sábado, agosto 2

Operação França (The French Connection, EUA, 1971)


A grande maioria diz que só vale pela perseguição de metrô. Alguns prestam atenção na atuação de Gene Hackman. Eu, particularmente, creio que ainda existam outras qualidades. Não posso cair na besteira de afirmar que Operação França é um simples filme divertido, que não nos faz pensar como Bergman ou Tarkovski mas é uma “boa pipoca”. Não existe esse negócio de “filmes de arte”: todo filme é artístico, porque todo filme é cinema; assim como todo filme foi feito para entreter. Negar isso é o mesmo que dizer que Poe, Stevenson ou qualquer contador de histórias do romantismo francês não são alta literatura; negar isso é o mesmo que desmerecer toda a música popular mundial diante da música erudita. Operação França é, sim, um filme de arte, e excelente.

Jimmy “Popeye” Doyle (Hackman) e Buddy Russo (Roy Scheider) são dois policiais sem qualquer ética que perambulam pelas ruas de Nova York com o objetivo de prender criminosos e derrubar grandes redes de tráfico. Para suas “decepções”, porém, o máximo que conseguem são alguns peixes pequenos, para os quais a própria polícia não dá a menor bola. Doyle e Russo saem por aí, batem à vontade, ameaçam com as armas, são racistas (“nunca confie num preto”, diz Russo) e jamais ficam satisfeitos. Até que uma reunião suspeita num clube de elite deixa Doyle desconfiado e ao mesmo tempo ansioso por estar diante de uma possível “grande oportunidade”. De fato há a “Operação França”, e a partir de agora os problemas não mais cessarão.

Com efeito, as duas qualidades que se sobressaem são a perseguição entre um carro e um metrô e Gene Hackman. A primeira é inacreditável: o diretor William Friedkin utilizou o próprio tráfico de Nova York, com o protagonista, sem dublê, dirigindo em alta velocidade e cercado de transeuntes reais. O segundo - Hackman - realiza no longa uma performance magnífica. Nunca foi simples fazer o papel de um durão, mas o ator, com sua maestria, acaba nos confundindo e levando-nos à precipitada conclusão de que ranger os dentes daquela maneira e esbravejar daquele jeito são as coisas mais fáceis do mundo. No trecho em que Russo visita o apartamento de Popeye, este se encontra adormecido com a perna algemada ao pé da cama (quem o prendeu foi a menina que dormira com ele). Russo o acorda, e Doyle, sonolento, após abrir as algemas, pede ao colega que lhe entregue as calças que estão jogadas mais adiante. Russo não o atende imediatamente; Doyle, com pressa, bate as palmas das mãos e manda-o se adiantar. Hackman atua de forma tão natural e vigorosa que quase me fez derramar lágrimas de comoção - foi com essa cena que ele levou o oscar para casa.

As semelhanças entre Jimmy "Popeye" Doyle e o marinheiro Popeye: mera coincidência?

Outro mérito é o roteiro. Emendando o finalzinho da década de 60, a década de 70 de Hollywood foi uma das melhores de sua história, comparável mesmo à era clássica. É quase milagroso o fato de não ter acontecido uma espécie de crise de 29, tamanha a quantidade de bons roteiros que surgiam e eram filmados um após o outro (este, inclusive, é baseado em fatos reais). Há uma passagem que deve explicar o esmero com que foi feito o daqui (e se não possui tanta qualidade assim, ao menos é louvável): Popeye e sua trupe estão numa missão derradeira para desmascarar a operação. Eles perseguem um carro marrom no qual, segundo Doyle e Russo, está escondida toda a droga. Dentro dele se encontram 3 ou 4 suspeitos, que param o carro em certo local e saem a pé. A equipe de Popeye (na qual se inclui um colega que não vai com a cara dele e que não acredita nessa história de operação) fica de tocaia, esperando os bandidos regressarem, pois, para Popeye, eles voltarão para trocar o carro ou fazer qualquer coisa que os denunciem. Após horas e horas - os policiais já cansados de tanto esperar - três ou quatro sujeitos finalmente se aproximam do carro e começam a mexer em seus pneus. Os policiais agem: mas não são os mesmos homens. Nós, espectadores, já ficamos sabendo, pela atitude, vestimenta e armas (pedaços de metal) dos desconhecidos, que não passam de arruaceiros. E, justamente, é o que os policiais constatam em seguida. Operação França, necessário dizer, é um filme que visa a bilheteria. O roteirista poderia achar que o público (ou parte dele) não entenderia, somente através das imagens, que se tratava de ladrões. E é por isso que Popeye grita enfurecido: “Nada além de um bando de ladrões de carro!”, ou seja: o espectador é, na cabeça do roteirista, incapaz de chegar a essa óbvia conclusão. Tal postura é uma das coisas que mais me deixa indignado no cinema e na arte de um modo geral. Contudo, o roteirista (ou quem quer que tenha posto essa fala), encontra uma saída para não deixar a impressão de que o espectador é subestimado, e é aqui que eu digo porque o roteiro é bom: o policial que não vai com a cara de Doyle, após procurar a suposta droga no carro e encontrar apenas uma folha de jornal, vê seu rival proferindo a frase “esclarecedora” e rebate, para provocá-lo, apontando o interior do veículo e dizendo “Nada além de um mapa de Nova York” - e a frase anterior se torna plenamente justificável e apropriada.

Para quem ache que me contradigo, há uma diferença entre “filme comercial” e “filme de entretenimento”. O segundo conceito é descartável, já que se aplica a qualquer filme; o primeiro se baseia em estatísticas, visa um estilo de filme (que engloba montagem, diálogos, trilhas sonoras e aparência do elenco específicos) que tenha a probabilidade maior de atingir a massa. Ainda assim, qualquer definição é vaga. Renoir e Hitchcock sempre deixaram claro que faziam seus filmes para o grande público, e somente para este; e se alguém tiver a coragem de dizer que os filmes de Renoir e Hitchcock não são de arte, ou “alta arte”, que se prepare para levar umas boas pauladas. Operação França é, portanto, um filme comercial, de entretenimento e de arte; e, antes de tudo isso, é um longa-metragem que vale a pena assistir.

NOTA:

Um comentário:

filomeno2006 disse...

Gran actuación de Fernando Rey (gracias a la intervención de Dan Apola)