quarta-feira, setembro 3

Carlos Pita - Águas do São Francisco, 1979


A idéia de produzir um álbum já soa datada. Faz-se uma canção, prepara-se a divulgação virtual - e, ainda que ao fim se exija a confecção de um disco, pouco ou nada resta do conceito original da produção de um álbum, algo envolvendo a arte e o texto de encarte, a disposição das faixas, a separação de lados A e B. Não ignoro a paixão por vinis que, após passar um tempo na obscuridade, retorna a ser explorada comercialmente - contudo, tal exploração exagera em preços e baseia-se, na maioria dos casos, na reedição de discos antigos.


Não confesso, dessa forma, nenhuma sanha passadista e anacrônica: a quem poderia enganar, considerando que não me formei escutando vinis, mas esses ordinários objetos que chamamos CDs? Todo esse prólogo se deve ao contato que tive (e continuo tendo), há alguns meses, com Águas do São Francisco, vinil lançado por Carlos Pita num distante 1979. Com arte de Juraci Dórea, disposição milimétrica de faixas e separação estudada de lados, o álbum organiza-se como uma coesa obra de arte - conceitual e definida em ciclos bem claros, Águas do São Francisco me inquieta e encanta. E que se explique os motivos.


Carlos Pita nasceu em Feira de Santana. Embora conterrâneo meu, sempre ignorei sua música: aos meus ouvidos, nunca diferiu muito de uma MPB diluída, inofensiva, pronta a ser reproduzida, de forma indiferente, em rádios domesticadas e desinteressantes. Não é uma impressão de todo equivocada. Pita, hoje, é mais conhecido como co-autor de "Cometa Mambembe" (clássico gravado e regravado por 80% dos grupos de axé music da Bahia) e autor do álbum Brisa, lançado em 1985, notadamente marcado por um som desagradável e tolo (vide "Brisa", "Clareza" e outras, com certas exceções - como "De Santana", já gravada por Xangai).


Pelos idos da década de 70, porém, o compositor era um dos mais talentosos escudeiros de Elomar: participara de alguns discos do menestrel e confiava em seus preceitos, dedicando-se ele também a uma exploração ávida em meio à cultura sertaneja dos interiores baianos - essas terras meio esquecidas do estado. E, se Xangai sempre foi o maior cantor e intérprete desse bando roceiro, Dércio Marques e Fábio Paes os maiores pesquisadores, uma rápida atenção dedicada ao Águas do São Francisco, na época do seu lançamento, não permitiria dúvidas sobre qual era seu mais promissor compositor.


E parece-me possível dividir o álbum da seguinte forma:


I - Introdução


"O Reino das Águas Barrentas e os Desafios do Mar", canção que inicia a obra, é um repente cuja letra só se preocupa em enfileirar referências sertanejas em melodia repetitiva e pinhos dedilhados:

"É a flor da bunina
É o Raso da Catarina
É o brilho do luar"


A flor da bunina, típica da região. O Raso da Catarina, área extrema das mais brabas caatingas baianas, reduto derradeiro dos bandoleiros dos grupos de Lampião e Corisco. O brilho do luar, tema recorrente na poesia lírica dos sertões. Pita vai esclarecendo seus temas, que não são unos e nem essencialmente geográficos ou naturais, mas também imaginários, míticos e históricos. A canção, que avança num crescendo irrefreável, vai se encorpando por meio de um belíssimo arranjo vocal, extremamente harmonioso e do qual surge, pela primeira vez em disco, a voz de Roze.


Ainda que se trate de uma espécie de repente, já se percebe a competência de Pita como melodista.


II - Canções de cavalaria



Composto por três canções, é, muito provavelmente, o ápice da obra. Nele, as baladas se dividem entre vozes e eu-líricos feminino e masculino. O feminino, sempre conduzido por Roze, cantadora nascida em Tucano, no sertão de Canudos. O masculino, nas duas primeiras faixas, pelo próprio Carlos Pita e, na terceira, pelo cantador mineiro Dércio Marques.

"A História do Cavaleiro Enluarado com a Donzela do Bem Amar" começa:


"Cavaleiro enluarado,

De onde vens que não se chega?

De que terra traz partida

Coração sujo de estradas?"


O sotaque carregado e a voz encantada de Roze, de tão belos, chegam a diminuir a participação de Pita - e sua voz quase nos soa indigna de acompanhar tamanha excelência vocal. O diálogo segue com explicações e galanteios por parte do Cavaleiro; pelos lados da Donzela, perguntas e, finalmente, entrega.


A sutileza desse ciclo fica explícita em "A História do Cavaleiro de Couro e Corda com a Dama dos Rasos de Seca", segundo momento das canções de cavalaria: pouco a pouco, por cima dos pios de passarinhos e dos toques de chocalhos de boi, a melodia se mantém num tom menor, singelo e contido. Pita, a certa altura, entoa que


"Minha graça é ser vaqueiro

Cavaleiro do sertão"


E é tudo tão ameno e belo que o Cavaleiro depõe as armas e canta:


"Cavaleiro que sabe a dança

Faz do amor a valentia"


Dércio Marques, em "A História do Cavaleiro Sertanejo com a Princesa do Clarear", também aparece menor, quase reverente diante da Princesa interpretada por Roze - sempre altiva e segura, a afirmar


"Meu reino é o do clarear

Meu corpo é todo o sertão".


III - Canções palacianas I


Duas canções compõem o primeiro momento da composições palacianas. "O Romance do Rei do Ensolarar com a Bela das Rendas de Lua", cantada por Pita e Dércio Marques, narra, como se infere pelo título, uma paixão. O tom, de certa forma, ainda lembra muito o do ciclo anterior, mas é notadamente mais dramático, com vocais mais altos e de progressão diferenciada: se as toadas anteriores permaneciam numa levada e numa melodia constantes, encantatórias pela repetição, aqui se percebe uma espécie de variação operística.


Característica também perceptível em "A Princesa do Agreste e o Cantador do Elo ao Mar", na qual Elomar é citado por meio do trocadilho já exposto no título. Os dedilhados solenes dos primeiros versos se diluem num som mais singelo na seqüência. Canção obsessiva em sua simetria, encerra o lado A do LP com um lirismo cifrado.



IV - Canções de danças

Ao início do lado B, Pita interpreta uma canção de Gereba e Patinhas. Destoa completamente de tudo o que a precedeu e de quase tudo que a segue: é dançante, beirando o forró, embora de compasso acelerado. Com sua letra curta e repetitiva, está isolada no contexto do álbum e se justifica como momento de exceção e de transição.

Transição que se completa na faixa seguinte: "A História dos 4 Reinos Desaparecidos e os Guerreiros do Mal Viver" já insinua a retomada dos temas palacianos, mas aproxima-se, musicalmente, da composição de anterior. De início lento e grave, transforma-se num animado forró de letra também repetitiva.

V - Canções palacianas II

A última seqüência do álbum volta a tratar de rainhas, príncipes e princesas. De início, em "Princesa Sertaneja" (outra de Gereba e Patinhas), permanecem as intenções dançantes das duas faixas anteriores - mas não duram: em "A Rainha do Trançar e o Violeiro dos Esqueces" (parceria entre Pita e Fernando Lona), por cima do som de águas correndo, a melancolia retorna - é canção belíssima, mas distante da excelência melódica e lírica do que se pode ouvir no lado A.

Versando sobre "um cego de cantiga/ que fazia da viola/ os olhos de ver a vida", Fernando Lona compôs "A História da Princesa das Candeias de Amor com o Cego do Alumiar", canção intimista que dá continuidade ao ciclo, mas remete às influências repentistas da canção de abertura e à cadência apressada das cantigas de dança.
E Águas do São Francisco se encerra de forma já bastante familiar: há, em "O Principe das Verdejanças e o Amor do Verdejar", a melancolia, o andamento linear e a pouca variação do tom - tudo isso a serviço da beleza, longe de transformar música ou disco em obras desinteressantes ou enfadonhas. Os arranjos sutis e as belas melodias ocupam-se de fazer de Águas do São Francisco um clássico do cancioneiro sertanejo e brasileiro.


NOTA:

4 comentários:

Anônimo disse...

Venho lá do Idelber e arrisco-me a jogar a primeira moeda.
Mas caro Caronte, nem nos blogs estaremos livres disso?
Me estranha um pouco, para não dizer muito, o tom severo, com que vocês tratam o português.
Talvez seja eu o intruso, mas também é minha lingua. Me desculpem.
Brincadeiras à parte, o blog é muito interessante.
Estou lendo com atenção todos os posts.
Abraços
FM

Rodrigo L. disse...

Sinta-se à vontade para atirar as pratas. Quanto ao tom severo, pelo menos em relação aos meus textos, peço que considere, às vezes, um traço meio cômico. Ou, como diria Caetano, não.

Abraço

Leni David disse...

Que beleza Rodrigo!
Concordo com você quando diz que Águas do São Francisco é um clássico do cancioneiro sertanejo e brasileiro. Excelente o seu post!

Lurian disse...

Concordo contigo, Águas do São Francisco é um clássico de rara beleza. No meu entender o disco segue a tradição elomariana de cantigas nordestino-trovadorescas com veio medieval. Nele resplandece a voz de Roze. O disco ora dramático e ora remete ao jogral. Na primeira música chama atenção não apenas o tom de repente, mas a incelença do refrão, música entoada geralmente por canto feminino, das rezadeiras nordestinas, geralmente associada à morte, no caso as enchentes, desgraças, unindo a tradição das incelenças de chuva e morte. Disco-peça que merece sempre ser ouvido. Pena que Carlos Pita e Roze não tenham tido maior divulgação. Quanto a Roze, considero cada trabalho dela, que foram poucos, uma pequena obra de arte sertaneja, canta(va) com muita propriedade os temas, sobretudo temas politizados sobre a questão da terra e os que se referem a Canudos.