse caso, quatro) de forma tão completa. Devo dizer, porém, que a maior beleza do filme nem são os personagens. A própria história já é fascinante, e a direção mais ainda (O Salário do Medo é provavelmente o melhor filme de tensão já feito – tensão, e não suspense.). Eu simplesmente não posso dizer mais nada sobre a película, pois prejudicaria a apreciação plena.

O Salário do Medo teve cenas cortadas por motivos políticos quando foi exibido nos EUA. Vencedor do grande prêmio do festival de Cannes e do Urso de Ouro em Berlim, essa obra primorosa foi lançada em 1953, época de guerras frias e paranóias de toda sorte – nada mais apropriado. Apesar de todas essas qualidades, tenho duas ressalvas que não são propriamente críticas: a primeira é em relação aos atores que interpretam os norte-americanos no filme: seu modo de falar é explicitamente caricatural, e parece até que estamos ouvindo um cd-rom de algum manual para aprender o inglês mais básico dos básicos – percebi, aí, uma ironia desnecessária, ou, antes, inexplicável. O outro ponto é o final do filme, que, felizmente, não posso contar: achei-o forçado. O leitor que tiver a oportunidade de assistir a obra provavelmente concordará comigo – ou não. Como diria o honorável colega Eder Fernandes: a sugestão está feita.

NOTA:

4 comentários:

Palavras e co-lirius disse...

Jogo todas moedas as 10 que tenho no bolso, não há muita, mas já vale...: uma moeda pelo texto, outra pela dica, uma terceira pela adequação a arte, enfim jogo o restante pelo excelente blog...Se disserem: só isso? Respondo: sim, são 10 moedad de ouro.rsrsr
abração

André disse...

Li o texto completo. Muito grande, mas que na minha opinião, não esclareceu o roteiro.

"Quatro sujeitos sem qualquer futuro num desolador México aceitam o mais arriscado dos empregos: atravessar centenas de quilômetros de estradas esburacadas com dois caminhões cheios de nitroglicerina."

"– e, à medida em que o filme avança e os perigos surgem maiores e mais evitáveis"...

Sim, mas o que acontece? Vemos as cenas dos caminhões andando por uma estrada? Existe perseguição?
O resto do texto analisa a personalidade dos personagens, o que é algo secundário.

Enfim, não leve a mal, mas vou baixar esse filme pra ver se eu gosto, pois não entendi do que se trata.

Daniel Oliveira disse...

trecho do texto:

"Eu simplesmente não posso dizer mais nada sobre a película, pois prejudicaria a apreciação plena."

Arlete Cantusio disse...

fui feliz ao assistir o Salário do Medo aos 17, 18 anos e até hoje, aos 72 anos, considero um dos melhores. E advirto que sou cinefila. Arlete